Colaboração: Yasmim Alves
Artistas populares e integrantes do grupo Afoxé Alafin Oyó denunciam a desvalorização dos Afoxés na promoção da cultura em Pernambuco, com baixos cachês e falta de investimento em suas atividades não somente no Carnaval, como ao longo de todo o ano.
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Essa realidade contrasta com a expectativa econômica da capital Recife. O secretário de Turismo e Lazer, Thiago Angelus, prevê que o Carnaval deste ano deve injetar mais de R$ 2,7 bilhões na economia.
Em comunicado publicado em rede social, a Associação de Dança Popular de Pernambuco (ADEPPE) aponta que a participação de grupos de passistas do Frevo foi reduzida drasticamente na programação oficial do Carnaval do Recife dos últimos três anos.
Segundo a associação, há grupos com apenas uma ou duas apresentações durante todo o ciclo carnavalesco.
“Se o frevo é, de fato, o coração do nosso carnaval, por que quem mantém essa tradição está sendo deixado de lado?”, questiona a publicação. “Valorizar o frevo não pode ser só discurso. É preciso garantir espaço, visibilidade e respeito a quem dedica sua arte e resistência para manter essa manifestação viva”, complementa o texto.
Em 2023, a associação também apresentou um manifesto denunciando a ausência de políticas públicas de cultura para o segmento e a desvalorização da dança popular. “Não é incomum ouvirmos coisas do tipo: ‘O camarim é para os artistas’, como se artistas não fossemos”, diz trecho do manifesto.
Desafios para subsistência dos Afoxés
Os Afoxés, manifestações culturais afro-brasileiras, enfrentam diversos desafios para manter vivas suas tradições. Um deles é a devida valorização do poder público.
De acordo com Fabiano Santos, presidente da União dos Afoxés de Pernambuco (UAPE) e do Afoxé Alafin Oyó, o Carnaval do Recife iniciou as atividades de 2025 sem a participação dos afoxés estar completamente fechada, enquanto a de grandes artistas e de fora de Pernambuco, já estava fechada.

Além disso, existem afoxés que recebem de R$ 4 mil a R$ 7 mil de cachê, valor insuficiente para custear figurino, adereços, transporte, alimentação, manutenção de instrumentos e a apresentação cultural, que geralmente conta com pelo menos 20 integrantes.
Yasmim Alves, mestranda em Ciências Sociais e integrante do Afoxé Alafin Oyó, destaca que as políticas públicas culturais no Recife, por exemplo, são baseadas nas datas festivas. Além do Carnaval, os investimentos do poder público se concentram nas festas de São João, Natal e Ano Novo.
Segundo ela, essa centralização do dinheiro público dificulta as atividades desenvolvidas no decorrer do ano, como as idas a escolas para apresentar a história dos Afoxés – iniciativa que ajuda a cumprir a aplicação da lei federal 10.639, de 2003, que tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira nos currículos das escolas públicas e privadas do Brasil.
“Só o fato da política pública girar em torno disso é insuficiente diante do que fazemos o ano inteiro”, reforça.
Cobrança do poder público
Diferentes grupos de Afoxés se reuniram com a Prefeitura do Recife, liderada por João Campos (PSB), em 17 de dezembro de 2024, para reivindicar maior divulgação das apresentações dos Afoxés nas páginas oficiais da gestão municipal e o desenvolvimento de uma política pública cultural ao longo do ano, fora dos períodos festivos.
Apesar disso, conforme relatado pelos integrantes do Afoxé Alafin Oyó, a programação do Carnaval 2025 começou sem as apresentações dos grupos terem sido fechadas.
A Alma Preta procurou a Secretaria de Cultura do Recife e questionou as razões de a programação dos Afoxés não ter sido fechada com antecedência, como a de grandes artistas nacionais, e se a pasta pretende desenvolver ações culturais descentralizadas do período festivo. Até a publicação deste texto, não houve resposta. O espaço segue aberto.