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Na batina do padre tem dendê? Exú, Santo Antônio e as disputas da encruzilhada afro-atlântica

A aproximação entre Exú e Santo Antônio nasce menos de uma identidade compartilhada e mais das tentativas históricas de produzir inteligibilidade entre universos religiosos profundamente diferentes
A figura de Exú no Terreiro Aruanda, em São Paulo.

A figura de Exú no Terreiro Aruanda, em São Paulo.

— Divulgação/Tiago Torres

13 de junho de 2026

No dia 13 de junho, milhares de pessoas celebram Santo Antônio. Algumas pedem casamento, outras procuram proteção, trabalho ou abertura de caminhos. Em virtude do sincretismo ainda presente em muitos terreiros, a data também costuma mobilizar homenagens, não raramente associadas a Exú. Afinal, o que existe entre Exú e Santo  Antônio além da já conhecida narrativa sobre sincretismo? Ou ainda, que Santo Antônio é esse que muitos celebram nos terreiros? 

Talvez a pergunta esteja mal formulada. Ao longo do tempo, acostumamo-nos a  perguntar por que Exú foi associado a Santo Antônio. A questão, porém, pode ser outra. Talvez devêssemos perguntar: como é que Santo Antônio veio parar nos terreiros ao lado de Exú? Afinal, o santo celebrado no dia 13 de junho não circulou apenas pelas igrejas portuguesas. Antes de chegar aos terreiros brasileiros, Santo Antônio já havia percorrido  outras encruzilhadas do Atlântico. Já havia encontrado populações africanas que não apenas foram impactadas pelo catolicismo, mas o interpretaram a partir de suas próprias referências religiosas e culturais. 

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É nesse ponto que a história de Kimpa Vita e do antigo Reino do Congo se torna relevante. Não porque explique Exú, mas porque demonstra que muito antes dos debates brasileiros sobre sincretismo, já existiam africanos disputando os significados de figuras centrais do catolicismo. Assim, o Santo Antônio que atravessou o Atlântico não era  necessariamente o mesmo Santo Antônio imaginado pelos missionários que desembarcaram na África. Entre travessias, guerras, cativeiros e reencontros, o santo foi ganhando outros sotaques, outras identidades, outras cores e outros significados. É um fato: quando pisou nos terreiros, já não caminhava sozinho. 

No início do século XVIII, em meio às guerras que fragmentavam o Reino do  Congo, uma jovem chamada Beatriz Kimpa Vita afirmava ser tomada pela presença de Santo Antônio. Sua pregação reunia elementos do catolicismo e das tradições religiosas centro-africanas, ao mesmo tempo em que denunciava a violência, a corrupção política,  a deturpação das crenças tradicionais pelo cristianismo e o sofrimento vivido por sua gente. Ou seja, Kimpa Vita não estava simplesmente reproduzindo a fé ensinada pelos missionários europeus, estava disputando narrativas e recriando seus significados.

Talvez seja justamente aí que resida uma das maiores dificuldades para compreender a presença de Santo Antônio nos terreiros. Acostumamo-nos a pensar o sincretismo como uma espécie de equivalência automática, como se uma figura substituísse a outra em um grande jogo de correspondências religiosas. Mas os  (des)encontros culturais raramente acontecem dessa maneira. O que se aproxima não são necessariamente as entidades, mas os sentidos que determinadas comunidades atribuem a elas. 

Por isso, perguntar se Exú é Santo Antônio talvez seja menos produtivo do que perguntar qual Santo Antônio foi colocado ao lado de Exú. Afinal, a história nos apresenta mais de uma possibilidade. Existe o santo dos missionários, associado à expansão do cristianismo europeu. Mas existe também o Santo Antônio reivindicado por Kimpa Vita, apropriado por africanos para denunciar violências, enfrentar autoridades e reconstruir  uma comunidade dilacerada pelas guerras e pelo tráfico de pessoas escravizadas. 

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É com este segundo que a comparação se torna possível, pois ambos passaram a  esponder a questões semelhantes colocadas pela experiência afro-atlântica. Questões ligadas à sobrevivência, à mediação dos conflitos, à reconstrução dos vínculos  comunitários e ao enfrentamento de estruturas de poder que insistiam em negar a humanidade dos povos africanos e de seus descendentes. 

Há algo que não pode ser ignorado: reconhecer esses encontros não significa  ignorar seus conflitos. Se por um lado a história de Kimpa Vita nos ajuda a compreender  que Santo Antônio já havia sido reinterpretado por africanos muito antes de chegar ao  Brasil, por outro seria ingênuo supor que a presença de um santo nos terreiros não carregue problemas. 

Afinal, a imagem que ainda ocupa muitos dos terreiros continua sendo, em grande  medida, a representação de um santo católico europeu. Um homem branco, franciscano e  celibatário, cuja iconografia foi produzida dentro de uma tradição religiosa que participou  ativamente dos processos de colonização dos povos africanos e de seus descendentes. Se a história revela disputas pelos significados de Santo Antônio, ela também revela que os  campos de batalha permanecem abertos e exigem constantes processos de retomada  identitária. Até porque, essa crise também é estética. 

