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Neymar: por que o principal jogador do Brasil se afastou dos interesses do seu povo?

Acusado de fraude e corrupção,  o jogador do Paris Saint Germain declarou seu apoio ao presidente Jair Bolsonaro: "temos os mesmos valores" 

Imagem: Reprodução/Twitter

Foto: Imagem: Reprodução/Twitter

28 de outubro de 2022

Apoio ao presidente Jair Bolsonaro (PL), promessa de homenagem ao atual chefe de Estado na Copa do Mundo de 2022 e participação em live do candidato à reeleição: assim tem sido a relação do jogador Neymar Jr. com a política brasileira na reta final para o segundo turno das eleições presidenciais.

Nesta quinta-feira (27), o jogador do Paris Saint Germain compartilhou em suas redes sociais um vídeo da campanha do atual presidente e candidato à reeleição Jair Messias Bolsonaro. O conteúdo, considerado direito de resposta, mostra uma tentativa de vincular deputados do PT ao orçamento secreto, e o sigilo de 100 anos ao partido do também presidenciável Luiz Inácio Lula da Silva. Ele também já chegou a afirmar que o atual presidente e ele têm os mesmos “valores”. 

Apesar do apoio a Bolsonaro em discursos que falam sobre integridade e honestidade, Neymar está sendo julgado no Tribunal Provincial de Barcelona por acusações de fraude e corrupção envolvendo sua transferência do Santos para o Barcelona, em 2013. Serão de sete a oito sessões, com término previsto para o dia 31 deste mês. Se condenado, Neymar pode pegar pena de dois anos de prisão e pagar uma multa de 10 milhões de euros (R$ 51,5 milhões). 

Vítor Guedes, jornalista do Uol Esporte e comentarista do Baita Amigos, destaca que o que ocorre com Neymar acontece em todos os campos sociais.

“A intenção de voto muda de quem ganha até um salário mínimo do que a de quem ganha de um a cinco. A tendência é a pessoa negra, pobre, periférica, ir se misturando à sociedade e esquecendo a raiz quando tem portas abertas”, avalia. 

O caso de Neymar foi originado por uma denúncia da empresa brasileira DIS, fundo que detinha os direitos econômicos dele à época da transferência, em 2013. A DIS alega que o contrato foi fraudado para que a empresa recebesse menos pela transferência. Oficialmente, o Barcelona informou que o valor do contrato da transferência de Neymar foi de 57,1 milhões de euros (cerca de R$310 milhões).

Após a denúncia, a Justiça espanhola começou a investigar o caso e suspeita que o valor real do contrato foi de 83,3 milhões de euros (cerca de R$453 milhões) e que o valor tenha sido diluído em contratos paralelos para maquiar o montante real. A defesa do acusado, no entanto, nega o ocorrido.

Em entrevista recente ao Flow Podcast, o ex-presidente Lula, disse que Neymar estaria com medo de vê-lo novamente no cargo de chefe de Estado, e por isso declarou apoio a Bolsonaro. Segundo o candidato, se ele for eleito, o público “vai saber que o Bolsonaro perdoou da dívida de Imposto de Renda dele”.

Futebol como ferramenta política e de polarização

Neymar conta atualmente com mais de 180 milhões de seguidores no Instagram. Seu post recente de apoio a Bolsonaro teve alto engajamento nas redes e comentários de milhares de pessoas concordando com o vídeo em questão. 

A jornalista esportiva e editora textual da ESPN, Jade Gimenez, pontua que qualquer pessoa pública tem esse o poder de influência diante dos demais que acompanham o trabalho ou conteúdo que elas proporcionam, fato que não seria diferente com os jogadores de futebol. 

“Aqui no Brasil, o esporte alcança grande parte da população brasileira. Quando um torcedor vê um ídolo, como o Neymar, defendendo uma causa, uma posição política, imediatamente acaba se interessando pelo assunto. A questão é como ele recebe isso e como vai atingi-lo socialmente e politicamente”, pondera. 

Jade avalia ainda que no nível em que a polarização política brasileira se encontra, era inevitável que ela chegasse também ao esporte, em especial, devido ao engajamento que os jogadores têm nas redes sociais. 

“Acredito que a mudança de chave desses atletas é no momento que passam a viver a mudança social e se afastam da realidade que cresceram. Talvez o deslumbramento acabe os afastando, e tudo passa a ser muito distante para eles. O garoto que não tinha dinheiro para comer no treino e chuteira rasgada, passa ter uma nova por jogo. E tudo é deixado pra trás, todo esforço é esquecido, pois agora fazem parte da classe alta”, enfatiza.

