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O futebol, a escola e a pessoa negra que não é extraordinária

O apagamento de Zózimo e do estudante negro que não está acima da média
O zagueiro Zózimo Alves Calazans foi bicampeão mundial com a seleção brasileira (1958 e 1962).

O zagueiro Zózimo Alves Calazans foi bicampeão mundial com a seleção brasileira (1958 e 1962).

— Reprodução/Instagram/@morethangoals

7 de julho de 2026

Dias atrás, escutei o ótimo episódio “Precisamos falar de Zózimo”, do podcast Amarela-Ouro, produzido pela Central 3. Nele, é resgatada a trajetória do zagueiro Zózimo Alves Calazans, bicampeão mundial com a seleção brasileira (1958 e 1962). O episódio cumpre um papel histórico, pois Zózimo – que sofre com uma discrição, um apagamento e um esquecimento público severos, inclusive dentro do Bangu Atlético Clube – não figura em nossa memória quando lembramos os heróis dessa era de ouro, que é ocupada comumente, por exemplo, por Pelé, Garrincha, Didi, Djalma Santos. 

Esse silêncio em torno de seu nome nos convida a uma reflexão desconfortável sobre as engrenagens do racismo no Brasil: por que pessoas negras, para serem lembradas e humanizadas, precisam habitar exclusivamente o campo do extraordinário? Zózimo foi um zagueiro formidável, técnico e seguro. Mas ele não era o lúdico Garrincha, nem representava a realeza de Pelé. Ele jogava na firmeza, na constância do dever cumprido. E é exatamente aí que mora o perigo para o corpo negro na sociedade brasileira. O apagamento histórico de Zózimo nos mostra que, na dinâmica racial brasileira, o indivíduo negro que atua abaixo do extraordinário flerta perigosamente com a invisibilidade. 

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Zózimo lidou também com a perseguição, pois errou. Segurou uma bola com as mãos, gerando um pênalti ao adversário Fluminense numa final de campeonato carioca. Ele já era bicampeão do mundo pela seleção. O pênalti nem gerou o gol, mas ele foi acusado de entregar o jogo por dirigentes e pela torcida. Perseguido, nunca mais voltou a jogar pelo Bangu. No site oficial do clube, ele não é citado como um de seus maiores ídolos.

Acusações e desconfianças podem ser responsáveis por outros apagamentos em sua trajetória: foi a única pessoa da delegação da seleção e do Bangu, por muito tempo, que dominava a língua inglesa; formou-se em letras depois de encerrar a carreira de jogador; tornou-se técnico de futebol. Mas o sarrafo da cobrança sempre esteve num andar mais alto, pois das pessoas negras é cobrado que precisam provar seu valor muitas vezes mais, um traço permanente no racismo. 

E tal sarrafo se faz presente em variados espaços, como por exemplo, nas salas de aula do nosso país, que são campos onde esse jogo ainda é jogado. O fenômeno da invisibilidade dos alunos que atuam “na média” é amplamente conhecido. O sistema escolar costuma focar suas atenções em dois extremos: o estudante que atua no extraordinário e que gera o prestígio da instituição escolar e o estudante com graves dificuldades de aprendizagem ou indisciplina, que demanda intervenção. Quem está no meio do caminho ocupa um verdadeiro “não lugar”.

Leia mais: Quem foi Didi, peça-chave do 1º título do Brasil na Copa do Mundo

Quando cruzamos essa realidade com o marcador de raça, o cenário torna-se mais agudo como: o estigma da “pessoa problema” quando o racismo logo converte performance abaixo do esperado em “falta de interesse” ou “caso de indisciplina”; a solidão de estar na média quando o racismo torna esse estudante invisível e ele não recebe incentivo para avançar e perde o suporte que poderia blindá-lo contra as desigualdades estruturais; o filtro do extraordinário que impõe que, para o estudante ser visto, elogiado e validado pela instituição escolar, ele precisa ser o melhor, o ponto fora da curva; o estigma da popularidade que versa que esse estudante negro precisa ser entendido como o correto, o popular, confiável e bonito sob a pena de não ser aceito e considerado.

