“Eu não sei nem descrever o sentimento, pra ser bem realista!”, fala, extasiado, o agora bacharel em Sistema de Informação Reginaldo Tobias de Oliveira. Com uma medalha no peito — entregue aos formandos no lugar do costumeiro canudo como um símbolo da vitória que foi chegar ao final da grande maratona do ensino superior — , ele tentava encontrar no emaranhado de sentimentos algum adjetivo para qualificar a noite em que se formou.
“Ao mesmo tempo que tem aquela sensação de alegria que a gente tá terminando a faculdade, encerrando um ciclo, já bate a saudade né. Porque querendo ou não a gente tava ali quatro anos todo mundo junto, reunido. Todo mundo com o mesmo objetivo”, ele conta, segurando a medalha, como que para se certificar que tudo o que acontecia ali, numa noite em que tudo era sonho, era realidade.
Quer receber nossa newsletter?
Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!
Euforia, orgulho, saudade, alegria e gratidão. Esses são apenas alguns da extensa lista de sentimentos compartilhados na noite de 5 de dezembro durante a cerimônia de formatura da primeira turma do programa de bolsas de estudo criado pela Nike e pela Somos CIEE. Com a presença de amigos e familiares, os 18 jovens negros festejaram o encerramento do ciclo numa cerimônia potente, feita para celebrar não só a conquista deles, mas também todo o significado do ingresso, da permanência e da conclusão do ensino superior por jovens negros para a realidade brasileira.
“O que eu falo pro meu eu do passado, agora com uma medalha no peito, depois de um evento tão grande como esse, é que tem que persistir, não tem outra saída. A gente é muito limitado a achar que aquilo que temos é o que a gente vai ter pro resto da vida, e a faculdade ela abre essa porta e fala que não, não é assim que funciona. Você pode almejar algo maior”, diz Reginaldo.
A cerimônia foi conduzida pelo jornalista e apresentador Luiz Teixeira, que compartilhou com os formandos e suas famílias a sua trajetória, marcada pela proximidade com a trajetória dos formandos daquela noite. Teixeira também cursou a faculdade como bolsista e viu na formação superior uma forma de mudar a narrativa da própria história e construir novas possibilidades para o seu futuro.
A demonstração da potência possível da juventude negra também ficou a cargo das apresentações do coletivo de dança Turmalinas Negras e da escritora e educadora do projeto Vida Corrida, Jéssica Campos. Em sua apresentação, Jéssica reforçou o entendimento que é base principal do programa criado pela Somos CIEE e pela Nike: a de que a educação é transformadora e uma das principais ferramentas de ajuste das desigualdades históricas que construíram o Brasil.
Para Maria Nilce Mota, superintendente executiva da Somos CIEE, a cerimônia é apenas uma das etapas de um processo importante de investimento na educação por parte de grandes organizações. Processo que, segundo ela, infelizmente ainda vai na contramão do que normalmente acontece.
“O investimento em educação é um resultado de longo prazo. E a gente vê que nós temos dificuldade de encontrar organizações que queiram investir fortemente na educação. Então quando a gente une duas marcas fortes, o que a gente quer é impactar e sensibilizar outras organizações que se juntem à nós”, relata.
Durante a cerimônia, os 18 formandos ainda foram surpreendidos por mensagens gravadas em vídeo por artistas e esportistas negros como Rafaela Silva, Lucarelli, Negra Li, Patricia Ramos, Damiris Dantas, Thiaguinho e Léo Santana, desejando para eles um trajetória de conquistas no caminho de um país mais justo e igualitário.
Para Bruno Teixeira, gerente executivo de Propósito e Comunicação da Fisia, distribuidora da Nike no Brasil, a noite foi mais do que a consagração de um feito que, por si só, já é grandioso. Foi também um momento de afirmação de que sonhar, para a juventude negra, é possível e necessário.
“Quatro anos atrás a gente escutava muito esses jovens falarem sobre a oportunidade de sonhar. Até mesmo o receio de ter sonhos mais grandiosos por conta da perspectiva de vida que eles tinham naquele momento. Quatro anos depois a gente celebra a conquista de um sonho gigantesco e é muito gratificante ver que cada um deles já tem perspectivas de planos traçados”, diz.
“Bora pra frente, bora indo”
Sonhar e querer mais foi justamente o que levou Reginaldo, de 23 anos, a sair de Sorocaba, no interior de São Paulo, e ir para a capital paulista em plena pandemia de covid-19. Filho de empregada doméstica, ele sempre acreditou que a educação era a chave para a mudança social e financeira que tanto sonhava. Em São Paulo, foi acolhido pela família do namorado e conseguiu um emprego como jovem aprendiz do CIEE. Quando estava a um mês de terminar o contrato, ficou sabendo do edital de bolsas de estudo oferecido pela Somos CIEE em parceria com a Nike.
“Eu já tava com um pouco de receio. Eu já conheço o processo seletivo, sei como é. Você vai com aquele entusiasmo aí vem um balde de água fria. Só que não foi o meu caso, deu tudo certo. Eu consegui a bolsa e isso abriu muitos caminhos pra mim”, conta.