Alex Dinart, jornalista esportivo do canal Identidade Corinthiana e da Rádio Coringão, destaca ainda que nos dias de hoje há uma realidade social completamente diferente do que poderia ter sido construída na cultura do futebol, como a sede de fazer com que a modalidade e os atletas, como protagonistas, fossem meios para lutar pelos direitos de todos os cidadãos.

Democracia Corinthiana: o marco político no esporte

“A Democracia Corinthiana foi além de um movimento de clube. Parte do meu posicionamento político veio com base nela, e no Sócrates, agente essencial no movimento. Na época, o Brasil buscava ainda sua liberdade da Ditadura Militar e o movimento dentro do Corinthians já era intenso, jogadores passaram a serem ouvidos mais, e a escolherem o que queriam ou não”, salienta Jade. 

Ocorrido no início da década de 1980, o movimento contou com apoio de jogadores em destaque na época, como Sócrates, Wladimir, Casagrande, Zenon e outros ex-atletas do Timão, que participaram da campanha pela volta do direito ao voto para presidente, o que não acontecia desde 1960.

Além disso, o Corinthians passou a ser gerido de uma forma revolucionária. Decisões importantes no dia a dia do clube, como contratações, escalações e regras internas eram decididas em conjunto. Todos os votos tinham o mesmo peso, do roupeiro ao técnico da equipe, Mário Travaglini.

Isso só foi possível graças às ideias de Adilson Monteiro Alves, sociólogo que era o diretor de futebol do clube na época. 

“Esse movimento, como fora na época, não seria aceito e nem cogitado nos dias atuais. Naquele tempo, era possível ouvir o voto do roupeiro, do massagista e dos grandes craques do time para tomar as decisões do grupo. Embora os salários não fossem todos idênticos, por motivos óbvios, os prêmios, as bonificações (como os chamados bichos) eram divididos entre eles, mas principalmente, as vozes das pessoas eram ouvidas de modo igualitário em um instante crítico da história do país”, lembra Alex Dinart.

O nome “Democracia Corinthiana” foi criado pelo publicitário Washington Olivetto, que também criou uma marca inspirada na tipologia da Coca-Cola. Ela foi estampada na camisa alvinegra em algumas partidas, assim como as frases “Diretas Já” e “Eu quero votar para presidente”.

Neste período, o Corinthians conquistou os títulos do Paulistão de 1982 e 1983. No segundo ano, antes da final contra o São Paulo, no Morumbi, os jogadores entraram em campo com uma faixa com os dizeres: “Ganhar ou perder, mas sempre com democracia”.

Em 1984, Sócrates prometeu que só deixaria o Corinthians para atuar no exterior se a Emenda Dante de Oliveira não fosse aprovada. Essa proposta de mudança da lei tinha por objetivo restaurar as eleições diretas para presidente da República no Brasil. Embora aprovada pela maioria da população na época, a emenda foi reprovada em votação no Congresso.

“Seria importante um levante similar para tentar colaborar com a redução da desigualdade social, mas com esses padrões financeiros cada vez mais elevados e a blindagem da maioria dos atletas de alto nível, fica muito mais difícil”, pondera Alex.

Em 2020, em um ato pela democracia, contra o racismo e o presidente Jair Bolsonaro, uma grande bandeira com a marca da Democracia Corinthiana foi aberta no Largo da Batata, em São Paulo.

“Hoje não vejo movimentos como esse, para os dois lados. Os jogadores da época de Sócrates, Casagrande e cia, eram engajados socialmente, tinham base de estudo e conteúdo. Agora não, todos parecem viver alheios à realidade, preocupados mais com a própria imagem do que com a realidade do país”, lamenta Jade Gimenez. 

democracia corinthiana

Bandeira da Democracia Corinthiana no Largo da Batata | Imagem: Reprodução

Falta consciência de classe

Na atualidade, além do já costumeiro afastamento da cultura e da educação dos campos de jogo, segundo Alex Dinart, o individualismo impera e os jogadores mais badalados, como Neymar Jr., são acostumados a serem tratados como figuras quase abstratas da sociedade.

“O grande xis da questão é a falta de consciência de classe. É muito normal ver a faixa mais pobre da população mirando o adversário errado e atuando em prol de quem a oprime. Como a maioria dos boleiros de alto nível vivem em bolhas – e também são frutos dessa ausência de percepção social – acabam ficando ricos muito cedo e esquecem a importância de atuarem como símbolos da redução da desigualdade no país”, pontua.

O jornalista destaca que, felizmente, nem todos os atletas de alto nível seguem o exemplo de Neymar. Figuras como Richarlison (Tottenham-ING) e Paulinho (Bayer Leverkusen-ALE) em plena atividade, por exemplo, são agentes de transformação social por meio de projetos voltados à juventude mais carente e pobre. 

