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PEC da 6×1: ativista recorda esgotamento em massa que levou trabalhadores à mobilização

Ex-coordenadora nacional do VAT, Priscila Santos Araújo relaciona a escala 6x1 à precarização do trabalho, ao racismo estrutural e ao adoecimento da classe trabalhadora
Trabalhadores em ônibus no Largo do Paissandu, em São Paulo, no dia 24 de janeiro de 2025.

Trabalhadores em ônibus no Largo do Paissandu, em São Paulo, no dia 24 de janeiro de 2025.

— Paulo Pinto/Agência Brasil

29 de maio de 2026

“A escravidão não acabou”. A frase é repetida por Priscila Santos Araújo, ex-coordenadora nacional do movimento Vida Além do Trabalho (VAT), ao descrever a realidade de trabalhadores submetidos à escala 6×1 no Brasil.  

O grupo foi responsável por difundir a ideia de acabar com a atual jornada de trabalho de 44 horas semanais, antes mesmo de o tema ser debatido no Congresso Nacional.

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Para a ex-coordenadora do VAT, o modelo de jornada, marcado por apenas um dia de descanso semanal, representa uma continuidade histórica da exploração da população trabalhadora, principalmente a negra e periférica.

Em entrevista à Alma Preta, ela explica que a luta pelo fim da escala 6×1 vai além da redução da jornada de trabalho e envolve debates sobre saúde mental, desigualdade racial, exploração da classe trabalhadora e direito ao descanso, ao lazer e à convivência familiar.

Priscila afirma que o VAT surgiu a partir do esgotamento coletivo de trabalhadores precarizados.  “Eu entrei no movimento porque cheguei no meu limite. Olhava ao meu redor e pensava: será que só eu não estou aguentando mais? A escala 6×1 faz as pessoas desistirem dos próprios sonhos e até de si mesmas”, relata.

Leia mais: Mesmo salário e 2 dias de folga: o que diz o texto do fim da 6×1 aprovado na Câmara 

Antes de assumir a coordenação nacional do VAT, Priscila trabalhou em empregos marcados pela alta rotatividade e sobrecarga, como em restaurante fast food, farmácia e telemarketing. 

“As pessoas não têm perspectiva de futuro. E quando você não consegue sonhar, quando não consegue descansar, conviver com a família ou imaginar uma vida diferente, matam o seu espírito antes mesmo do seu corpo”.

Na avaliação da ex-coordenadora, o debate sobre a escala 6×1 não pode ser separado das desigualdades raciais e de gênero presentes no mercado de trabalho brasileiro. 

Priscila destaca que mulheres negras e periféricas ocupam grande parte dos postos mais precarizados e sustentam famílias inteiras mesmo diante de jornadas exaustivas.

“Quando uma mulher entra no movimento, ela não luta só por ela. Ela luta pelos filhos, pela mãe, pelo companheiro, pela casa inteira. São as mulheres que sabem o que significa trabalhar, cuidar da família e ainda tentar sobreviver emocionalmente”, diz.

Priscila também critica a ideia de que trabalhadores brasileiros seriam “preguiçosos” por reivindicarem redução da jornada. Para ela, a narrativa é utilizada para naturalizar a exploração e enfraquecer reivindicações trabalhistas.

“A gente não está pedindo para parar de trabalhar. A gente está pedindo o direito de viver também. O trabalhador merece descansar, estudar, sair com os amigos, conhecer a própria cidade e ter tempo para existir além do serviço”, defende.

Leia mais:  Escala 6×1 e senzala: discursos políticos conectam dois séculos de exploração

Ato realizado em novembro contra a jornada de trabalho 6x1, na capital de São Paulo.
Ato contra a jornada de trabalho 6×1 em São Paulo, em novembro de 2024. (Créditos: Letycia Bond/Agência Brasil)

Criado inicialmente a partir das redes sociais, o movimento Vida Além do Trabalho (VAT) ampliou sua atuação para terminais de ônibus, bairros periféricos e portas de igrejas. Segundo Priscila, o crescimento do movimento ocorreu pela identificação direta entre trabalhadores que compartilham experiências semelhantes de exaustão e falta de tempo para viver.

“O movimento cresceu porque quem está falando agora é quem sente isso na pele. É o trabalhador precarizado falando da própria vida, e não alguém falando por ele”.

Além da defesa da PEC contra a escala 6×1 — aprovada na Câmara dos Deputados em 27 de maio —, o movimento também discute saúde mental, direito ao descanso, acesso ao lazer e convivência familiar. 

“A nossa luta é para reacender a vida nas pessoas. Fazer o trabalhador entender que ele merece mais do que sobreviver cansado até o próximo dia útil”.

Confira a entrevista completa:

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  • Verônica Serpa

    Formada em Jornalismo pela UNESP e caiçara do litoral norte de SP. Acredito na comunicação como forma de emancipação para populações tradicionais e marginalizadas. Apaixonada por fotografia, gastronomia e hip-hop.

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