PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Mulheres, quilombolas e juventudes lideram soluções climáticas no Marajó

Projeto Marajó Resiliente fortalece agricultoras, agricultores familiares e comunidades tradicionais no enfrentamento à crise climática na Amazônia Paraense
Imagem mostra uma mulher do pescoço para baixo, com uma camiseta com o nome do projeto Marajó Resiliente.

Imagem mostra uma mulher do pescoço para baixo, com uma camiseta com o nome do projeto Marajó Resiliente.

— Lirio Moraes/Angola Comunicação

16 de agosto de 2025

No maior arquipélago flúvio-marítimo do mundo, localizado na região amazônica do Pará, comunidades tradicionais quilombolas, agricultoras e agricultores familiares vêm mostrando que a resposta à crise climática pode vir das margens, ou melhor, das raízes.

O projeto Marajó Resiliente, que já beneficiou diretamente mais de 1.130 pessoas e 14.428 indiretamente, atua de forma integrada nos municípios de Soure, Salvaterra e Cachoeira do Arari, promovendo resiliência climática territorial por meio de ações estruturadas em diálogo com os saberes locais e as urgências do nosso tempo, com realização da Fundación Avina e financiamento do Fundo Verde do Clima (Green Climate Fund – GCF) o projeto, executado com outras organizações parceiras, apoia as comunidades locais aliando os saberes locais as tecnologias de adaptação climática, pensando na sustentabilidade das populações tradicionais. 

Quer receber nossa newsletter?

Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!

Em um ano marcado pela realização da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30) em Belém (PA), o Marajó Resiliente se destaca como uma das experiências mais representativas da Amazônia no campo da adaptação climática liderada por comunidades. A iniciativa compartilha soluções construídas a partir da escuta e da vivência cotidiana dos territórios, evidenciando a urgência de fortalecer políticas públicas que priorizem investimentos em projetos de adaptação climática, especialmente voltados às regiões insulares e comunidades tradicionais, esses os territórios mais vulneráveis aos impactos da crise do clima.

“O projeto se ancora na ideia de multiplicação, reconhece e valoriza saberes e práticas, conhecimentos tradicionais que as populações já tem, a ideia é que isso seja multiplicado a partir das lógicas tradicionais de repasse, de construção de conhecimento de geração para geração, mas também que possa fortalecer espaços educacionais voltados para  agricultura familiar que já existe no município, fortalecer a cooperativas, associações, organizações locais que possam expandir a ideia de implantação de sistemas diversificados para os seus cooperados, para os seus associados.”, conta Lanna Peixoto, coordenadora do projeto pela Fundación Avina.

Em um cenário de secas prolongadas, salinização do solo, marés lançantes e erosão costeira, o Marajó Resiliente apresenta alternativas concretas para fortalecer a produção local, conservar a biodiversidade e garantir segurança alimentar às famílias marajoaras. Estudos da Universidade Federal do Pará e do Instituto Nacional de Metereologia (INMET) alegam que nos últimos 20 anos, o Marajó tem vivenciado reduções significativas na precipitação durante a estação seca (agosto a dezembro), intensificando os períodos de estiagem e afetando diretamente as as produções de agricultores locais. E em relatório técnico a Emater-Pará (2023) revelou que comunidades quilombolas de Salvaterra e Soure perderam até 40% da produção de mandioca e milho nas últimas três safras devido à combinação de seca, salinização e erosão dos talhões produtivos colocando em risco assim a sustentabilidade financeira e alimentar dessas comunidades.

Foto: Cecília Amorim/Angola Comunicação

Resultados e avanços no território

Desde seu lançamento, o projeto Marajó Resiliente já avançou em ações estratégicas que evidenciam seu potencial transformador. Entre os destaques estão a implantação das primeiras unidades demonstrativas de Sistemas Agroflorestais Diversificados (SAFs), com foco na recuperação ambiental e geração de renda, e a formação de multiplicadoras e multiplicadores de saberes agroflorestais, valorizando práticas ancestrais de cultivo.