A questão se torna ainda mais complexa quando lembramos que Exú ocupa, nas  cosmologias africanas e afro-brasileiras, um lugar radicalmente distinto daquele reservado aos santos católicos. Exú rompe com a figura de castidade, renúncia ou disciplina monástica, reconstruindo o imaginário do povo de terreiro como aquele que  está próximo da realidade do mundo dos vivos.

A potência de Tranca-Ruas, por exemplo,  manifesta-se na habilidade de lidar com o impossível, no dinamismo e na velocidade com  que atende seu povo e na destreza de se comunicar com os mais diferentes seres que a ele  recorrem em súplica. A aproximação entre Exú e Santo Antônio, portanto, nunca ocorreu  sem ruídos. Ela nasce menos de uma identidade compartilhada e mais das tentativas históricas de produzir inteligibilidade entre universos religiosos profundamente diferentes. 

Talvez seja justamente aí que algumas leituras contemporâneas do sincretismo encontrem seus limites. Existe uma tendência a celebrar esses encontros como se fossem resultado de trocas culturais espontâneas, harmoniosas ou mutuamente enriquecedoras. Entretanto, para os povos africanos e seus descendentes, a história foi bem menos romântica. O encontro entre Exú e Santo Antônio não aconteceu em uma mesa de  negociação entre iguais. Ocorreu sob a violência da escravização, da perseguição  religiosa, da imposição de símbolos produzidos por uma ordem colonial e da necessidade  de se elaborar estratégias de sobrevivência diante do próprio inimigo em um culto  compulsório a uma divindade construída à imagem e semelhança de uma ordem que lhes era hostil. 

Contudo, reduzir Santo Antônio à condição de símbolo colonial também seria insuficiente. Afinal, o próprio santo tornou-se objeto de disputa entre os missionários  europeus e Kimpa Vita, não apenas por uma divergência teológica, mas por projetos de  mundo distintos. De um lado, um catolicismo comprometido com a expansão colonial e, de outro, uma releitura africana do santo, estrategicamente mobilizada para denunciar violências, questionar autoridades e reconstruir uma comunidade fragmentada pelas  guerras e pelo tráfico de pessoas escravizadas. 

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É precisamente nesse ponto que a aproximação com Exú se torna mais  nteressante, pois o Santo Antônio deixa de ser apenas uma figura de obediência à ordem para assumir contornos insurgentes diante de notória opressão. Em outras palavras, aquilo que se aproxima de Exú não é necessariamente o Santo Antônio dos missionários, mas um Santo Antônio que, embora ainda católico, se faz reinventado pelos africanos. 

Talvez por isso a relação entre Exú e Santo Antônio não possa ser compreendida  apenas como uma correspondência religiosa. O que se encontra na encruzilhada não são duas entidades equivalentes, mas duas tradições que, em momentos distintos da história,  foram convocadas a responder a um mesmo problema: como preservar a vida de um povo,  reconstruir laços comunitários e familiares, enfrentando estruturas de poder que insistiam  em negar a humanidade dos povos africanos e afro-diaspóricos. 

Se a batina do padre tem dendê, eu já não sei. Mas de uma coisa podemos  desconfiar: diante dos atributos que lhe foram historicamente atribuídos, Exú daria conta de ser Santo Antônio. Afinal, media conflitos, abre caminhos, confronta mentiras e  verdades, circula entre mundos, negocia impasses e enfrenta aquilo que insiste em  interromper o fluxo da vida. Já o santo casamenteiro parece incapaz de sustentar o mesmo  percurso. Até porque, não basta acompanhar a travessia, é preciso se reconhecer como  parte dela, do povo que a partir dela se reconstruiu. A rebeldia manifestada na criatividade  da sobrevivência daqueles que aprenderam a transformar os símbolos da dominação em instrumentos de luta é virtude somente aos que evocam na mesma cangira Santo Antônio de Batalha, Pombagira, Tranca Ruas e Marabô. Corre gira! 

Saravá!

A editoria Quilombo reúne textos opinativos. Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a visão da Alma Preta sobre quaisquer temas.

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  • Sacerdote e Pai-de-Santo de Umbanda do Terreiro Aruanda, em São Paulo. Mestre em Ciência da Religião pela (PUC-SP) e doutorando em Ciências pela USP (FFLCH). Pesquisa o sincretismo nas religiões de matrizes africanas, sobretudo as sequelas provocadas nos terreiros de Umbanda. É autor do livro "Sincretismo na Umbanda - pactos e impactos na identidade dos povos de terreiro". Apresenta o podcast “Atina pra Isso!”, onde promove um mergulho em saberes tradicionais de terreiros e cultura afro-brasileira.

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