“O que acontece no Sahel é histórico”, afirma Kounharè Dabire, ativista político de Burkina Faso.
Secretário-geral da Coordenação Nacional das Associações de Vigilância Cidadã (CNAVC), ele acredita que a região vive um enfrentamento com o colonialismo francês.
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“O povo está mobilizado contra o imperialismo francês e seus aliados. A finalidade é a construção do socialismo científico”, afirmou.
A região do Sahel fica na parte norte do continente africano, em uma região semiárida, entre o deserto do Saara e as savanas do continente. Ela é composta de nove países, entre eles, Burkina Faso, Mali e Níger, os três países que fundaram, em setembro de 2023, a Aliança dos Estados do Sahel (AES), um acordo entre as três nações a nível político, econômico e militar.
Os líderes da AES optaram por construir um passaporte comum para a livre circulação entre os países; um pacto de cooperação militar que garante que se um dos três for atacado, os demais devem responder à ameaça; e a construção de um banco para investir em projetos de infra-estrutura, entre outras medidas.
O principal objetivo é romper com o domínio francês na região. Em 22 de dezembro de 2023, os últimos soldados franceses, que estavam na região sob o pretexto de combater o terrorismo, deixaram a região. Os líderes africanos discordam da justificativa francesa para permanecer na região e denunciam o interesse dos europeus em explorar os minérios do Sahel.
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Para além dos desafios de ordem externa, Ibrahim Traoré, de Burkina Fasso, Abdourahamane Tiani, do Niger, e Assimi Goita, do Mali, enfrentam uma oposição interna, em diferentes níveis, sobretudo de setores alinhados aos franceses. No Níger essa oposição ocorre, inclusive, de setores de esquerda. No dia 10 de fevereiro, o governo de Burkina Faso decidiu pela dissolução dos diferentes partidos políticos do país, medida tomada em nome da “unidade nacional”.

“Diversos observadores denunciaram o uso indevido de recursos públicos e privados por certos partidos para alimentar redes de clientelismo, em vez de servir ao interesse público. Essas práticas alimentaram suspeitas de que os partidos políticos priorizam seus próprios interesses e os de algumas elites, em vez de defender efetivamente as aspirações do povo”, explicou Kounharè Dabire, em defesa da decisão de dissolução dos partidos.
O Mali, no dia 25 de abril, foi alvo de ataques dos grupos opositores da Frente de Libertação de Azawad (FLA) e dos jihadistas do Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos (JNIM). As investidas militares deixaram ao todo cerca de 23 mortes, inclusive o então ministro da Defesa, Sadio Camara, mas foram repelidas pelo exército do Mali, que conta com o apoio da Rússia.
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Os três líderes, contudo, conseguem se manter no poder com respaldo por conta de medidas populares, como a nacionalização de empresas e incentivos para a indústria. Os países guardam as suas peculiaridades, com Burkina Faso focando na maior pavimentação de ruas e estradas, o desenvolvimento da indústria de tecidos, o Níger com a diminuição do custo de itens básicos, como alimentos, e o Mali com a nacionalização do ouro.
Para Anne-Marie, líder do Movimento Revolucionário das Mulheres Pan-africanas (Morfepan), esse movimento coordenado gera uma mudança radical na região.
“Não dá para descrever o que acontecer no Níger como simplesmente uma troca de regime. É uma revolução”, afirma.
O domínio francês para além da independência dos países do Sahel
A França colonizou a região a partir de 1884-85, com a chamada Conferência de Berlim, quando as nações europeias se reuniram e partilharam o continente africano. Os países daquela região persistiram sob o domínio francês até 1960, quando Mali, Níger e Burkina Fasso conquistam a sua independência.
Após o fim do regime colonial, a França impôs uma relação de controle sobre suas antigas colônias, de modo a continuar a exploração do Sahel.
Um dos exemplos dessa relação é o CFA, a moeda de 15 países, inclusive das três nações da AES, e produzida na França. A moeda, criada em 1945 durante o período colonial, sempre esteve vinculada ao tesouro francês. No site oficial do governo francês, o país afirma que nenhuma nação é obrigada a permanecer nos acordos da moeda e que todos têm o livre arbítrio para deixar de usar o CFA. O país europeu ainda enaltece que o CFA garante maior estabilidade para as nações africanas que utilizam a moeda.
Para Kounharè Dabire, essa é uma maneira da França de controlar a impressão de moeda do país e, consequentemente, a economia da região.
“Isso é inadmissível. Se nós quisermos comprar qualquer coisa a nível internacional, isso vai ter que passar pela França”, afirmou.
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O interesse nos minérios desses países do Sahel é o que explica tais pressões francesas. Segundo dados do Centro de Pesquisa Geológica dos Estados Unidos (USGS), principal referência internacional sobre mineração, o Mali foi o décimo segundo maior produtor de ouro, com 70 toneladas. Burkina Fasso é o décimo terceiro, com 60 toneladas. A Associação Mundial de Energia Nuclear, por outro lado, descreve o Níger como o dono da nona maior reserva de urânio do mundo.
Luc Damiba, secretário geral do comitê de memória a Thomas Sankara e cineasta, acredita que o processo de colonização ainda não se encerrou completamente. Para ele, o país europeu tem o interesse de seguir controlando a vida das pessoas e os recursos naturais daquela região.
“Por muito tempo, por 60 anos, a França ditou o poder aqui. E o que eles fazem agora? Eles tentam a desestabilização permanente. É uma pressão muito forte do imperialismo que quer recuperar influência porque existem os recursos naturais, como urânio, petróleo, zinco, entre outros”, afirmou.
