PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Igreja ligada à trajetória da população negra no Rio deve ser restaurada por proprietário, decide Justiça 

TRF2 decide que manutenção do imóvel tombado e conservação cabe aos proprietários, com fiscalização do poder público
Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, no Centro da capital fluminense.

Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, no Centro da capital fluminense.

— Reprodução/Arquidiocese do Rio

11 de março de 2026

O Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF2) decidiu que a responsabilidade principal pela recuperação da Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, no centro do Rio de Janeiro, é dos proprietários do imóvel. O espaço está ligado à trajetória da população negra na cidade e é considerado um símbolo de fé e resistência de afrodescendentes livres e escravizados.

Tombado como patrimônio histórico nacional em 1938, o prédio é um dos templos mais antigos da história da cidade. Construído no século XVII, o local passou por anos de deterioração e chegou a apresentar risco de desabamento, segundo a União. Foram tomadas medidas emergenciais para afastar o perigo imediato, porém ainda são necessárias obras de restauração para garantir a preservação do local.

Quer receber nossa newsletter?

Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!

O espaço é um importante local de memória de africanos escravizados no Rio de Janeiro. As devoções a Nossa Senhora do Rosário remontam à primeira metade do século XVII e estão entre as mais antigas associações formadas pelos chamados “homens pretos”, os escravizados e libertos. 

Posteriormente, os devotos do Rosário se uniram aos de São Benedito e inauguraram a igreja em 1725. Durante o período da escravidão, a Igreja do Rosário tornou-se um relevante espaço de encontro da população africana, escravizada e livre, durante as festas dedicadas à Nossa Senhora do Rosário. Em 1967, um grande incêndio destruiu a parte interna do prédio.

Para o procurador federal Vinícius Lahorgue, que atuou no caso, o resultado assegura a correta aplicação das regras de proteção ao patrimônio histórico. 

“A decisão deixa claro que preservar um bem tombado é dever do seu proprietário, como determina a legislação. A União e o Iphan seguem exercendo seu papel técnico e fiscalizador, garantindo que o patrimônio cultural seja protegido, mas dentro dos limites estabelecidos em lei”, afirmou em nota à imprensa.

A ação civil pública foi proposta pelo Ministério Público Federal (MPF) para assegurar a recuperação do imóvel e a proteção do patrimônio cultural. Em primeira instância, a decisão havia determinado que, além da entidade proprietária, também a União e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) realizassem as obras e reservassem recursos para esse fim.

Segundo a Advocacia-Geral da União (AGU), ao recorrer, a Procuradoria Regional Federal da 2ª Região (PRF2), que representa o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a legislação brasileira estabelece que a conservação de bens tombados é, em regra, responsabilidade do proprietário. De acordo com o órgão, cabe ao poder público atuar principalmente na fiscalização e na orientação técnica.

Após o julgamento, o TRF2 acolheu os argumentos e ajustou a decisão. O colegiado reafirmou que a responsabilidade pela conservação acompanha a propriedade do imóvel e excluiu as condenações impostas à União e ao Iphan, mantendo aos órgãos públicos o dever de fiscalização e a possibilidade de adoção das medidas previstas em lei.

Além do valor histórico, o espaço abriga um pequeno museu com objetos e documentos sobre a escravidão e a atuação da Irmandade no movimento abolicionista.

Apoie jornalismo preto e livre!

O funcionamento da nossa redação e a produção de conteúdos dependem do apoio de pessoas que acreditam no nosso trabalho. Boa parte da nossa renda é da arrecadação mensal de financiamento coletivo.

Todo o dinheiro que entra é importante e nos ajuda a manter o pagamento da equipe e dos colaboradores em dia, a financiar os deslocamentos para as coberturas, a adquirir novos equipamentos e a sonhar com projetos maiores para um trabalho cada vez melhor.

O resultado final é um jornalismo preto, livre e de qualidade.

  • Thayná Santana

Leia mais

PUBLICIDADE

Destaques

Cotidiano