Afeito à tecnologia, Reginaldo escolheu estudar Sistemas de Informação. Quatro anos depois, ele entende que o ingresso na universidade foi uma transformação não só na realidade prática da vida, mas também na sua própria postura diante dos desafios.
“Uma mudança muito positiva foi a questão de persistir demais naquilo que eu quero. Antes eu persistia, mas depois ficava ‘deixa, não vai dar certo, não vai pra frente, deixa pra lá’. E eu vi que com essa questão da faculdade, com a bolsa do CIEE com a Nike, eu tive esse impulso de falar ‘não, peraí. Eu tenho que seguir esse caminho, é difícil mas bora pra frente, bora indo’”, ele conta.

Apoio olímpico
Em 2022, quando o programa foi lançado pela Nike e pela Somos CIEE, foi a medalhista olímpica de vôlei Fernanda Garay que incentivou os jovens a se inscreverem na iniciativa. “Agarrar com determinação e dedicação as oportunidades que surgem é um grande ensinamento. E essa parceria da Nike com a Associação Somos CIEE proporciona um futuro mais inclusivo e com mais possibilidades para muitos jovens, então esse é o momento de agarrar esta oportunidade. Não deixem de participar e se inscrever no edital” ela disse em um vídeo divulgado nas redes do CIEE na época do lançamento do programa.
Quatro anos depois, no dia da cerimônia, foi das mãos dela, que tantas conquistas já trouxeram para o esporte brasileiro, que eles receberam a medalha que confirmava a conquista deles — que também é mais uma grande conquista para o Brasil. Sob os gritos de “madrinha”, a paraninfa subiu ao palco tendo em mente que o início do ciclo dos formandos, lá em 2022, foi também o início de um ciclo diferente na carreira dela, construindo assim um processo mútuo de troca de experiências e aprendizado.
“A transformação de eu sair efetivamente ali da quadra e usar a minha imagem, usar da minha experiência e ser uma espécie de mentora. Assim como eles se entregaram de corpo e alma pra esse projeto, pra realizar esse sonho, eu também entreguei muito da minha vida, da minha experiência, da minha jornada”, diz a atleta, que acompanhou o processo de formação dos jovens selecionados por meio de encontros, diálogos e mentorias.
Garay também reforça a conquista de algo que, independentemente da realidade que aparta e violenta muitas juventudes negras, é uma coisa intrínseca, que fica gravada na experiência desses jovens: o conhecimento. “O conhecimento, uma vez que a gente adquire nunca perde, é algo que é teu, que ninguém te tira, tu só pode ganhar e acrescentar. Te traz oportunidade, te coloca no mercado de trabalho, te abre possibilidades”, destaca a campeã olímpica.

“Venci porque vencemos”
Sob o lema “Venci porque vencemos”, os 18 novos graduados em Administração, Educação Física e Sistemas de Informação foram aplaudidos por amigos e familiares. Diante de figuras de referências potentes como Fernanda Garay e a jogadora de basquete Janeth Arcain, também presente na cerimônia, os próprios formandos se tornam referência. Nesse ciclo, o provérbio africano “Eu sou porque nós somos” é muito representativo por reforçar a ideia de que eles estão caminhando por um caminho construído por tantos outros negros e negras que vieram antes e que, agora, dão para eles as ferramentas para seguirem construindo o caminho, para que outros jovens como eles, de outras comunidades como as deles possam também trilhar um caminho de conquista e transformação social.
“Eles já são referências para as novas gerações. A gente escuta muitos relatos das organizações de que um jovem olha pro Vini Jr. como uma grande referência,e hoje ele também consegue olhar pro Luiz Gustavo (um dos formandos) que cursou uma faculdade e tá conquistando seu caminho, e poder falar que ele quer trilhar o mesmo caminho do Luiz”, diz Bruno Teixeira.
Para Maria Nilce, os bolsistas agora formados são figuras potencialmente representativas. “Eles certamente serão nossos porta-vozes em nossos projetos. A gente quer mostrar por eles que a educação compensa, que é importante o conhecimento. Há outros caminhos, mas o melhor caminho é o do conhecimento, é a educação. E o que a gente diz pra eles, é que a gente quer que eles sejam excelentes, mas cidadãos excelentes também”, reitera.
Dezoito nomes, dezoito trajetórias, dezoito futuros. Os dezoito estudantes formados, de medalha no peito, agora constroem juntos, nas suas famílias e nos seus territórios, uma nova realidade para si e para o próprio país. Mas para eles, assim como para Reginaldo, essa conquista está distante de ser a linha de chegada.
“Conforme eu trilhava esses quatro anos de faculdade, ia abrindo uma porta diferente. Eu consegui conquistar meu apartamento, estando aqui em São Paulo, vindo de Sorocaba. Além de ser o primeiro da família a conseguir entrar na faculdade. E eu sempre tive essa vontade de ser a primeira pessoa da minha família a concluir a graduação, a ter o meu diploma. Bora, vamo pra frente, vamo tentar chegar a algum lugar”.