Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) iniciaram, na quinta-feira (27), a votação pelo reconhecimento do racismo estrutural na sociedade brasileira, julgada no âmbito da Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental 973 (ADPF 973).
O Supremo formou maioria para reconhecer o racismo estrutural e pela adoção de medidas estatais para o combate à prática. No entanto, não houve consenso quanto ao reconhecimento do estado de coisas institucionais, quando há uma violação sistemática de direitos fundamentais, em decorrência de falhas persistentes do poder público, resultantes do racismo.
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Até o momento, são cinco votos contrários e três favoráveis ao reconhecimento. Manifestaram-se a favor os ministros Luiz Fux, Flávio Dino e a ministra Cármen Lúcia. Apesar de atestar a existência do racismo estrutural no Brasil, o ministro Cristiano Zanin abriu divergência e votou contra o reconhecimento da omissão do Estado. Seu voto foi acompanhado por André Mendonça, Nunes Marques, Alexandre de Moraes e Dias Toffoli.
Em entrevista à Alma Preta, o diretor de Litigância estratégica do Instituto de Defesa da População Negra (IDPN), Djeff Amadeus, conta que o reconhecimento do estado de coisas inconstitucionais era a principal demanda da ação, que agora corre risco com a divergência dos ministros.
Amadeus, que também é membro da Coalização Negra por Direitos, destaca que a ausência de uma mulher negra como ministra, conforme defendido pelo movimento negro, traz desequilíbrio ao debate. Mesmo com grande mobilização pela indicação da primeira ministra negra do Supremo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) indicou, no dia 20 de novembro, o advogado-geral da União Jorge Messias para ocupar o cargo deixado pelo ex-ministro Luís Roberto Barroso.
“O indicado pelo Lula também pode votar. Se tivéssemos uma ministra negra indicada, venceríamos! Quem abriu a divergência — contra o Movimento Negro — foi o ministro Zanin. Precisamos nos unir, mobilizar as ruas, imprensa E mídia porque ainda faltam os ministros Fachin e Gilmar Mendes votarem”, defende.
Para Thales Vieira, antropólogo e diretor do Observatório da Branquitude, o reconhecimento do racismo estrutural e seus efeitos na sociedade é uma importante conquista, resultado direto da mobilização persistente do movimento negro.
“A decisão reconhece o racismo estrutural como elemento definidor em casos judiciais. Trata-se de um marco jurídico que permitirá a mobilização judicial em situações onde o racismo se manifesta de forma latente, mas permanece pouco reconhecido pelo sistema de justiça brasileiro”, observa.
A compreensão das múltiplas expressões do racismo pelo STF, aponta o diretor, também é importante considerando a construção racial do Judiciário brasileiro, composto majoritariamente por pessoas brancas.
“Estamos diante de um sistema judicial que apresenta grande dificuldade em se tornar mais diverso e que, consequentemente, possui limitações consideráveis para identificar e reconhecer as manifestações do racismo presentes no país. É justamente neste contexto que a decisão do STF se estabelece como referência jurisprudencial fundamental”, completa.