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Barbosa: a história do goleiro negro que foi ídolo do Vasco e condenado pela derrota na Copa de 1950

Somente 16 anos após a suposta falha contra o Uruguai um defensor negro voltou a ser titular na Seleção Brasileira numa Copa do Mundo

Imagem: Reprodução/Acervo Terceiro Tempo

Foto: Imagem: Reprodução/Acervo Terceiro Tempo

30 de novembro de 2022

“Qual é a pena máxima no Brasil? Não são 30 anos? Pois eu já estou a mais de 40 anos cumprindo e ninguém esquece. Se eu fosse um criminoso vulgar, eu entenderia. Mas qual foi o meu crime? Qual foi o meu pecado?”, disse o ex-goleiro Moacyr Barbosa Nascimento para Helvídio Mattos, em 1993.

Talentoso e ídolo no Vasco da Gama, a história do atleta negro ainda é marcada pela derrota na Copa do Mundo de 1950, fato que determinou a forma em que o Brasil passou a tratar os defensores do gol nos últimos anos.

Somente 16 anos após a perda do título em 1950 um goleiro negro voltou a ser titular na seleção brasileira em uma Copa do Mundo. Manga atuou contra Portugal, na despedida da fase de grupos em 1966. Depois foram mais 40 anos para que Dida fosse o camisa 1 em cinco jogos em 2006.

Origem

Nascido na rua Major Sólon, número 27, em Campinas, o filho de Emídio Barbosa e Isaura Ferreira Barbosa e tinha dez irmãos, segundo o “Museu da Pelada”. Aos 14 anos, logo após a morte do pai e de dois irmãos, o goleiro se mudou para a capital paulista para estudar e trabalhar. Morava com a família no bairro da Liberdade e trabalhou no Laboratório Paulista de Biologia.

Foi nesse momento de mudança que descobriu o amor da vida em Clotilde Melonio, uma paulistana que conheceu ainda jovem e com quem se casou em 1940. O matrimônio durou até 1997, quando ela morreu.

Antes de virar profissional, Barbosa atuou pelo time do laboratório em que trabalhava, segundo o arquivo pessoal do ex-atleta. Logo, nos campos da várzea, Barbosa encontrou sua verdadeira vocação: ser jogador de futebol, passando de ponta-esquerda a goleiro.

O goleiro Moacyr Barbosa | Créditos: Acervo PessoalO goleiro Moacyr Barbosa | Créditos: Acervo Pessoal

Um colaborador do Ypiranga conseguiu convencê-lo a jogar profissionalmente, o que ocorreu em 1941. Dois anos depois foi negociado com o Vasco por sugestão de Domingos da Guia, então zagueiro do Corinthians, que teria afirmado que aquele era o “maior goleiro no Brasil”.

“No Vasco, assim que chegou, ele foi para a reserva e teve de aguardar um tempo para jogar porque tinham seis goleiros à frente dele. Quando passou a atuar com frequência, aí não saiu mais”, disse o jornalista Helvídio Mattos, que entrevistou o Barbosa duas vezes.

Vasco

Pelo clube cruzmaltino, Barbosa conquistou seis edições do Campeonato Carioca, um Torneio Rio-São Paulo, o Sul-Americano de Clubes e o Torneio Rivadávia Corrêa Meyer, considerado sucessor da Copa Rio, embora neste último não tenha atuado como titular.

Dos quase 500 jogos disputados pelo Vasco, o mais especial para ele foi o que decidiu o Sul-Americano de 1948, no estádio Nacional, de Santiago, no Chile, quando enfrentou Alfredo Di Stefano.

“A última partida foi contra o River Plate, que era o favorito. E o juiz deu uma garfada tremenda na gente. Anulou um gol, não nos deu um pênalti e marcou um pênalti para eles. Eu peguei e fomos campeões invictos”, disse Barbosa, ao “Bola da Vez”, da ESPN, em 2000.

