O ex-banqueiro Daniel Vorcaro começou a ter problemas com a justiça brasileira antes da investigação das fraudes relacionadas ao Banco Master. Em 2014, ele chegou a ficar com o nome sujo no Serasa por conta de uma dívida de mais de R$ 1 milhão com um escritório de advocacia.
As empresas Multipar Empreendimentos e Participações, Cesto Incorporadora S.A e Eukaryota Participações S/A, geridas pela família Vorcaro não pagaram um escritório de advocacia depois de contratarem um serviço de consultoria para a construção de um prédio, o Golden Trip, em Belo Horizonte (MG). O processo decorrente do calote cita também Daniel Vorcaro e seu pai, Henrique Vorcaro.
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Daniel Vorcaro assumiu o controle do antigo Banco Máxima em 2018, rebatizando-o para Banco Master. A instituição e outras empresas do conglomerado foram liquidadas extrajudicialmente pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025.
O ex-banqueiro está preso e é o alvo principal da operação Compliance Zero, que investiga atos de corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa, entre outros crimes, com foco principal no Banco Master. Ele negocia um acordo de delação premiada com a PF (Polícia Federal) e a PGR (Procuradoria-Geral da República).
Vorcaro não cumpriu acordo com escritório de advocacia
Anos antes, em 2010, o grupo de empresas da família Vorcaro assinou um contrato com o escritório Guimarães & Vieira de Mello Advogados no valor de R$ 800 mil. O escritório aceitou diferentes prazos de pagamento e fez dois acordos judiciais para quitação das pendências. Sem sucesso, o valor da dívida cresceu de R$ 800 mil para o R$ 1,05 milhão por conta dos juros do não pagamento da dívida e da assinatura de um contrato adicional.
As empresas da família chegaram a renegociar a dívida e propuseram o pagamento em três parcelas. O escritório de advogados aceitou. Daniel Vorcaro pagou somente a primeira parcela, em novembro de 2014, de R$ 500 mil. Ele deixou de transferir as outras duas de R$ 360 mil cada, uma previsita para dezembro de 2014 e a outra para janeiro de 2015.
O escritório então pediu o bloqueio de bens de Daniel e Henrique Vorcaro e das companhias dos dois. A Justiça de Minas Gerais chegou a reter R$ 72 mil das contas bancárias dos envolvidos, quantia insuficiente para o pagamento de toda a dívida. A justiça em primeira e segunda instância, contudo, não autorizou o levantamento dos bens da família para um possível bloqueio.
Família Vorcaro chegou a pedir a anulação do processo
A resposta da família Vorcaro foi entrar com uma ação na justiça para pedir o cancelamento do contrato de prestação de serviço. A defesa de Vorcaro afirmou que os advogados contratados não realizaram o serviço de maneira apropriada, o que demandou a procura de outro escritório para finalizar o trabalho.
A família também disse que o escritório se aproveitou da situação de “fragilidade” financeira das empresas de Vorcaro para pressionar o pagamento da dívida e alegou que duas transferências foram feitas, uma de R$ 59 mil e outra de R$ 500 mil.
“A depender do cumprimento do GVM para com suas obrigações contratuais, o Empreendimento estaria hoje ainda em fase inicial. Ou seja, o descumprimento contratual por parte do GVM, que não executou quaisquer dos atos para os quais fora contratado, desencadeou inevitável descumprimento de vários contratos envolvidos com o Empreendimento, também por parte dos Autores, em decorrência da ausência de captação de fundos para o Empreendimento”, diz a defesa de Vorcaro.
De acordo com a família, os advogados contratados sabiam que deixar o nome de Daniel Vorcaro no Serasa dificultaria o acesso ao crédito e, então, a finalização do empreendimento imobiliário. Na visão de Vorcaro, os advogados agiram de má-fé.
A Serasa é uma empresa privada de análise e informações de crédito, que funciona como um banco de dados financeiro. Ela reúne informações sobre o histórico de pagamentos de consumidores e empresas, ajudando o mercado a avaliar o risco na concessão de empréstimos, financiamentos e cartões.
Em março de 2013, a Cesto Participações S.A, a empresa da família Vorcaro responsável pelo prédio, emitiu seis “cédulas de créditos imobiliários” no valor total de R$ 103 milhões, com o pagamento em 90 parcelas, com vencimento para maio de 2021. Para a finalização do empreendimento, era necessário que o nome de todas as pessoas e empresas envolvidas não tivessem qualquer dívida.
A defesa de Vorcaro alega que eles aceitaram o acordo para o pagamento da dívida porque estavam pressionados por conta dos investimentos feitos de R$ 103 milhões.
O nome de Vorcaro no Serasa também atrapalhou a criação de um fundo imobiliário para finalizar o empreendimento. Na época, as empresas da família dialogavam com a Caixa Econômica Federal para conseguir um aporte para o negócio.
Os advogados contratados se referiram ao gesto da família de Vorcaro como um “calote”
“E já que o objetivo dos agravados era perpetuar o ‘calote’ por eles perpetrado, não poderiam deixar de pedir uma liminar, naquela ação, buscando a suspensão da execução movida pelo Agravante”, diz o texto.
A justiça, em primeira e em segunda instância, não concordou com os argumentos apresentados pela família de Daniel Vorcaro, não anulou o acordo e destacou a experiência da família Vorcaro no mercado.
“Ademais, a alegação da existência de nulidade nos termos do acordo judicial, em razão da verificação de vício de coação, não pode ser acatada em sede liminar, já que os Agravantes são pessoas experimentadas no mundo dos negócios, lidando constantemente com as pressões financeiras decorrentes de suas atividades negociais, sendo improvável que tenham sido coagidos a celebrar o acordo judicial impugnado na presente demanda”, afirmou.
A documentação acessada pela Alma Preta e ICL Notícias não informa qual foi a conclusão da disputa judicial. Procurado por telefone e por e-mail, o escritório de advocacia GVM Advogados não respondeu ao pedido de comentário da reportagem. A assessoria de imprensa de Daniel Vorcaro também não se manifestou.