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De legado e futuro: programa de acesso ao ensino superior reforça a centralidade da educação na transformação socioeconômica da juventude negra

Primeiro ciclo da parceria entre a Somos CIEE e a Nike chega ao fim promovendo transformação na trajetória de jovens negros da periferia de São Paulo
Ana Beatriz integra a primeira turma do programa. Estudante de Sistemas da Informação, ela teve acesso ao edital por meio do CIEE, onde atuava como jovem aprendiz.

Ana Beatriz integra a primeira turma do programa. Estudante de Sistemas da Informação, ela teve acesso ao edital por meio do CIEE, onde atuava como jovem aprendiz.

— Camila Gonçalves de Macedo/Alma Preta

5 de dezembro de 2025

Diariamente, a estudante Ana Beatriz de Souza Fittipaldi sai de Guaianases, na Zona Leste de São Paulo, onde mora com os pais e os dois irmãos, para chegar no trabalho e na faculdade. Uma linha de trem e outra de metrô a separam do ambiente da sala de aula, cenário que foi motor de uma mudança paradigmática na vida da jovem. 

Foi nesse mesmo cenário que Luiz Gustavo de Oliveira Diniz, do outro lado da cidade, no Capão Redondo, Zona Sul de São Paulo, conseguiu imaginar novas possibilidades de futuro. Apaixonado por esporte, ao ingressar no ensino superior o estudante passou a correr e atravessar pontes que, para ele, nascido e criado “da ponte pra cá”, muitas vezes pareciam intransponíveis.

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A história desses dois jovens é semelhante à de muitos outros que vivem cada dia como uma verdadeira maratona. Enfrentar longas distâncias, se desviar da escassez de oportunidades, atravessar pontes, costurar fendas sociais e raciais. Tudo isso está na ordem diária da vida de jovens negros que nascem e crescem num país verdadeiramente partido, que define nas cenas mais corriqueiras do cotidiano quem pode e quem não pode.

A implementação da política de cotas no ensino superior e a consequente maior presença de negros e negras nas universidades tornou essa maratona uma corrida para um caminho menos incerto: costurar os dois lados da ponte e tornar a distância das periferias socialmente mais curtas, com jovens negros e periféricos sendo personagens ativos na dinâmica social do país, se tornou uma realidade incontornável que tem provocado mudanças importantes no Brasil. 

Ana Beatriz e Luiz ingressaram juntos na universidade. Ela em Sistemas de Informação, ele em Administração. O acesso ao ensino superior veio do sonho de mudar a própria realidade e também da própria agilidade em agarrar as oportunidades. Ela era jovem aprendiz no CIEE e ele participante da ONG Vida Corrida, apoiada pela Nike, quando souberam que as duas instituições haviam unido esforços para criar um programa de bolsas integrais de estudo no ensino superior, voltado justamente para jovens como eles: autodeclarados pretos ou pardos e moradores das periferias de São Paulo e região metropolitana, que atuavam como jovem aprendiz em empresas vinculadas ao CIEE ou que participavam de projetos em entidades de promoção da prática esportiva financiadas pela Nike — por meio da Fisia, distribuidora oficial da marca no Brasil. O edital oferecia 21 vagas distribuídas em três cursos estratégicos: Educação Física, Administração e Sistemas de Informação.

Passados quatro anos e quase finalizada a formação dos aprovados no primeiro processo seletivo, a parceria firmada entre a Somos CIEE e a Nike já é um impacto real na vida de mais de 30 jovens negros, tendo passado já por uma segunda edição, com edital lançado em 2024. “Sempre sonhei alto, mas com a bolsa de estudos consegui dar um passo enorme muito antes do que esperava. Hoje consigo me orgulhar do que vejo no espelho. Sei do meu valor”, relata Ana Beatriz, primeira pessoa da família a ingressar no ensino superior. Hoje, prestes a se graduar em Sistemas de Informação, ela já é colaboradora efetivada da multinacional onde estagiou, e já sonha com a compra do apartamento próprio.

Diploma de ensino superior amplia oportunidades

De acordo com um relatório divulgado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em 2025, as chances de encontrar uma posição no mercado de trabalho são alavancadas quanto mais alta for a escolaridade de quem está procurando emprego.  O que torna o acesso ao ensino superior um fator importante na mudança de realidades, especialmente a de jovens negros da periferia. Ter um diploma amplia não só as chances — segundo o relatório, atualmente 92% de quem tem ensino superior está empregado — como também amplia a renda em si: em média, a renda de graduados é 148% maior que a de quem concluiu só o ensino médio.  

