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Moradores de Guarujá relatam medo após execuções feitas pela PM: ‘Sou um alvo fácil’

Representantes do Poder Público visitaram as comunidades que tiveram barracos invadidos pela polícia desde o último final de semana

Texto: Gil Luiz Mendes | Foto: Patrick Silva/Alma Preta Jornalismo

Imagem mostra mulher gritando e segurando faixa em Guarujá.

2 de agosto de 2023

Fazia menos de uma semana que um homem conhecido pela vizinhança apenas como Cleiton havia se mudado para uma palafita de madeira às margens do mangue da região do Estradão, dentro da comunidade Sítio Conceiçãozinha, na cidade de Guarujá, na Baixada Santista, quando policiais da Rota invadiram seu barraco no último sábado (29). A criança que estava em seu braços foi arrancada e entregue a uma adolescente. O homem foi arrastado para o lado de fora e executado com três tiros à queima roupa.

Esse é apenas um dos 14 assassinatos contabilizados pelo Governo de São Paulo decorrentes da Operação Escudo, deflagrada pela Secretaria de Segurança Pública (SSP) após a morte do PM Patrick Reis, ocorrida na semana passada no município. A ação policial é vista pelos moradores da região como uma vingança orquestrada contra todas as comunidades pobres da cidade litorânea.

Pelas ruas e vielas do local o que se vê são olhares tensos e desconfiados com a presença de estranhos, como houve nesta quarta-feira (2) quando deputados estaduais integrantes da Comissão de Direitos Humanos da Alesp e membros da Ouvidoria das Polícias, Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e Ministério dos Direitos humanos visitaram o local para ouvir os relatos dos moradores sobre o os acontecimentos dos últimos dias.

“Eu sou um alvo fácil para eles”

“Eles não respeitam ninguém. Estão invadindo as casas à procura de qualquer pessoa que tenha passagem pela polícia ou tenha alguma tatuagem. Eu estou com medo. Sou trabalhador, nunca tive nenhum problema com a justiça, mas sou negro e tenho o braço tatuado. Eu sou um alvo fácil para eles. Quando escurece eu não saio mais de casa”, declarou um morador da região, que prefere não se identificar com medo de represálias.

Outra execução ocorreu não muito longe de onde Cleiton foi assassinado. Porém, diferente dele, que era morador do local, o homem assassinado pela polícia não residia ali. Testemunhas contam que uma viatura da Rota entrou na comunidade com um homem no porta-malas. Foi ordenado que ele saísse do veículo e corresse para dentro da mata e depois disso ele teria recebido ao menos cinco tiros antes de morrer.

“Não deixaram a gente chegar perto para saber se era alguém aqui da comunidade. Também não deixaram a ambulância entrar para socorrer o rapaz. Eles fizeram isso para justificar que ele estava fugindo. O governador e o secretário disseram na TV que houve confronto. É uma grande mentira. Quem iria trocar tiros com dezenas de policiais fortemente armados. Isso é um absurdo”, revela uma dona de casa que pediu anonimato.

Episódios semelhantes ocorreram em outras comunidades de Guarujá. Durante uma manifestação organizada por movimentos sociais e de direitos humanos em uma praça da cidade, moradores de diferentes bairros comentaram que a PM age da mesma forma truculenta dentro das favelas.

“Lá na Prainha houve, pelo menos, três mortes em que as vítimas não eram de lá. Chegaram com essas pessoas dentro do camburão e executaram elas lá. A gente tá com muito medo. O governador disse que isso vai durar mais um mês ainda. Quantas pessoas ele pretende matar até lá?”, questionou um jovem que reside em uma das comunidades que estão recebendo a Operação Escudo.

Ouvidor das Polícias diz que houve violações por parte da PM

O ouvidor das Polícias de São Paulo, Claudinho Silva, passou a manhã de quarta-feira ouvindo relatos de pessoas que tiveram suas casas invadidas pela PM. Ele revela que uma série de violações foram cometidas pelos policiais e exige que a operação seja interrompida imediatamente.

“As pessoas estão se sentindo muito inseguras e clamam por paz e tranquilidade. Elas querem voltar às suas vidas normalmente. A nossa luta é que essas pessoas possam viver dignamente. Ouvimos relatos de pessoas que estão à base de remédios depois que tiveram suas casas invadidas. A situação é muito grave”, pontuou o ouvidor.

claudinhoouvidorClaudinho Silva, ouvidor das Polícias de São Paulo, visitou a cidade de Guarujá após a chacina do último fim de semana. | Foto: Patrick Silva/Alma Preta Jornalismo

O mandato da deputada estadual Ediane Maria fez um requerimento de convocação na Alesp para que o secretário Guilherme Derrite compareça às comissões de Segurança Pública e de Direitos Humanos da para prestar esclarecimentos sobre a Operação Escudo. “Mais uma vez o Estado tortura e assassina da maneira mais brutal possível a população preta e pobre e sai por aí dizendo que não houve excessos. Ao fazer isso, também expõe seus agentes de segurança a condições de perigo e insalubridade”, afirma a deputada.

“O governador Tarcísio de Freitas e seu secretário de segurança, a partir do momento que deram o aval para que essa operação acontecesse, têm as mãos sujas com o sangue desses moradores aqui de Guarujá. Queremos o fim imediato dessa operação. Estamos tomando medidas como pedir ao Ministério Público que investigue a ilegalidade da operação”, exige a co-deputada Paula Nunes, da Bancada Feminista do PSOL.

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