“São jogadores que manifestam o senso crítico contra o que acreditam não ser benéfico para a sociedade em geral, como as desigualdades e a intolerância religiosa”, salienta. 

E no futebol feminino?

Para o jornalista Vítor Guedes, o futebol feminino é um mundo à parte e um movimento “sem volta”. O crescimento da adesão à modalidade jogada pelas mulheres foi galgando degraus e ocupando o espaço merecido pouco a pouco, segundo ele. Guedes relembra que desde o início de sua carreira como comunicador do esporte, o futebol feminino passou por diversas fases: campeonatos que não se repetiam anualmente, falta de disputas nacionais, e atletas alvos de machismo e sem clube para jogar.

“Hoje tem campeonato fixo, começou a aumentar a demanda de torneios da base. O que eu vejo é que, ainda que incipiente – se comparar cifras e estrutura – com relação ao masculino, não vejo mais reversão de voltar ao estágio que já foi. A evolução, por mais que lenta, é progressiva”, comenta. 

Pai do Basílio de 13 anos, Vítor Guedes analisa que é muito diferente a maneira que meninas da geração de seu filho são tratadas quando decidem jogar bola, daquelas que cresceram com ele em sua geração. “Na minha bolha paulistana, vejo que o preconceito diminuiu muito, mesmo que ainda exista. E o interesse pelo futebol feminino entre homens também aumentou”, diz. 

Alex Dinart ressalta que a luta do futebol feminino deveria servir de exemplo, pois hoje em dia, é a “categoria que mais representa o que foi a origem da modalidade”. 

“O futebol era apenas dos ricos, era para poucos, mas quando os pobres começaram a jogar, a elite teve que ceder. É assim que vejo o papel do futebol de mulheres, o verdadeiro símbolo do que esse esporte nasceu para ser”, enfatiza.

A editora Jade Gimenez explica que o futebol feminino vive uma realidade totalmente oposta ao masculino. Além de todo o contexto histórico, as mulheres que decidiram jogar bola desde cedo tiveram que se posicionar, e bater de frente, sendo alvos de preconceitos em dobro do que os homens enfrentam, segundo ela. 

“Hoje o futebol feminino tem ganhado espaço, mídia e engajamento de torcida e entidades, porém, o salário de uma jogadora não chega a mais de R$20 mil enquanto do masculino temos números de R$400 mil a R$2 milhões. Então, para uma jogadora chegar ao ápice financeiro, ao ponto de deixar suas raízes, falta muito, isso faz com que a realidade delas esteja sempre ali perto”, avalia Gimenez. 

Para Dinart, as mulheres têm um papel muito mais importante quando entram em campo. Jogam por uma causa que vai muito além do espaço delas no mundo do futebol. Representam toda coletividade feminina que, mesmo em 2022, ainda segue sendo alvo de preconceito, assédio, descrédito, entre outras mazelas em todos os segmentos profissionais e sociais. 

O papel do jornalismo esportivo na luta antifascista

A editora textual do ESPN, Jade Gimenez, avalia que por ser segmentado, o jornalismo esportivo acaba ficando um pouco mais isolado das pautas políticas, mas de maneira nenhuma isento. 

“O futebol é uma extensão da sociedade, e a política está em tudo, desde o que compramos para comer e vestir, até um contrato de trabalho que assinamos”, ressalta. “Seria ótimo se todos se posicionassem, tivessem um pensamento crítico e real, como na Democracia Corinthiana”, completa. 

Vítor Guedes, no entanto, enfatiza que tudo na vida é política, e que o esporte não é um mundo à parte. Ele afirma que o jornalismo sempre foi e sempre será uma ferramenta de comunicação social, em que o único alvo deve ser o interesse público. Para os comunicadores do ramo, Guedes pontua que quando se faz um bom trabalho, é impossível separar as duas coisas. “É assim que eu enxergo a vida”, relata. 

Para Alex Dinart, o diálogo é indispensável para a manutenção da democracia no esporte, incluindo os profissionais que trabalham com isso mesmo fora dos gramados. 

“Acho que os comunicadores precisam saber o papel responsável que exercem. Tudo pode ser debatido, conversado, independentemente do assunto. O que não vejo como admissível é um jornalista esportivo achar normal que a extrema-direita tenha voz em um cenário democrático, pois tudo o que é exposto por ela, basicamente, é o contrário ao que se apregoa na cultura esportiva”, finaliza Dinart.

Leia também: ‘Na pandemia, racismo no futebol migrou para a internet’

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