“O ensino superior é um fator relevante para o ingresso qualificado no mundo do trabalho, para a melhoria das condições de vida e para o crescimento pessoal. Essa percepção não só está alinhada com pesquisas recentes, como a da OCDE, mas também com o acompanhamento que temos dos nossos bolsistas”, diz Maria Nilce Mota, superintendente executiva da Somos CIEE.

Luiz Gustavo integra a primeira turma do programa. Estudante de Administração, ele teve acesso ao edital através da ONG Vida Corrida, onde atua como monitor e conselheiro, e onde aplica parte dos conhecimentos adquiridos na graduação. (Foto: Gsé Silva/Alma Preta)

Num cenário como esse, que desmente discursos de que o ensino superior é dispensável e até mesmo um empecilho para “ganhar dinheiro rápido”, fica evidente que investir em educação é uma decisão estratégica para o futuro e que aproximar cada vez mais a universidade dos espaços onde ela se faz mais necessária é das ações imprescindíveis para uma real mudança do cenário profundamente desigual que observamos na sociedade brasileira.

Mas tão importante quanto fortalecer e incentivar as formas de ingresso, é ver esses jovens conseguindo se manter na universidade. Afinal, a evasão precoce ainda é a realidade de muitos jovens negros que não encontram no ambiente universitário um espaço de acolhimento que também seja compatível com as suas realidades diárias de deslocamento, trabalho e renda. Para enfrentar esse aspecto da questão, os beneficiários do programa contaram com um suporte financeiro ao longo de todo o curso, voltado para o custeio de gastos com transporte e alimentação, além de apoio psicossocial e um acompanhamento profissional feito pela Somos CIEE.

Esse programa é um reflexo do posicionamento das duas instituições diante dos dados históricos que confirmam a desigualdade social e racial do Brasil, e também demarca um entendimento de que reside na educação a possibilidade de transformação e justiça social, transformando tanto as narrativas individuais de cada um, quanto a própria narrativa estrutural do país.

Além de pensar o ingresso e a permanência desses jovens no ensino superior, a iniciativa também lançou um olhar para a estrutura das próprias instituições que, no futuro, planejam receber esses jovens em seus quadros de colaboradores. A presença deles, assim como seus diferentes pontos de vista e posicionamentos, são um ganho para o mercado de trabalho, que cresce muito diante da ideia de valorização da promoção da diversidade e da equidade em seus quadros e processos internos. “Considerar marcadores sociais como raça e etnia, gênero, renda, orientação sexual é imperativo para ampliar as perspectivas de ocupação das diversidades em cargos de poder e decisão”, complementa Maria Nilce.

Para Bruno Teixeira, gerente executivo de Comunicação e Propósito da Fisia, que acompanha os bolsistas desde o início do programa, observando de perto suas trajetórias na graduação e no mercado de trabalho, a parceria com a Somos CIEE também possibilita um vínculo maior com o território onde esses jovens nascem e crescem, potencializando inclusive outras ações existentes dentro deles: “Atuamos juntos com ONGs, especialistas, atletas e funcionários para criar um futuro mais ativo, com mais possibilidades de vencer e com condições de jogo mais iguais para todos. Por isso, a parceria com a Somos CIEE é tão importante para potencializar outras iniciativas em execução nesses territórios, ampliando as oportunidades de desenvolvimento humano desses jovens”, ressalta.

Para os estudantes que ingressaram na primeira turma com Ana Beatriz e Luiz Gustavo, todos prestes a se graduar e todos já posicionados no mercado de trabalho, fica a sensação de um horizonte aberto de possibilidades. O ciclo que se encerra é, na verdade, já o início de outro, no qual eles próprios se tornam referências e também agentes de uma necessária transformação social. 

Muito além de um espaço de formação puramente profissional, a universidade também provoca uma revolução individual, impactando os jovens e, consequentemente, os espaços por onde eles passam, bem como as pessoas com as quais eles convivem. Maior participação social, respeito às diversidades, exercício profundo do pensamento crítico. Todos esses são aspectos que transformam a existência desses jovens e que possuem um impacto direto na coletividade. O que fica de suas trajetórias, que ainda estão apenas no começo, é um legado de referência, sustentado pela potencialidade de suas histórias, suas origens e seus territórios. Para quem vem depois, eles se tornam a certeza de que a educação pode construir pontes que, de fato, aproximem aqueles mais vulnerabilizados de um futuro justo e igualitário.

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  • Glauber Cruz é jornalista formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e é Especialista em Literatura Brasileira pela mesma universidade.

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