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Príncipe Custódio, o líder africano que estruturou o batuque no Sul do Brasil e inspirou enredo da Portela

Figura central das religiões de matriz africana no Rio Grande do Sul viveu em Porto Alegre até 1935 e foi tema de enredo da Portela no carnaval do Rio de Janeiro
Foliões da escola de samba Portela se apresentam na noite de abertura do Carnaval do Rio, no Sambódromo da Marques de Sapucaí, no Rio de Janeiro, Brasil, em 16 de fevereiro de 2026.

Foliões da escola de samba Portela se apresentam na noite de abertura do Carnaval do Rio, no Sambódromo da Marques de Sapucaí, no Rio de Janeiro, Brasil, em 16 de fevereiro de 2026.

— Pablo Porciuncula/AFP

16 de fevereiro de 2026

O príncipe Custódio Joaquim de Almeida, figura histórica e espiritual originária do Benin que viveu em Porto Alegre do início do século XX até a morte em 1935, ganhou destaque nacional na madrugada desta segunda-feira (16). A Portela levou à Marquês de Sapucaí o enredo “O Mistério do Príncipe do Bará – A oração do Negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande”, exaltando a história do personagem que marcou a história do Rio Grande do Sul.

Negro, com cerca de dois metros de altura e de origem africana, Custódio se tornou babalorixá e uma das figuras centrais do batuque, a vertente mais antiga das religiões afro-brasileiras no estado. As controvérsias e mistérios em torno de sua história foram levadas ao Carnaval de 2026 do Rio de Janeiro.

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O desfile buscou valorizar a identidade negra do povo gaúcho que, segundo a escola, é frequentemente invisibilizada na história oficial do estado, e ressaltou elementos como os rituais do batuque, a cultura popular e a força ancestral deixada como herança por Custódio.

Custódio Joaquim de Almeida nasceu em 1831, no atual Benin, onde era conhecido como Osuanlele Okizi Erupê e reconhecido como príncipe. Registros históricos e a tradição oral indicam que ele deixou a África em contexto de avanço do imperialismo europeu, em especial britânico, e buscou exílio no Brasil.

A chegada teria ocorrido por volta de 1898, com passagem inicial pela Bahia. Em seguida, Custódio seguiu para o Rio de Janeiro, onde permaneceu por curto período. Segundo a tradição religiosa, o jogo de búzios indicou que ele deveria seguir viagem para o Sul do país.

No Rio Grande do Sul, Custódio viveu em cidades como Rio Grande, Pelotas e Bagé até chegar, em 1901, a Porto Alegre, onde se estabeleceu. A tradição aponta que sua ida à capital gaúcha ocorreu após um pedido de cura espiritual feito por Júlio de Castilhos, então presidente do estado.

Na cidade, Custódio residiu no bairro Cidade Baixa, região ocupada majoritariamente por população negra no período pós-abolição. Ao mesmo tempo, manteve contato direto com setores da elite local, sobretudo por meio do turfe, prática esportiva associada às classes dirigentes da época.

Religião, cura e liderança

Reconhecido como babalorixá, Príncipe Custódio se consolidou como uma das figuras centrais na formação do Batuque do Rio Grande do Sul, religião de matriz africana praticada principalmente no Sul do Brasil e também em países como Argentina e Uruguai.

Ele realizava consultas aos orixás por meio do ifá, atendia pessoas em busca de cura com o uso de ervas medicinais e conduzia rituais que podiam durar vários dias. Como sacerdote de Sakpatá, vodum associado à cura de doenças, transitava por diferentes grupos sociais, do povo negro recém-liberto a membros da elite política e econômica.

O nome de Custódio costuma ser associado ao assentamento do Bará no Mercado Público de Porto Alegre, ritual que teria como finalidade abrir os caminhos da cidade. A data do assentamento não é conhecida, e há versões que atribuem o ritual a escravizados que trabalharam na construção do prédio.

Ainda assim, a tradição afro-religiosa reconhece a importância do príncipe na consolidação do culto e na difusão do batuque pelas cidades onde viveu.

Registro de Custódio Joaquim de Almeida, conhecido como Príncipe Custódio. Foto: Reprodução

Relações com o poder e perseguição religiosa

O trânsito de Custódio entre lideranças políticas ocorreu tanto por sua atuação no turfe como por sua fama como curandeiro. Relatos da tradição oral indicam que ele teria sido chamado para realizar assentamentos no Palácio Piratini, com a finalidade de proteção espiritual de governos.

Ao mesmo tempo, práticas religiosas de matriz africana seguiram sob repressão institucional, o que evidencia a ambiguidade do período: a busca por saberes religiosos negros coexistiu com a perseguição ao batuque e a seus praticantes.

Príncipe Custódio morreu em 26 de maio de 1935, aos 104 anos. Sua trajetória permanece como referência para a compreensão da presença negra e da formação das religiões de matriz africana no Sul do Brasil.


Dados do Censo Demográfico de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o Sul concentra o maior percentual de pessoas praticantes  de religiões de matriz africana no país. O Rio Grande do Sul lidera esse índice, com 3,2% da população adepta à Umbanda ou ao Candomblé.

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  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

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