Com a chegada dos novos presidentes da AES, o governo nacionalizou todos os minerais. Empresas estrangeiras que atuavam na região, como a Orano — empresa francesa de capital misto que explorava urânio no Níger —, perdeu a sua concessão para seguir na retirada do minério nigerino.
“A França não tem minas de ouro, mas a França faz parte dos países do mundo com as maiores reservas de ouro. E isso vale para a água, para o urânio do Níger, que alimenta todas usinas nucleares do país”, denuncia Kounharè Dabire.

O combate ao terrorismo é um dos principais desafios da AES
A presença de organizações terroristas na região do Sahel era a justificativa oficial para o governo francês manter, desde 2014, bases militares na região.
Luc Damiba, secretário geral do comitê de memória a Thomas Sankara e cineasta, acredita que os grupos terroristas eram apenas uma justificativa para manter militares e o controle da região.
“O imperialismo colocou o terrorismo em primeiro plano para explorar os recursos naturais”, afirmou.
A saída dos militares franceses da região em 2023 gerou uma declaração pública do presidente francês Emmanuel Macron. Em janeiro de 2025, ele afirmou que houve “ingratidão” dos países africanos, que não disseram “obrigado” pela presença militar europeia na região.
Com a saída dos europeus, os países da AES adotaram o combate ao terrorismo como foco principal da atuação militar. Essa foi, inclusive, a primeira bandeira que aproximou os três países, que depois de desdobraram para outras áreas, inclusive a econômica.
Em Burkina Faso, uma das iniciativas foi a criação do Voluntários de Defesa da Pátria (VDP), um grupo de apoio aos militares na luta contra as organizações terroristas da região, sobretudo o Estado Islâmico.
Kounharè Dabire, Secretário-Geral da Coordenação Nacional das Associações de Vigilância Cidadã (CNAVC), explica como funciona a VDP e o objetivo da proposta.
“A gente não obriga ninguém a vir. A gente lançou um apelo para a mobilização de todo o mundo. Nós estamos engajados voluntariamente de apoiar os soldados a fim de vencer o terrorismo e recuperar nossos territórios”, conta.
Ibraim Traoré e o sentimento de vigilância popular
Entre os presidentes dos três países do Sahel, Ibraim Traoré se tornou o mais popular a nível global e o mais carismático para com a população local.
Traoré, forjado como liderança no movimento estudantil, se formou em geologia na Universidade de Ouagadougou, a principal de Burkina Fasso, em 2009. No ano seguinte, entrou no exército e participou do front na luta contra os terroristas, o que o legitima entre os militares do país.
Os cidadãos burkinabes organizam vigílias cidadãs para a proteção de Ibraim Traoré. A iniciativa tem o objetivo de garantir a vida e a integridade do atual chefe do poder executivo. O receio está fundamentado nas tentativas de golpe mal sucedidas contra o governo de Traoré em abril de 2025 e em janeiro de 2025, para além das justificativas históricas.
Na sociedade burkinabe existe a memória sobre o assassinato de Thomas Sankara, o líder da independência do país. Ele foi responsável por programas populares como a distribuição de terras e, até os dias de hoje, é um ícone anticolonial para os cidadãos do país e de outros países dessa região da África. Ele foi morto em 15 de outubro de 1987, com a suspeita de participação francesa no crime.
A maior popularidade de Traoré também se exprime com o maior sucesso em algumas iniciativas, como o Fundo Patriótico Revolucionário. Como ele, o governo burkinabe financia as transformações do país, desde infraestrutura até o enfrentamento ao terrorismo e a produção de roupas e alimentos. De janeiro a julho de 2025, o Fundo Patriótico Revolucionário arrecadou um valor equivalente a R$ 980 milhões.
Direitos da população LGBTQIA+ e participação política das mulheres
A assembleia de Burkina Faso aprovou, em setembro de 2025, uma medida contrária aos relacionamentos LGBTs. De acordo com a nova lei, pessoas que pratiquem “atos homossexuais” podem cumprir até cinco anos de prisão. A medida foi condenada por Ousmane Ali Diallo, do departamento da Amnistia Internacional para a África Ocidental e Central, que acredita no aumento da violência contra pessoas desse grupo.
Kounharè Dabire entende que o foco central hoje de Burkina Faso são os direitos coletivos e não os individuais. Mas ele concorda que o tema precisa ser mais debatido pela sociedade burkinabe.
“Eu não posso mentir. Não são direitos muito conhecidos em Burkina Faso e Níger, por exemplo. Não é algo que está em nossa cultura”, afirmou.
Em contrapartida à repressão a pessoas LGBTQIA+, há uma expectativa acerca do protagonismo feminino nos novos governos. Anne-Marie, líder do Movimento Revolucionário das Mulheres Pan-africanas (MORFEPAN), enfatiza a participação das mulheres nesse processo revolucionário.
“A história da luta anti-imperialista nos países da AES não pode ser contada sem o papel fundamental das mulheres. As mulheres do Sahel são atrizes centrais para a resistência e a dominação colonial”, afirmou.
Ela recorda que, durante a gestão de Thomas Sankara, as mulheres foram incentivadas a participar da construção do país por meio de cooperativas, dos movimentos camponeses e das estruturas comunitárias. “Não há socialismo sem as mulheres”, afirma.
Apesar do discurso, entre os 24 ministros do governo de Burkina Faso, apenas quatro são mulheres. Aminata Zerbo é a ministra da transição digital e das comunicações; Annick Pickbougoum é responsável pela pasta dos esportes; Fatoumata Bako é a ministra delegada da economia e das finanças; e Bebgnasgnan Kabré é responsável pelas relações internacionais.
Edição: Camila Rodrigues da Silva.