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ONU recebe denúncia de massacre no RJ e repressão na Favela do Moinho

Documento entregue ao Conselho de Direitos Humanos relaciona chacina de outubro de 2025 a racismo estrutural e interesses políticos e econômicos no Brasil
Bandeira do Brasil manchada com tinta vermelha.

Bandeira do Brasil manchada com tinta vermelha.

— Fernando Frazão/Agência Brasil

8 de abril de 2026

O Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) recebeu um documento que denuncia a interconexão entre racismo, violência policial, necropolítica e interesses políticos e econômicos no Brasil. 

O texto, apresentado conjuntamente pela Associação Americana de Juristas (AAJ) e pelo Mouvement contre le racisme et pour l’amitié entre les peuples (MRAP), destaca a Operação Contenção, realizada nos Complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, em 28 de outubro de 2025.

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Segundo as organizações que redigiram o documento,  a violência policial letal não constitui um fenômeno isolado, mas um sintoma de uma convergência sistêmica entre racismo estrutural e institucional, necropolítica, cálculo político-eleitoral e defesa de interesses econômicos específicos. 

A vida da população negra no Brasil, segundo o texto, não pode continuar servindo como moeda de troca na política e nos negócios.

Massacre do Alemão e da Penha

O texto cita a operação realizada em 28 de outubro de 2025 nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, como um caso emblemático. A ação resultou em 116 mortes, segundo o documento, embora os números oficiais contabilizem 122 ocorrências.

As organizações relatam indícios de execuções, tortura e outros tipos de violência. Também apontam que parte dos corpos foi retirada por familiares, o que indicaria tentativa de ocultação.

O documento registra ainda declarações de autoridades que classificaram a operação como bem-sucedida. Para as entidades, esse tipo de posicionamento reforça a impunidade em casos de violência estatal.

O relatório associa o episódio a um contexto político específico. Segundo o texto, a operação ocorreu em um cenário de disputas eleitorais e reorganização de forças políticas no país.

As organizações afirmam que autoridades do campo da direita política utilizaram o caso para sustentar discursos sobre segurança pública e responsabilizar decisões judiciais por mortes decorrentes de ações policiais.

O documento também menciona articulações entre governadores para reforçar essa narrativa após a operação.


Leia mais: Sucesso de Cláudio Castro só é possível em uma sociedade que goza com a morte

Necropolítica como prática estatal

O relatório descreve a atuação do Estado a partir de dois eixos: ausência de políticas sociais e presença de ações repressivas. 

Segundo o documento, essa combinação configura uma prática de necropolítica, conceito que descreve a definição de quais vidas recebem proteção e quais podem ser descartadas.

As organizações argumentam que esse modelo afeta de forma direta a população negra e se manifesta em operações policiais e políticas públicas.

O texto cita o caso da favela do Moinho, em São Paulo, onde processos de remoção ocorreram sob justificativa de reestruturação urbana.

Segundo o documento, essas ações beneficiam projetos ligados à valorização imobiliária. As organizações relatam que moradores enfrentaram demolições, pressão para saída e falhas no cumprimento de acordos de compensação.

O texto também menciona repressão a lideranças comunitárias, com registros de prisões consideradas arbitrárias.

Recomendações e pedidos à ONU

As entidades solicitam que o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos acompanhe a situação no Brasil. O documento pede atenção a violações relacionadas a racismo, violência policial e restrição de direitos.

O relatório também recomenda atuação de relatores especiais e grupos de trabalho da ONU, com foco em discriminação racial, violência estatal e detenções arbitrárias.

Entre as solicitações, está a realização de investigações independentes sobre mortes causadas por agentes do Estado, com responsabilização de envolvidos em violações.


Leia mais: Disputas armadas e chacinas policiais expõem fracasso da segurança no Brasil, aponta Fogo Cruzado

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  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

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