PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Relatório aponta viés racial nas mortes em operações na Baixada Santista

Segundo estudo, as operações Escudo e Verão, deflagradas entre 2023 e 2024, tiveram um custo superior a R$ 349 milhões aos cofres públicos
Manifestantes protestam contra operações policiais deflagradas na Baixada Santista.

Manifestantes protestam contra operações policiais deflagradas na Baixada Santista.

— Paulo Pinto/Agência Brasil

27 de julho de 2026

Levantamento divulgado pelo Instituto Vladimir Herzog nesta segunda-feira (27) revela um viés racial na letalidade das operações Escudo e Verão, deflagradas na Baixada Santista, entre 2023 e 2024, que resultaram na morte de 84 civis e dois policiais.

Os dados mostram um perfil definido entre as vítimas. Homens representaram 98% dos mortos. A idade média foi de 29 anos, com registro de pelo menos sete adolescentes entre 15 e 17 anos.  O estudo indica que 82% das vítimas eram negras, o que evidencia a concentração da violência sobre jovens negros residentes nas periferias do litoral paulista. Guarujá concentrou 41 mortes, seguido por Santos, com 34, e São Vicente, com 24.

Quer receber nossa newsletter?

Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!

O estudo reúne relatos de moradores, familiares, documentos oficiais, boletins de ocorrência e laudos periciais que apontam denúncias de tortura, invasões de residências sem mandado judicial, destruição de bens, ameaças, impedimento de circulação, agressões físicas, adulteração de cenas de crime e remoção de corpos antes da realização da perícia. 

De acordo com o relatório, essas práticas comprometeram a produção de provas e dificultaram a apuração dos casos.

O levantamento também analisa a atuação das instituições responsáveis pelas investigações. Até a conclusão da pesquisa, 17 mortes haviam sido arquivadas pelo Ministério Público sem oferecimento de denúncia. 

Outros 13 policiais militares respondiam a acusações relacionadas a sete ocorrências específicas, envolvendo homicídios, fraude processual e adulteração de provas. Segundo o documento, as denúncias concentram-se nos agentes diretamente envolvidos nos episódios e não alcançam integrantes da cadeia de comando das operações.

Leia mais: Ministério Público arquiva 17 inquéritos de mortes provocadas por PMs de SP na Operação Escudo

Além da dimensão das violações, o estudo apresenta uma estimativa inédita do impacto financeiro das operações. O custo supera R$ 349 milhões e considera despesas com mobilização policial, sistema de Justiça, perícias, encarceramento, perda de capital humano das vítimas e outros gastos públicos associados às ações. 

O relatório estima cerca de R$ 91,9 milhões destinados à atuação da Polícia Militar, R$ 28,3 milhões à Polícia Técnico-Científica, R$ 159,4 milhões ao processamento das 958 prisões realizadas durante as operações e R$ 41,6 milhões ao encarceramento dos presos. A perda de capital humano das vítimas também integra os cálculos.

Famílias relatam perda de renda e dificuldades após as mortes

O documento dedica um capítulo aos impactos sofridos pelos familiares das vítimas. Segundo as pesquisadoras, muitas pessoas mortas durante as operações eram responsáveis pela principal fonte de renda da casa. 

Após as mortes, familiares passaram a enfrentar redução da renda, dificuldades para custear despesas básicas, problemas relacionados à saúde mental e gastos decorrentes da busca por responsabilização judicial.

A gerente de Memória, Verdade e Justiça do Instituto Vladimir Herzog e coordenadora do relatório, Lorrane Rodrigues, afirma que os efeitos das operações permanecem mesmo após o encerramento das ações policiais.

“As famílias convivem com perdas que permanecem muito depois do fim das operações. O relatório procura registrar essas consequências e mostrar como os efeitos da violência estatal não se encerra na morte, atravessam a renda, a saúde mental, a vida comunitária e o acesso à Justiça”, destaca.

Ela acrescenta que a produção de evidências é necessária para o debate sobre políticas públicas.

“Uma democracia precisa ser capaz de examinar criticamente a atuação de suas instituições, e esse debate depende de evidências. Ao reunir e sistematizar essas informações, buscamos preservar a memória dos fatos e contribuir para a formulação de políticas públicas voltadas à proteção da vida.”

Ao final, o relatório recomenda o fortalecimento dos mecanismos de controle externo da atividade policial, o aperfeiçoamento das investigações sobre mortes decorrentes de intervenção policial, a ampliação das políticas de reparação às famílias atingidas e a revisão dos protocolos de atuação das forças de segurança. Segundo o Instituto Vladimir Herzog, essas medidas devem colocar as vítimas no centro das políticas de reparação e prevenção de novas violações.

Leia mais: Organização internacional aponta graves falhas na ‘Operação Escudo’ em relatório inédito

Apoie jornalismo preto e livre!

O funcionamento da nossa redação e a produção de conteúdos dependem do apoio de pessoas que acreditam no nosso trabalho. Boa parte da nossa renda é da arrecadação mensal de financiamento coletivo.

Todo o dinheiro que entra é importante e nos ajuda a manter o pagamento da equipe e dos colaboradores em dia, a financiar os deslocamentos para as coberturas, a adquirir novos equipamentos e a sonhar com projetos maiores para um trabalho cada vez melhor.

O resultado final é um jornalismo preto, livre e de qualidade.

  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

Leia mais

PUBLICIDADE

Destaques

Cotidiano