SAFs, ou Sistemas Agroflorestais, são formas de uso da terra que combinam o cultivo de espécies agrícolas, frutíferas e florestais no mesmo espaço, de maneira integrada e sustentável. Eles buscam imitar a dinâmica natural das florestas, promovendo a recuperação ambiental, a produção de alimentos e a geração de renda para comunidades locais, ao mesmo tempo em que conservam o solo, a água e a biodiversidade, conduzindo assim técnicas de adaptação climática a situações da crise do clima como secas e enchentes.

Das 1.130 pessoas beneficiadas pelo projeto diretamente, 59,2% são mulheres, além disso, o projeto envolveu 20 comunidades quilombolas locais em suas atividades contribuindo  a melhoria do manejo da terra através de Sistemas Agroflorestais diversificados (SAF’s) gerando diversificação de renda de agricultores familiares por meio da implementação de SAFs diversificados.

Para Tiago Alves, multiplicador do projeto e agricultor familiar da comunidade do Pedral, em Soure, o projeto se apresenta como uma oportunidade de crescimento e conhecimento para suas práticas de plantio e agricultura, para ele: “Antes de conhecer o projeto eu plantava sem calcário, tocava fogo em toda a matéria orgânica que acreditava ser lixo, mas não é lixo, porém hoje com o conhecimento adquirido do projeto a produtividade da minha área é uma maravilha.”

Também foram realizadas oficinas de comunicação com juventudes, fortalecendo jovens como comunicadores populares, e estruturados Comitês Comunitários de Governança Climática com representações femininas, quilombolas e de juventudes. O projeto iniciou ainda a articulação para acesso a crédito rural e apoio a cooperativas, criando bases para a sustentabilidade econômica local.

Carla Campos, multiplicadora e agricultora familiar da comunidade de Soledade, de Cachoeira do Arari, fala da importância dos SAFs na diversificação de renda, utilizando da técnica é possível plantar mais de uma espécie: “Ele é bom porque quando eu tô esperando o açaí, eu já estou tirando o cupuaçu. E como a gente pode plantar entre-linhas milho, mandioca, batata, feijão. Quando eu tô esperando sair o açaí, já estou colhendo outro, já dá para sobreviver, me manter.”

Marajó na rota da COP30

Em maio de 2025, o projeto foi apresentado na 19ª Conferência Internacional Sobre  Adaptação Climática por Comunidades (CBA19), em Recife, evento realizado pela primeira vez na América Latina. Na ocasião, Valéria Carneiro, quilombola de Salvaterra, levou a experiência do projeto ao debate global, reforçando a urgência de reconhecer os saberes tradicionais como base da resiliência climática. Valéria também alertou sobre a necessidade de desburocratização do acesso a recursos climáticos para organizações de base.

Com a proximidade da COP30, a ser realizada em Belém , o Marajó Resiliente se consolida como uma experiência estratégica a ser apresentada nos espaços oficiais e paralelos da conferência, demonstrando que é possível construir políticas e ações climáticas enraizadas no território, com protagonismo das comunidades amazônicas.

“A COP30 é uma momento super importante para posicionar o projeto, tanto para apresentar dados, mas também para fomentar discussões em torno da acessibilidade e apoio do financiamento climático as comunidades tradicionais, dos sistemas agroflorestais como possibilidade de enfrentamento às mudanças climáticas como uma medida de adaptação climática.”, afirma Lanna Peixoto.

Apoie jornalismo preto e livre!

O funcionamento da nossa redação e a produção de conteúdos dependem do apoio de pessoas que acreditam no nosso trabalho. Boa parte da nossa renda é da arrecadação mensal de financiamento coletivo.

Todo o dinheiro que entra é importante e nos ajuda a manter o pagamento da equipe e dos colaboradores em dia, a financiar os deslocamentos para as coberturas, a adquirir novos equipamentos e a sonhar com projetos maiores para um trabalho cada vez melhor.

O resultado final é um jornalismo preto, livre e de qualidade.

  • A Alma Preta é uma agência de notícias e comunicação especializada na temática étnico-racial no Brasil.

Leia mais

PUBLICIDADE

Destaques

Cotidiano