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Lenny Blue: ‘Genocídio da velhice negra impede o direito de envelhecer com dignidade’

Em entrevista à Alma Preta, a militante defende o direito à velhice digna dos negros e propõe uma reflexão sobre invisibilidade
Imagem mostra a ativista Lenny Blue, uma mulher negra, de 70 anos, com cabelos grisalhos.

Foto: Arquivo Pessoal

27 de novembro de 2023

O dia 7 de julho de 1978 é um marco na história do movimento negro brasileiro. Nessa data, há 44 anos, em plena ditadura militar, o Movimento Negro Unificado (MNU) reuniu mais de 2 mil pessoas nas escadarias do Theatro Municipal de São Paulo em um levante contra o regime e a violência praticada contra a população negra no país. Entre as ativistas que estiveram nesse dia histórico está a advogada Lenny Blue, co-fundadora do MNU.

Hoje, aos 70 anos de idade, Lenny continua ativa na luta contra o racismo e fez da pauta da idosidade negra o norte de sua militância. No dia 24 de novembro, inclusive, Lenny Blue celebrou a aprovação de seu projeto “Velhice negra, invisibilidade e apagamento: necropolítica e genocídio no envelhecimento”, no mestrado em Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal do ABC (UFABC).

Em entrevista à Alma Preta, a militante defende o direito ao envelhecimento com dignidade das pessoas negras e propõe uma reflexão ao movimento sobre a invisibilidade dessa discussão. “Existe o genocídio da velhice negra que impede o direito de envelhecer com dignidade. Minha luta é para que se fale sobre isso”, alerta Lenny.

Confira a entrevista completa:

Alma Preta: Como você enxerga o tratamento ao idoso negro?

Lenny Blue: A velhice por si só já é invisibilizada. O termo “velho” reporta ao que é fora de época, sem atividade, velho é para se jogar fora… Não serve mais. Essa é a ideia que se passa da velhice em geral. 

Mas quando se fala velhice de pessoas negras, o mais sério é que nós, tendo em vista a questão do genocídio da juventude negra, sequer chegamos a envelhecer, a gente morre antes. E nós morremos antes não só por isso, mas também por falta de políticas públicas específicas para a velhice negra.

A que podemos atribuir a falta de políticas públicas para idosos negros?

A velhice negra é invisibilizada, não se fala dela. Os movimentos sociais, mesmo negro, não colocam a demanda da idosidade na pauta. Então o que acontece? Não se pleiteia políticas públicas, porque se não se fala disso, não existe. E essa é uma das piores violências que eu considero com a velhice negra.

Quais são os efeitos do racismo específicos na ‘terceira idade’?

O racismo é potencializado na idosidade do negro, porque o racismo estrutural segue uma linha do tempo desde a infância, com a ausência de educação e as péssimas condições de moradia. Depois, isso continua com o trabalho informal e a ausência de acesso à saude, por exemplo. E isso se potencializa com o avançar da idade. 

Então, o povo negro fica à mercê primeiro da invisiblidade, segundo do descaso. Essa é uma questão que me preocupa e que eu acho que nós temos que pensar muito, enquanto negros. Não podemos falar de outros temas sem colocar os velhos nesse rol.

Como combater a invisibilidade aos idosos negros?

Muito se fala sobre respeito, mas como tratamos os nossos velhos dentro de casa? Existe uma hipocrisia no movimento negro, onde uma suposta “ancestralidade” é endeusada, mas nossos jovens não têm relação com os idosos dentro de casa. O trabalho tem que ser feito de dentro para fora, porque nós também invisibilizamos. 

Não é só falar em respeito e ancestralidade, isso é muito importante, segundo mestre Juarez, não existe afrofuturismo sem olhar para a ancestralidade. Mas isso precisa ser real, no cotidiano. É uma reflexão. 

Tenho uma vida de ativismo. Estava nas escadarias do Municipal em 1978. Desde então, tenho pautado minha vida na luta contra o racismo. Por isso, digo que ainda não conseguimos convencer o povo da importância de discutir a pauta da idosidade negra, até para o nosso bem viver. 

Não se pode falar em bem viver se não falamos de política de saúde para a população negra idosa. A Política Nacional de Saúde Integral da População Negra ainda não está sendo aplicada. Precisamos ter um marcador etário das dificuldades do idoso negro na velhice, não dá pra colocar no mesmo rol. Se a gente não admite isso entre nós, então a gente não consegue convencer ninguém.

De que forma essa discussão impacta diretamente a senhora?

Não sou diferente das outras velhas. A velhice me trouxe vários ganhos, inclusive essa percepção sobre o movimento. Eu adoro a velhice. Tenho artrose, um monte de coisa, mas a velhice é mais, muito rica, e essa luta virou o norte da minha militância hoje. 

A Lélia [González] dizia o seguinte: o racismo se constitui como a sintomática que caracteriza a neurose cultural brasileira. Nesse sentido, veremos que sua articulação com o sexismo produz efeitos violentos sobre a mulher negra em particular. 

Sou cria da Lélia, ela pegou na minha mão, me ensinou a caminhar na luta contra o racismo pelas mulheres. Essas palavras só embasam minha preocupação, de como o racismo se articula e produz violência na vida das mulheres negras idosas. 

Meu projeto de vida, embora tenha 70 anos, é, até onde eu viver, viabilizar, acabar com essa invisibilidade, falar sobre isso, como um alerta, um alerta de formas mais modernas de apagamento, que são amparadas pelo colonialismo.

Como encarar esse problema para garantir o direito pleno ao bem viver e ao envelhecimento do idoso negro?

A primeira coisa é quebrar o preconceito. Ter a consciência de que nós produzimos isso, mesmo que não percebamos. Inserir na pauta de nossas discussões, em qualquer situação, a questão da velhice negra, assim como a gente insere o genocidio. 

Idosos negros foram os que mais morrerem na pandemia de covid-19 e isso não virou manchete em lugar nenhum. Se existe um genocídio que impede o nosso direito a envelhecer, existe o genocídio da velhice negra que impede o direito de envelhecer com dignidade. Minha luta é para que se fale sobre isso. A primeira pessoa a morrer na pandemia foi uma doméstica negra, isso porque estamos na base da pirâmide da desigualdade. 

Falando na questão da saúde, as vacinas não chegaram nos idosos negros, tem pesquisa sobre isso. E sobre esses estudos específicos, as questões que mais nos acometem, a exemplo da exclusão digital, por exemplo, são mais complicadas na velhice. 

As redes sociais, a internet para uso de aplicativos de saúde, consulta de benefícios para essa população, como o idoso negro vai ter acesso a isso se navega 14% menos na internet quando comparados a mulheres e homens brancos? Precisamos pensar em tudo isso, tratar como prioridade e refletir sem medo: já identificamos o problema, agora o que fazer para mudar?

  • Fernando Assunção

    Atua como repórter no Alma Preta Jornalismo e escreve sobre meio ambiente, cultura, violações a direitos humanos e comunidades tradicionais. Já atua em redações jornalísticas há mais de três anos e integrou a comunicação de festivais como Psica, Exú e Afromap.

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