Barbosa no Vasco | Créditos: Acervo VascoBarbosa no Vasco | Créditos: Acervo Vasco

No entanto, sua carreira brilhante ficou marcada pelo gol que tomou do atacante Ghiggia na Copa do Mundo de 1950, contra o Uruguai, no dia 16 de julho. Final: Brasil 1 x Uruguai 2, com 174 mil espectadores no Maracanã. Passou por grandes dificuldades financeiras e ficou dependente da ajuda de amigos para sobreviver na Praia Grande.

Seleção Brasileira e condenação

“Será que eu fui o culpado? Será que eu errei? Ao rever o lance dias depois da partida, achei que eu estava certo. Quer dizer, eu fiz certo e deu errado. Ghiggia fez errado e deu certo”, completou o goleiro, em depoimento dado em 2000.

A partir de 1949, já escorado pela excelente fase no Vasco, Barbosa se firmou de vez na Seleção Canarinho. Foi titular na campanha vitoriosa do Sul-Americano de seleções, campanha que deixou o Brasil como favorito à Copa de 1950, disputa que teve justamente o país como sede.

A campanha na primeira fase foi quase perfeita. A equipe do técnico Flávio Costa venceu o México (4 a 0), empatou com a Suíça (2 a 2) e derrotou a Iugoslávia (2 a 0), então a melhor equipe da Europa no Mundial.

“Terminei o jogo contra a Iugoslávia esgotado. Vencemos por 2 a 0, naquele que foi o melhor jogo na carreira, mas terminei penado, penado mesmo”, disse Barbosa em entrevista coletiva.

Barbosa defende a bola em duelo contra a Iugoslávia na Copa de 1950, no Maracanã | Créditos: ReproduçãoBarbosa defende a bola em duelo contra a Iugoslávia na Copa de 1950, no Maracanã | Créditos: Reprodução

Na fase final, o Brasil goleou a Suécia (7 a 1) e a Espanha (6 a 1), mas perdeu de virada para o Uruguai por 2 a 1. A chance de ser campeão foi eliminada. E o resultado condenou Barbosa e criou um estigma sobre o goleiro negro.

“Sujeito passava na rua e falava: ‘Frangueiro’. Outro falava: ‘Esse cara entregou’. Teve uma mulher que disse na minha cara que eu tinha recebido dinheiro. Outra chegou com um garotinho, que não tinha nem 10 anos, e disse: ‘Foi esse homem que fez o Brasil todo chorar’. Eu perguntei para ela: ‘Se eu fosse seu filho, você faria isso?’. Ela se calou e foi embora”, disse o goleiro certa vez em entrevista.

Barbosa respondeu milhares de vezes aos questionamentos sobre aquele lance. Demorou para voltar à seleção, mas teve uma chance. Fez um jogo em 1953 pelo Sul-Americano de Lima. Na época, diziam que ele seria convocado para a Copa de 1954, mas uma lesão grave lhe tirou essa chance. Ele teve a perna quebrada numa dividida com Zequinha, do Botafogo, no Maracanã. Ao todo, Barbosa fez 22 jogos pelo Brasil e sofreu 22 gols.

“Não tenho confiança em goleiro negro”

No torneio de 1950, Barbosa viveu ao mesmo tempo o auge, reconhecido até então como o melhor goleiro do continente, e o declínio, perseguido por supostamente ter falhado no segundo gol do Uruguai. Muitos viram naquele lance a justificativa para os goleiros negros não terem oportunidades no torneio mais importante do planeta.

Entre os casos de mais destaque, há um que envolve o humorista Chico Anysio, que sempre reforçava a tese. Mesmo em tempos de mais conscientização racial, ele mantinha o pensamento. Em 2006, publicou um texto opinativo no Diário Lance! contra a convocação de Dida intitulado: “Não tenho confiança em goleiro negro”. Nas linhas daquela publicação, ele citava Barbosa como o “responsável”.

