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Gil do Vigor analisa efeito da falta de crédito em empreendedores negros

O economista aponta como a dificuldade de acesso a empréstimos limita negócios e aponta caminhos para empreendedores crescerem com mais solidez
O economista e apresentador Gil do Vigor.

O economista e apresentador Gil do Vigor.

— Divulgação/Marcos Duarte

22 de março de 2026

O empreendedorismo negro avançou no Brasil nos últimos anos. De acordo com a pesquisa “Empreendedorismo Negro no Brasil”, realizada pelo Sebrae em 2025 com base na PNAD Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de empreendedores negros passou de 13,1 milhões em 2014 para mais de 16 milhões em 2024, um crescimento de 22,1% em uma década.

Ainda assim, esse avanço convive com uma contradição persistente: muitos empreendedores criam, vendem e empregam sem acesso ao crédito que outros têm como ponto de partida. Sem capital de giro, o crescimento ocorre no fio da navalha, com pouca reserva para imprevistos, pouca margem para planejar e pouco fôlego para investir quando surgem oportunidades. 

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Os números ajudam a dimensionar o problema. Segundo o Sebrae, 77,6% dos empreendedores pretos e pardos têm rendimento mensal de até dois salários mínimos, o que indica pouca ou nenhuma reserva financeira. Nessa realidade, o capital de giro deixa de ser apenas um recurso desejável e passa a ser um fator que pode determinar a sobrevivência do negócio.

Quando o crédito não está acessível, seja por burocracia, histórico financeiro fragilizado ou outras barreiras institucionais, o empreendedor tem menos instrumentos para enfrentar oscilações do mercado. 

Leia mais: Mulheres negras lideram empreendedorismo no Norte, Nordeste e Centro-Oeste do país, diz pesquisa

Empreendedores negros têm menos acesso a credito que os brancos

Pesquisas sobre afroempreendedorismo também indicam diferenças na concessão de crédito. Um estudo publicado na Revista da Defensoria Pública do Distrito Federal mostra que a taxa de aprovação de empréstimos para empreendedores negros varia entre 44% e 48%, enquanto entre empreendedores brancos fica entre 57% e 64%, diferença que pode chegar a 16 pontos percentuais.

Ao comentar esses dados, o economista e apresentador Gil do Vigor ressalta que essa diferença não deve ser interpretada automaticamente como evidência direta de viés racial nas decisões de crédito.

O estudo não controla diversas características econômicas que também influenciam a concessão de empréstimos, como disponibilidade de garantias, histórico bancário ou estágio de maturidade do negócio. Ainda assim, os números sugerem desigualdades relevantes nas condições de financiamento enfrentadas por diferentes grupos de empreendedores. 

Outro desafio é o custo do crédito quando ele chega. Os juros pagos por micro e pequenas empresas no Brasil permanecem elevados. No crédito com recursos livres, modalidade em que os bancos utilizam recursos próprios e definem as taxas sem direcionamento obrigatório do governo, a taxa média atingiu 47,8% ao ano em janeiro, segundo o Banco Central. Para negócios com pouco capital de giro, juros nesse patamar tornam o financiamento ainda mais difícil de sustentar. 

Leia mais: Afroempreendedorismo movimenta quase R$ 2 trilhões no Brasil por ano, estima Sebrae

Na avaliação de Gil do Vigor, essa realidade exige respostas práticas enquanto mudanças estruturais ainda avançam lentamente.

“Quando o crédito não chega, o empreendedor cresce no modo sobrevivência porque não tem reserva. Por isso, é fundamental entender a margem, precificar corretamente, cuidar do fluxo de caixa e criar recorrência para ter previsibilidade e investir com mais segurança”, afirma. 

Na prática, isso começa pela organização financeira do negócio. Separar faturamento de lucro, mapear custos fixos e variáveis e entender quanto sobra por produto ou serviço é o primeiro passo para decisões mais conscientes. Revisar taxas, fretes, retrabalhos e descontos mal planejados também ajuda a identificar perdas que reduzem a rentabilidade. 

A precificação merece atenção especial: o preço precisa cobrir custos, impostos e taxas e ainda gerar margem real de lucro. Combos, pacotes e versões diferenciadas de produtos ou serviços podem ampliar o ticket médio sem reduzir o volume de vendas. 

Leia mais: Consultoria de imagem vira aliada do empreendedorismo negro no Brasil

No fluxo de caixa, um controle semanal simples, com registro de entradas, saídas e vencimentos, já melhora a visibilidade financeira e evita surpresas. Para aumentar a previsibilidade da receita, estratégias de fidelização como planos mensais, clubes de vantagens e assinaturas podem ser eficientes.

Listas de transmissão no WhatsApp com ofertas e lembretes também ajudam a manter o relacionamento com clientes sem depender apenas da conquista constante de novos consumidores. 

Além do impacto direto nos negócios, destravar o crescimento do empreendedorismo negro tem efeitos mais amplos na economia.

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