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Marcha das Mulheres Negras: quando o futuro pulsa no corpo e na saúde mental

A Marcha é reparadora: ela recoloca o corpo negro feminino em movimento, em laço, em comunidade, em agência.
Profissionais da psicologia participam da Marcha das Mulheres Negras, em Brasília, em 25 de novembro de 2025.

Profissionais da psicologia participam da Marcha das Mulheres Negras, em Brasília, em 25 de novembro de 2025.

— Divulgação/AMMA Psique e Negritude

25 de novembro de 2025

Há algo profundamente revolucionário quando mulheres negras ocupam as ruas do país dizendo, juntas: “Estamos em marcha!”. Não se trata apenas de um ato político, de uma demonstração de força num momento específico. Trata-se da afirmação de uma existência que persiste, que cuida e que inventa caminhos, mesmo quando o mundo insiste em anunciar nosso fim. Durante séculos, todas as formas de violência, do sequestro colonial à devastação ambiental, tentaram calar nossos passos. É preciso repetir: “eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer”, frase de Conceição Evaristo a nos guiar em momentos difíceis. Hoje, marchar é também um modo de viver.

A Marcha das Mulheres Negras 2025, construída ao longo de uma década de mobilização desde o histórico 18 de novembro de 2015, não é apenas a memória de um ato multitudinário. É continuidade, é atualização, é respiro coletivo. É a expressão mais nítida do que significa saúde mental como projeto político.

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Se os territórios adoecem, pelo fogo, pela fome, pelo racismo ambiental, pelo desmonte das políticas públicas, também adoece o corpo. E se o corpo adoece, adoece a psique. A Marcha, portanto, é reparadora: ela recoloca o corpo negro feminino em movimento, em laço, em comunidade, em agência.

Neste sentido, do ponto de vista do AMMA Psique e Negritude, que há três décadas trabalha com saúde mental da população negra, a Marcha é uma das expressões mais potentes do que entendemos por cuidado coletivo. Não há clínica possível sem comunidade viva. Não há saúde mental possível quando nossos territórios são destruídos, e quando nossas mulheres são as primeiras a respirar a fumaça, a beber água contaminada, a enterrar parentes vítimas da crise climática ou do Estado genocida.

Justiça climática é cuidado, e cuidado é saúde mental

A cartilha Marcha das Mulheres Negras 2025 – Por Justiça Climática e Bem Viver, que pode ser baixada gratuitamente pelo site do Centro Brasileiro de Justiça Climática, é explícita: a crise climática não é neutra. Ela tem cor, gênero e território. O racismo ambiental determina quem respira ar tóxico, quem perde a casa nas enchentes, quem não tem saneamento, quem enfrenta insegurança alimentar e hídrica. E, como mostra o documento, esses impactos se traduzem em adoecimento psíquico, medo constante, ansiedade climática, ruptura de vínculos, luto territorial.

No AMMA, entendemos que saúde mental não se produz apenas na consulta ou na terapia. Ela se produz no território, nas relações, na garantia de direitos, na dignidade. E é exatamente isso que a Marcha reivindica ao propor o Bem Viver como horizonte civilizatório: terra, água, ar, alimento, tempo de descanso, autonomia, espiritualidade e pertencimento como condições para a vida.

Em outras palavras: a Marcha formula aquilo que a psicologia social  há décadas aponta, que o sofrimento psíquico não é individual, é histórico e estrutural, e seu cuidado também precisa ser coletivo e político.

Liamar Oliveira, Maria Lucia da Silva, Jussara Dias e Clélia Prestes, da AMMA Psique e Negritude, durante a Marcha das Mulheres Negras, em Brasília, em 25 de novembro de 2025. Foto: Divulgação

Corpos-territórios em movimento: existir é resistir

Quando mulheres negras caminham juntas, o que se movimenta não são apenas pés, mas séculos. O que se desloca é a história: da casa grande ao quilombo, do igarapé à periferia, do terreiro à universidade, da COP30 às ruas de Brasília.

A Marcha de 2025 nasce da força dessas múltiplas geografias. Elas trazem consigo as mulheres de Salvador, Belém, Recife, São Paulo, das florestas, das quebradas, dos quilombos, dos rios. Trazem as que cuidam da terra, as que enfrentam grileiros, as que plantam sem veneno, as que gerem organizações, as que protegem a água, as que criam redes de solidariedade na pandemia, as que reinventam a política, as que denunciam o Estado quando ele mata, e as que reconstroem a vida quando o Estado abandona.

Esses corpos-territórios carregam memória. Carregam também tecnologia ancestral. As mulheres negras já fazem justiça climática todos os dias, esquivadas das câmeras, mas enraizadas no cotidiano. Marchar é tornar essa política visível. 

Saúde mental como projeto ancestral de futuro

Para nós do AMMA, participar desse movimento é reafirmar nossa convicção de que não existe saúde mental possível num mundo que naturaliza a destruição dos territórios negros. O cuidado em saúde mental que que defendemos é aquele que enxerga o rio contaminado, o desmatamento, o desalojamento, a militarização da vida cotidiana, a violência do Estado, e o impacto disso na saúde coletiva.

Quando a Marcha afirma Reparação e Bem Viver como pilares, ela está dizendo que a reparação não é apenas financeira, mas emocional, territorial e civilizatória; que o Bem Viver não é utopia ingênua, é método de cura; que lutar por justiça climática é, também, lutar por saúde mental; que mulheres negras são protagonistas de futuros possíveis.A Marcha das Mulheres Negras 2025 é, portanto, mais do que um evento. É uma grande prática de cuidado, uma convocação coletiva para imaginarmos o mundo e um lembrete de que a vida pulsa porque nós a mantemos pulsando.

E é por isso que seguimos em marcha: por nossas ancestrais, por nossas crianças, por nós mesmas e por todas as gerações que virão. Porque onde uma mulher negra se move, a história inteira se desloca. A história de ontem, de hoje e a que está por vir. 

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A editoria Quilombo reúne textos opinativos. Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a visão da Alma Preta sobre quaisquer temas.

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  • AMMA Psique e Negritude

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