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No TikTok, virais de apoio a Bolsonaro disseminam fake news

O TikTok firmou um trato com o TSE para proibir conteúdo impreciso ou falso sobre eleições, mas a moderação de vídeos ainda é um desafio para a plataforma

Imagem: Reprodução/Internet

Foto: Imagem: Reprodução/Internet

27 de outubro de 2022

Na reta final para o segundo turno das eleições presidenciais de 2022, as redes sociais têm servido como plataforma de adesão aos candidatos em disputa. As hashtags a favor do atual chefe de Estado, Jair Bolsonaro (PL), e do candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, têm sido usadas indiscriminadamente em vídeos do TikTok, para propagar, principalmente, a desinformação. 

As hashtags #Bolsonaro2022 e #Lula2022 juntas já somam mais de 650 mil visualizações, segundo dados do TikTok, e servem como termômetro do tipo de conteúdo que apoiadores dos dois candidatos publicam na plataforma. 

Informações da agência de checagem Aos Fatos mostram que, a partir da análise dos 50 vídeos mais populares de cada uma dos candidatos à presidência, quase metade (23) dos posts de apoio à reeleição de Jair Bolsonaro continham ataques ou desinformação, contra um quarto (12) dos favoráveis a Lula da Silva . Apenas 4 dos 100 vídeos continham as duas tags.

Conteúdos

O vídeo com maior audiência no TikTok entre os que contêm a hashtag #Bolsonaro2022 soma 15 milhões de visualizações. O conteúdo mostra trecho final da entrevista de Lula ao Jornal Nacional, em que o ex-presidente organiza objetos sobre a mesa, para sugerir que ele teria furtado uma caneta.

Outra postagem com a hashtag manipula trecho do debate organizado por Band, UOL, Folha de S.Paulo e TV Cultura para insinuar que o petista teria perdido a linha de raciocínio ao criticar privatizações promovidas por Bolsonaro. Como é possível constatar na transcrição completa, Lula parou de falar pois o tempo havia acabado e os mediadores o interromperam.

Os demais 14 conteúdos com a tag miravam no ex-presidente – 10 deles com ataques ou desinformação. Contudo, além de ataques, as hashtags também foram usadas para exaltar os candidatos. A maioria trazia clipes dos presidenciáveis em entrevistas ou comícios, com falas impactantes ou bem humoradas.

Segundo a psicóloga especializada em cyberbullying, Laís Santos, os conteúdos, por mais que pareçam inofensivos, podem interferir no julgamento social sobre os candidatos.

“Quantas pessoas vão assistir a um vídeo do Lula ‘roubando’ uma caneta e nunca irão sequer checar se isso foi um erro de edição ou apenas uma cena fora de contexto? A velocidade do vídeo contribui para a velocidade de assimilação do espectador, que dificilmente irá contestar o que viu”, salienta. 

TSE e TikTok

Em suas diretrizes de comunidade, o TikTok proíbe conteúdo impreciso ou falso sobre eleições ou outros processos cívicos. Em fevereiro deste ano, a plataforma também assinou acordo de cooperação com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) como parte do programa de enfrentamento à desinformação eleitoral.

Trecho das diretrizes de comunidade que fala sobre eleições | Créditos: TikTok

A respeito dos conteúdos desinformativos ou de ataques a opositores, o TikTok listou medidas que emprega no combate à desinformação na plataforma, entre elas a parceria com agências de checagem. 

“Nós levamos extremamente a sério a responsabilidade que temos em proteger a integridade da plataforma e das eleições”, afirmou a empresa, em nota.

Na página da hashtag #Bolsonaro2022, a plataforma disponibiliza um aviso lembrando os usuários sobre suas diretrizes, que “proíbem desinformação que possa causar dano ou enganar nossos usuários, incluindo conteúdo sobre eleições”, e incentivando que os usuários relatem conteúdos que violem essas regras e verifiquem a veracidade das informações publicadas. O mesmo aviso não aparecia na página da hashtag #Lula2022 até 29 de setembro, mas já foi incluído.

Apesar de acordo de cooperação com TSE, plataforma ainda não consegue agir efetivamente para coibir desinformação eleitoral. Diferente de outras redes, o funcionamento do TikTok permite que usuários com poucos seguidores alcancem uma grande audiência. 

“Aquele influenciador que tem poucos seguidores também quer ter seu espaço. Logo, para ele, mais importante do que a mensagem que se transmite e o quanto de pessoas ela alcança. De certa forma, a desinformação vai sendo disseminada e não tem como controlar. É um ciclo vicioso e sem fim para quem produz e para quem assiste”, pondera a psicóloga Laís. 

Moderar conteúdo é um desafio

Nem todos os vídeos têm teor expressamente golpista, segundo o TikTok. Muitos falam de política de maneira mais ampla, mas utilizam as hashtags – provavelmente para ganhar visibilidade. Na média, os perfis têm cerca de 40 mil seguidores, mas seu alcance é 25 vezes maior, atingindo, em média, 1 milhão de visualizações.

Tais perfis pertencem a usuários comuns, que não são propriamente criadores de conteúdo, celebridades ou figuras políticas, pois a influência de cada criador é baseada no desempenho de publicações individuais. É o que explicam os pesquisadores Jing Zheng e D. Bondy Valdovinos Kaye, da Universidade de Zurich e Universidade Tecnológica de Queensland, no artigo From content moderation to visibility moderation: A case study of platform governance on TikTok.

A moderação de conteúdo, no entanto, ainda é é uma dificuldade enorme para o TikTok: em relatório de transparência publicado no começo de outubro, a plataforma revelou que removeu 113 milhões de vídeos no 2º trimestre de 2022, o que representa apenas 1% de todos os vídeos publicados na rede naquele período.

“Como agentes de transformação social, nosso papel é sempre questionar, pois não dá para esperar que o TikTok filtre todos os conteúdos. Foge à alçada deles mesmos. Então, nessa reta final, que possamos olhar as coisas com uma visão mais crítica, fora do senso comum”, finaliza Laís Santos. 

Leia também: Comprova: Trecho de entrevista de Lula é tirado de contexto para sugerir desprezo aos mais pobres

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