Exigir que todo jovem negro seja um prodígio para que ele seja apenas notado e respeitado é uma violência profunda. O racismo nas escolas opera ao negar a esses estudantes o direito de errar, de aprender no seu tempo e de ser, simplesmente, comuns.

Essas reflexões não habitam apenas o campo das impressões ou das experiências individuais. Elas têm nome, endereço e números que deveriam constranger qualquer debate sobre meritocracia escolar. O Mapa de Dados do Instituto DACOR traz um conjunto de evidências sobre como a vida de adolescentes negros é afetada pelo racismo e pelas desigualdades raciais desde seu direito à vida (um adolescente negro tem três vezes mais chance de ser vítima de morte violenta em relação a um adolescente não negro), sua trajetória escolar (apenas 10% de estudantes pretos atingem nível esperado de aprendizagem em Matemática) e suas projeções de futuro na vida.

O zagueiro Zózimo e o atacante Pelé. (Créditos: Reprodução/Instagram/@morethangoals)

Pesquisa do Afro-Cebrap, Geledés e Instituto Alana, a partir dos dados do Saeb 2023, revelou que cerca de metade dos estudantes do 9º ano do Ensino Fundamental e do 3º ano do Ensino Médio afirma não reconhecer discussões sobre desigualdades raciais em sala de aula. No mesmo estudo, mais de 70% dos professores declararam abordar o tema com frequência. O contraste entre a percepção de professores e estudantes aponta para algo grave: a discussão sobre raça pode estar acontecendo de forma insuficiente, superficial ou mesmo desconectada das vivências dos estudantes negros — o que torna o “não lugar” ainda mais invisível para quem deveria ampará-los.

É aqui que a história de Zózimo reverbera com força nas escolas brasileiras. Assim como ele precisava ser extraordinário para ser lembrado, o estudante negro que está “na média” não recebe o suporte que o manteria em campo. Sem pertencimento, sem incentivo, sem a sensação de que sua presença importa além da performance excepcional, a vida e a trajetória do estudante negro na escola são atravessadas por um conjunto de dificuldades que, contraditoriamente, exigem dele uma performance extraordinária para lidar com essa realidade.

Resgatar a história de Zózimo é importante aqui e quase um manifesto político porque é reivindicar a legitimidade da trajetória negra fora do pedestal do super-herói. No caso da educação, isso demanda a construção de acesso adequado, condições de permanência, sentimento de pertencimento e conexão entre educação e oportunidades concretas de mobilidade social.

Cada estudante negro que se torna invisível por estar “na média”, cada jovem que abandona a escola por não se sentir pertencente, cada mulher negra que supera homens brancos na escolaridade e ainda assim ganha menos, todos são Zózimos que o sistema preferiu não das visibilidade. Tanto no futebol quanto na educação, precisamos construir uma sociedade onde pessoas negras não precisem carregar o fardo de serem ancestrais impecáveis ou prodígios acadêmicos para terem reconhecidas suas histórias, sua constância, elegância e humanidade.

Leia mais: Brasil pode levar mais de 15 anos para alcançar equidade racial no ensino médio

Fontes dos dados:

  • Instituto DACOR – Dados contra o Racismo
  • Análise racializada sobre o Radar IDHM 2012–2024
  • Mapa de Dados _ Instituto DACOR 
  • Pesquisa Afro-Cebrap, Geledés e Instituto Alana (Saeb 2023)
  • Podcast: Precisamos falar sobre Zózimo – Central 3

A editoria Quilombo reúne textos opinativos. Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a visão da Alma Preta sobre quaisquer temas.

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  • Helton Souto é cientista social, co-fundador e presidente do Instituto DACOR.

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