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Famílias são impedidas de identificar corpos de vítimas da chacina nos complexos da Penha e do Alemão

Em entrevista, homem que teve seu filho executado na Operação Contenção diz que foi impedido de ver o corpo no IML e hostilizado por um policial
Pessoas aguardando no Instituto Médico Legal (IML) Afrânio Peixoto, no centro do Rio de Janeiro.

Pessoas aguardando no Instituto Médico Legal (IML) Afrânio Peixoto, no centro do Rio de Janeiro.

— Mauro Pimentel/AFP

30 de outubro de 2025

Nesta quinta-feira (30), dois dias após a maior chacina policial da história do país, familiares das vítimas da Operação Contenção relatam que não estão conseguindo ver os corpos de seus entes antes de assinar o atestado de óbito no Instituto Médico Legal (IML) Afrânio Peixoto, no centro do Rio de Janeiro.

Em entrevista à Alma Preta, Alex, pai de uma das vítimas, conta que tenta reconhecer seu filho desde terça-feira (28). Nesta manhã, depois de três horas de espera, um funcionário teria avisado que ele não poderia vê-lo. 

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“Ele falou para mim: espera aí que o senhor vai conseguir reconhecer o teu filho, eu vou te dar o óbito e você chama o carro da funerária. Pois bem, fiquei aqui esse tempo todo, umas 3 horas. Depois que me chamou, disse que eu tinha que assinar o papel do óbito porque não ia poder reconhecer ali”. 

O pai questionou o impedimento, mas foi respondido que todos os jovens mortos naquelas condições não poderiam ser vistos até o carro da funerária chegar. Seu filho foi decapitado e, conforme conta Alex, sem nenhum ferimento de tiro. A vítima também apresentava marcas de espancamento.

“Ele [o filho] estava com marca de pancada no pulmão, no esôfago, entendeu? E ele não tinha uma marca de tiro. Decapitaram ele, isso aí é execução”, desabafou.

Com a negativa do IML, o pai informou que tentou reconhecer o filho diversas vezes, mas foi maltratado por um policial civil em uma das tentativas.

“Como vai chamar o carro da funerária? E se não é o corpo do meu filho? A Defensoria está me ajudando e eu estou aqui desde cedo, mas não resolvi nada. Já fiquei três dias procurando meu filho”.

Além do desrespeito com o luto e do descaso com o processo de reconhecimento do seu familiar, Alex também precisou lidar com provocações de policiais militares, que, ao passar com a viatura pelo IML, teriam feito gestos de comemoração com as mãos. 

O pai ressalta que a violência empregada na operação foi extrema e incompatível com os deveres das forças policiais e atribuiu ao governador Cláudio Castro a responsabilidade do massacre que matou mais de 120 pessoas. 

“Sobre a violência de estado, para mim, isso é culpa do governador. Porque ele colocou assassinos na rua. Se o cara se rendeu, o que é o certo? O certo é algemar e prender”, complementa.

Famílias denunciam descaso

Uma integrante da Rede de Atenção a Vítimas de Violência do Estado (RAVE) também ouvida pela reportagem descreveu um cenário de descaso no IML Afrânio Peixoto.

“Hoje a situação está absurda. Não tem como entrar lá, a nossa equipe não está conseguindo entrar para acolher as famílias, que estão esperando aqui na frente do IML. Não tem água, banheiro ou lugar para sentar. Isso por si só já é uma violação dos direitos humanos, né?”, explica. 

Em decorrência do grande número de familiares, na quarta-feira (29), o prédio do Departamento Estadual de Trânsito (Detran), ao lado do IML, foi disponibilizado para uso dos banheiros e espera das pessoas. Porém, como o espaço não estava disponível hoje, os presentes aguardaram em pé, na chuva, sem água disponível ou venda de alimentos nas proximidades.

“Não tem água, não tem o mínimo de acolhimento. É uma revitimização para quem já passou pela dor da perda. Já estamos passando por esse genocídio, essa chacina e não tem acesso ao mínimo”, declarou a ativista. 

A integrante da RAVE também relatou que ainda há corpos sendo encontrados em regiões de mata e que continuam a chegar no IML sem que haja mais informações sobre eles.

A Alma Preta tentou contato a Polícia Civil do Rio de Janeiro (PCERJ), órgão responsável pelo IML, para comentar as denúncias, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto para manifestações.

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  • Verônica Serpa

    Formada em Jornalismo pela UNESP e caiçara do litoral norte de SP. Acredito na comunicação como forma de emancipação para populações tradicionais e marginalizadas. Apaixonada por fotografia, gastronomia e hip-hop.

  • Augusta Lunardi

    Jornalista formada pela Universidade Paris 8 e mestre em Jornalismo Audiovisual no Centro de Formação de Jornalistas, em Paris. Trabalhou por dois anos em Paris como videorrepórter para os canais franceses Cnews e France 24. No Rio de Janeiro, trabalhou como freelancer para produtoras francesas realizando reportagens sobre política, meio-ambiente, direitos humanos e temas sociais. Esteve na linha de frente da cobertura da pandemia de COVID-19 trabalhando como freelancer para canais franceses. Mais recentemente, participou como videorrepórter temporada 2021 do Profissão Repórter, da TV Globo. Atualmente, é repórter e videorrepórter para veículos brasileiros e franceses.

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