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Mesmo qualificadas, pessoas pretas ocupam menos cargos de gestão em escolas no Espírito Santo

Pesquisa de mestrado da Ufes revela que 100% dos coordenadores pretos em redes de ensino vinculadas à Superintendência Regional de Educação de Cariacica têm mestrado ou doutorado, mas ocupam apenas 18,2% das vagas; maioria dos brancos tem só especialização
Sala de aula vazia.

Sala de aula vazia.

— Reprodução/Unasplash

6 de abril de 2026

Um estudo da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) revela que profissionais negros enfrentam uma cobrança por qualificação superior à de brancos para ocupar cargos de coordenação pedagógica em unidades da rede estadual de ensino vinculadas à Superintendência Regional de Educação (SRE) de Cariacica, que abrange os municípios de Cariacica, Santa Leopoldina, Viana e Marechal Floriano.

Intitulada “Articulação da educação antirracista pela coordenação pedagógica em escolas da rede estadual de ensino do Espírito Santo”, a dissertação de mestrado foi desenvolvida pelo pesquisador Josimar Nunes, professor de geografia da rede estadual capixaba, sob orientação da professora Rosemeire Brito.

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Os dados mostram que 100% das pessoas coordenadoras pedagógicas autodeclaradas pretas, dentro do recorte espacial e institucional analisado, possuem títulos de mestrado ou doutorado. Já a maioria das pessoas coordenadoras brancas tem apenas especialização. 

Apesar da alta qualificação, pessoas pretas ocupam somente 18,2% das vagas de gestão, enquanto as pessoas brancas concentram 59,1% das funções.

Leia mais: Brancos são maioria entre mestres e doutores e concentram melhores salários, diz estudo

Segundo o autor do estudo, os dados indicam que o racismo atua como uma “barreira invisível” na ascensão profissional, independentemente do preparo técnico. 

“Tal cenário reforça as discussões sobre o racismo institucional, dificultando a ascensão de profissionais negras e negros a espaços de decisão e gestão, independentemente de seu preparo acadêmico”, destaca Nunes em nota da instituição universitária.

A pesquisa ressalta que a coordenação pedagógica é o “coração da escola”, sendo a principal articuladora dos processos formativos. “Ter profissionais comprometidos com o enfrentamento ao racismo é condição essencial para que a Educação das Relações Étnico-Raciais se efetive na prática”, afirma.

Entre junho e agosto de 2025, período da pesquisa de campo, a regional de Cariacica era responsável por 27 unidades da rede estadual e mais de 13 mil matrículas.

Negacionismo interno e crítica à gestão

O estudo aponta ainda que o avanço da pauta antirracista esbarra em um tipo de “negacionismo” interno. Quase um terço das pessoas participantes (27,3%) da pesquisa não acredita que o racismo contribua para a evasão escolar, e 18,1% afirmam que não existe racismo no currículo ou nas práticas pedagógicas de suas unidades.

O pesquisador critica o modelo de gestão orientado por metas administrativas e demandas burocráticas, que reduz o tempo destinado à formação pedagógica e ao debate de temas sociais urgentes. 

“As escolas são submetidas a um cotidiano de trabalho exaustivo, na medida em que a maioria das demandas chegam revestidas de caráter emergencial”, afirma Nunes.

Ele defende que o Estado vá além da formalidade legal e garanta condições concretas para implementação da educação antirracista, com orçamento próprio e equipes especializadas.

Como desdobramento da investigação, Nunes elaborou o produto educacional “Coordenação pedagógica e educação antirracista: subsídios formativos para a implementação da Lei 10.639/2003“. 

O material, estruturado em cerca de 220 slides, é voltado à formação de equipes técnico-pedagógicas e ao diálogo com mães, pais e responsáveis.

Organizado em três blocos, o material inclui orientações sobre como abordar o racismo em reuniões escolares e informações sobre os aspectos legais relacionados a crimes raciais.

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  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

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