A confirmação da formação de um novo El Niño pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) acendeu um alerta global para os impactos climáticos dos próximos meses. Com 80% de probabilidade de consolidação entre junho e agosto e mais de 90% de chances de permanência até novembro, o fenômeno deve intensificar ondas de calor e alterar regimes de chuva.
No Brasil, porém, esses efeitos não serão sentidos de forma igualitária: populações negras e pobres, historicamente submetidas ao racismo ambiental, estão entre as mais expostas e as menos preparadas para enfrentar a crise.
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Os eventos climáticos extremos não atingem todas as pessoas da mesma forma, uma vez que as cidades também não foram produzidas de maneira uniforme. É o que destaca a arquiteta e pesquisadora em Neuroarquitetura Inaha Paz.
A especialista afirma que no país a população negra foi historicamente submetida a processos de segregação socioespacial que concentraram comunidades em territórios com menos infraestrutura, saneamento, drenagem, arborização e habitação adequada.
“Quando chegam as chuvas intensas, ondas de calor, ou qualquer situação climática extrema, essas desigualdades ficam ainda mais evidentes. É nesse contexto que se manifesta o racismo ambiental”, afirma a especialista, em entrevista à Alma Preta.
Embora as discussões sobre o El Niño normalmente se concentrem nos efeitos sobre agricultura, abastecimento de água e economia, Inaha Paz chama atenção para um aspecto frequentemente negligenciado: a capacidade das moradias de proteger a saúde física e emocional das pessoas diante das mudanças climáticas — algo muito distante da realidade da população negra brasileira.
“Quando falamos em eventos climáticos extremos, normalmente pensamos no que acontece do lado de fora, mas depois da pele, a casa é a primeira infraestrutura de proteção que temos. Ela deveria ser capaz de reduzir o estresse térmico, proporcionar sensação de segurança e oferecer condições adequadas para o descanso e a recuperação física e emocional”, explica.
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Impactos de eventos climáticos na saúde mental
Estudos demonstram que características do ambiente construído e a relação pessoa-ambiente influenciam diretamente a saúde mental, a qualidade do sono, os níveis de estresse e a sensação de bem-estar. Em um cenário de temperaturas mais elevadas e maior frequência de eventos extremos, a qualidade das habitações passa a ser também uma questão de saúde pública, principalmente para quem vive em áreas periféricas, onde a vulnerabilidade estrutural é maior.
Para Inaha, a arquitetura contemporânea precisa incorporar de forma mais consistente os desafios impostos pela emergência climática.
“Durante muito tempo, a arquitetura foi associada à estética ou ao valor imobiliário. Hoje, ela precisa responder a questões mais urgentes. Como manter uma casa habitável durante períodos de calor intenso? Como garantir ventilação adequada? Como criar espaços que favoreçam conforto físico e emocional em contextos de instabilidade climática? Essas perguntas já fazem parte do presente”, pontua.
A especialista destaca que soluções de adaptação nem sempre dependem de grandes investimentos. Ventilação cruzada, proteção solar adequada, aproveitamento da iluminação natural e escolha assertiva de materiais podem contribuir para reduzir a sensação térmica e melhorar as condições de permanência dentro das residências.
Criadora da metodologia Casa Curativa, Inaha defende que a discussão sobre moradia precisa ir além da infraestrutura física. Segundo a especialista, eventos climáticos extremos também produzem impactos emocionais, especialmente em populações mais vulneráveis.
“Ao debater sobre o clima, muitas vezes torna-se invisível a dimensão psicológica da habitação. A casa é um dos principais lugares de regulação da vida cotidiana e, quando ela deixa de oferecer proteção, conforto, segurança e previsibilidade, o corpo passa a conviver com um estado constante de alerta pela possibilidade de perder aquilo que foi construído ao longo da vida, o que gera desgaste contínuo”, analisa.

“A exposição prolongada a essas situações compromete a sensação de estabilidade e bem-estar, afetando o sono, a capacidade de recuperação do estresse e até a percepção de futuro das pessoas. Em momentos de crise climática, essa sensação de instabilidade tende a se intensificar”, acrescenta a especialista.
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Como o Estado pode reduzir os riscos?
De acordo com Inaha Paz, enfrentar essa realidade exige muito mais do que respostas emergenciais após os desastres.
“O Estado precisa investir em políticas permanentes de redução de riscos, qualificação dos territórios, democratização da infraestrutura urbana através de saneamento, arborização e melhoria habitacional, priorizando justamente as áreas historicamente negligenciadas”, aponta a arquiteta.
Até o momento, em escala federal, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) criou um grupo de trabalho para coodenar as ações de enfrentamento aos impactos do El Ninõ. A medida foi publicada em portaria no Diário Oficial da União (DOU) de 20 de julho.
Segundo a pasta, o objetivo é integrar iniciativas de prevenção, mitigação, preparação e resposta aos efeitos do fenômeno climático. O colegiado reunirá representantes de todas as secretarias nacionais, além de orgãos como Ibama e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
O grupo tem 15 dias para elaborar um plano de trabalho e deverá apresentar relatórios quinzenais sobre o andamento das ações, desafios identificados e eventuais recomendações.
“Falar em cidades resilientes e adaptação às mudanças climáticas também significa enfrentar desigualdades estruturais e compreender que justiça climática e justiça espacial caminham juntas”, conclui a arquiteta Inaha Paz.
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