Apesar do grande destaque que jogadores negros tên no esporte, para os goleiros a história é diferente. Foi o caso de Edílson, campeão mundial pelo Brasil em 2002 e ex-jogador de grandes equipes do país, que tocou no assunto em 2018, durante participação no Fox Sports Rádio, ao analisar Jaílson, do Palmeiras.

“Zinho [presente no programa], você me falou do goleiro negão uma vez. Eu não esqueço disso. A gente tava jogando, Guarani e Palmeiras, e jogando, jogando, jogando, e o goleiro fazendo milagre, pegando cada bola. Aí eu passo por ele [Zinho] dentro do jogo: ‘Zinho, tu não vai fazer gol hoje?’. Aí ele falou: ‘Esse goleiro é negão, daqui a pouco ele erra’. Aí 43, chutaram uma bola de longe, a bola entrou, e ele passou por mim correndo, comemorando: ‘Tá vendo o que eu falei? É goleiro negão. Goleiro negão sempre toma um gol'”, disse Edílson.

“[Oswaldo] Paschoal, tem coisas no futebol que vocês que não jogaram não entendem. Goleiro negão é igual… Depois você vai dizer”, completou Edílson. Diante da má repercussão, no dia seguinte o ex-atacante declarou que foi uma “brincadeira comum” no futebol.

Legado

Em entrevista à ESPN, o advogado, filósofo e professor universitário Silvio Luiz de Almeida pontuou a grande herança desportista deixada por Barbosa, e que ela não deve ser resumida ao racismo que ele foi alvo dentro do esporte.

“Mais do que perdão, o Brasil deve reconhecer a importância desse homem e homenageá-lo. O Barbosa é o nome da vitória. Ele simboliza a vitória do futebol brasileiro e do povo negro brasileiro. Ele não é a derrota. Se não fosse a derrota de 50, talvez não tivesse a Copa de 1958, ou seja, o Barbosa é a vitória do Brasil”, enfatizou.

Já o ex-goleiro Aranha, que também já foi alvo de racismo no futebol, comentou em março do ano passado que a história de Barbosa foi crucial para a sua compreensão do racismo estrutural que acomete o esporte

“Não foi pelo gol que o Barbosa foi perseguido. Foi pelo que ele representava. Em uma época que o futebol era uma coisa tão elitizada, ter um negro, ainda mais numa Copa do Mundo, era ruim para a imagem. Pelo menos alguns pensavam e ainda pensam assim”, disse Aranha.

“Mas ele jogou num gigante como o Vasco, foi ídolo e chegou a Copa como titular. Só isso mostra a grandeza do Barbosa. A garotada que está vindo não vai pegar facilidade. Mas vai pegar a rua asfaltada porque muitos abriram caminho. O Barbosa foi pioneiro lá atrás, desbravando a mata para que viesse Edinho, Vagner, Dida, Jefferson e vários outros. O caminho está aí, mas só vamos passar tranquilamente quando a nossa sociedade soube lidar com o racismo”, completou.

Créditos: Acervo PlacarCréditos: Acervo Placar

Em 7 de abril de 2000, aos 79 anos, Barbosa morreu em Praia Grande, cidade do litoral de São Paulo, onde foi residir nos anos 1990. Deixou este mundo sem qualquer posse. Na ocasião da sua morte, Hyeróclio Barros, publicitário e diretor da TV Excelsior do Rio entre os anos 60 e 70 ,e que estava presente na derrota do Brasil para o Uruguai, publicou um vídeo em homenagem ao ex-goleiro.

“Entendo que ele foi vítima de uma fatalidade. E, como tal, um injustiçado. Onze eram os jogadores e apenas ele ficou responsável. Foi um grande goleiro. Conquistou muitos títulos pelo seu clube. Os que o conheceram de perto diziam-no ser um ser humano correto e bom”, finaliza.

Leia também: Racismo de conveniência: quando negros são bem vindos em times europeus

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