“O que a mão ainda não toca, o coração um dia alcança”. O trecho do samba “Força da Imaginação”, de Dona Ivone Lara, condensa o que foi a celebração dos 30 anos do AMMA Psique e Negritude, realizada no dia 5 de dezembro, na Casa Udjain, em São Paulo. O evento marcou a expressão viva de uma jornada que começou há um ano, com o projeto Pontes para o Futuro, e que seguirá adiante até o lançamento do Manifesto por uma Saúde Mental Antirracista, previsto para 2026. Um evento celebrado como um sucesso pelas educadores, oficineiros, psicólogos, enfermeiros, assistentes sociais, pesquisadores, estudantes, militantes e parceiros, e que reafirmou o papel histórico do AMMA na produção de conhecimento e no cuidado em saúde mental da população negra.
Fundado por mulheres negras que ousaram afirmar que o racismo produz sofrimento psíquico e que a psicologia brasileira precisava assumir esse enfrentamento, o AMMA chegou aos 30 anos reafirmando a força dessa linhagem política, ética e intelectual. Na mesa de abertura, Maria Lucia da Silva, cofundadora da organização, destacou: “O dia de hoje tem a ver com uma transição geracional dentro da instituição, que tem sido feita há alguns anos, com muito cuidado. Nossas práticas e saberes se ampliam e vão ganhando novos rostos e formatos com um mundo que se avizinha”.
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Ao seu lado, Ivani Oliveira, professora universitária, psicóloga e presidenta-eleita do Conselho Federal de Psicologia, ressaltou a importância dessa continuidade histórica: “Estar ao lado de Maria Lúcia nesta mesa é, para mim, reconhecer publicamente uma linhagem de pensamento e de luta que inaugurou horizontes. Uma linhagem que ousou dizer, antes de quase todos, que não há saúde mental possível em um país que se recusa a enfrentar o racismo; que não há ética profissional que sobreviva se não encararmos a branquitude enquanto pacto, enquanto estrutura, enquanto modo de produzir sofrimento.”
Logo após a mesa de abertura, ainda pela manhã, as pessoas participantes foram conduzidas pelo sambista Daniel Collête para uma atividade teórico-vivencial que corpo, ritmo e memória ancestral se encontraram. A atividade transformou o espaço em um território de cuidado coletivo, onde a percussão e o samba funcionaram como ferramentas de presença e pertencimento.
Mais do que uma atividade de integração, o momento convocou o público a reconhecer a pulsação afro-brasileira como fundamento de saúde, comunidade e resistência, uma força que lembra os barracões das escolas de samba, onde sonhos são erguidos a muitas mãos, que sustentam a energia vital de um povo inteiro. Assim como nos barracões, onde cada estrutura depende da outra para se manter de pé, e como nos tambores, cuja batida se firma no coletivo, a atividade reafirmou que futuro se constrói em sintonia, compartilhando ritmo, território e sentido.
Colhendo as palavras do futuro
Durante a tarde, grupos temáticos se reuniram para debater os eixos estruturantes do Manifesto, entre eles: Psicologia e análise de conjuntura sob perspectiva antirracista; Precarização do trabalho e saúde mental da população negra; Saúde mental em tempos de emergência climática; Transexualidade, racismo e saúde mental; Primeira infância e relações raciais; Direitos sexuais e reprodutivos; Práticas antirracistas no SUS; Clínicas públicas, racismo e sexismo; Ações afirmativas no ensino superior; Formação em saúde e currículo enegrecido.
Ao final das discussões, cada grupo apresentou sínteses públicas, que funcionarão como base para o processo de escrita do Manifesto. Esses textos de síntese, construídos coletivamente em diálogo, afetividade e rigor crítico, antecipam o tom político, ético e propositivo do documento final, que será consolidado ao longo das próximas semanas.
“Estamos aqui para afirmar um projeto político de saúde mental que celebre a vida e reconheça a centralidade da população negra, dos povos quilombolas, ribeirinhos, povos tradicionais, periféricos, comunidades LGBTQIA+ e do povo brasileiro, cuja luta cotidiana sustenta e reinventa este país. Um projeto que fortaleça redes de cuidado, amplie horizontes de bem viver e legitime nossos saberes e territórios como fundamentos de saúde, criação e futuro. Nosso compromisso é fazer da saúde mental um território onde a vida do povo brasileiro seja celebrada.” Liamar A. Oliveira, psicóloga e coordenadora executiva do AMMA Psique e Negritude.
Celebração, memória e continuidade
O dia terminou com um coquetel que reuniu gerações que construíram o AMMA e novas vozes que hoje dão continuidade à sua missão. A celebração dos 30 anos reforçou que a história da instituição não é apenas comemorativa, mas de permanente invenção e compromisso com a ética do cuidado, a justiça e a construção dos futuros que se deseja sonhar. Ou, como pronunciou em sua fala ao longo dos debates Marilza de Souza Martins, uma das matriarcas co-fundadoras do AMMA, “Uma construção criativamente espiralar”, fazendo referência à intelectual Leda Maria Martins.
Assim como nos insiste em lembrar o samba de Dona Ivone Lara, o AMMA segue afirmando que há horizontes que ainda não tocamos com as mãos, mas que o coração e o compromisso coletivo já alcançam. O evento do dia 5 celebrou essa trajetória e abriu caminho para o próximo passo: a consolidação do Manifesto, que será apresentado em janeiro de 2026, marcando o início de um novo ciclo da organização.
O Manifesto apresenta um projeto de país constituído a partir das lutas e dos saberes das mulheres negras e da juventude negra, reconhecendo que não há futuro possível sem que seus horizontes, experiências e reivindicações estejam no centro das políticas públicas. Trata-se de um projeto forjado nas organizações, coletivos e movimentos que atuam nos territórios e articulado pelo Instituto AMMA Psique e Negritude junto a mais de 20 entidades comprometidas com a vida do povo brasileiro. Um projeto que desloca o cuidado da retórica para a prática e afirma a saúde mental como campo estratégico de disputa por direitos, dignidade e participação social.