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Em troca de favores, polícia do Pará faz escolta de shopping centers

Centros comerciais visitados pela Alma Preta tinham batalhões da polícia dentro dos estabelecimentos e escolta constante; Secretaria de Segurança e polícia militar não se posicionaram sobre o fato
Imagem mostra viaturas da Polícia do Pará em frente a shopping de Belém

Foto: Pedro Borges/Alma Preta

14 de novembro de 2023

O Shopping Castanheira, localizado na rodovia BR 316, região de Castanheira, em Belém (PA), tem logo na entrada da unidade o anúncio do 27º Batalhão da Polícia Militar. Na parte interna do shopping é onde estão os policiais, prontos para serem acionados por rádio para cumprirem seus serviços. Na parte externa, há vagas com os nomes escritos do comandante, sub-comandante e comandante de companhia da corporação, com lugar exclusivo para estacionarem.

A situação do Shopping Castanheira se repete em outros estabelecimentos comerciais de Belém, onde há uma presença ostensiva da Polícia Militar no entorno das unidades. No Shopping Metrópole, o Comando de Policiamento da Região Metropolitana fica dentro do centro comercial, com viaturas da polícia estacionadas em frente às unidades, como uma forma de ronda privada. 

Os policiais ouvidos pela Alma Preta  relatam incômodo com o desempenho da função, por entenderem que a prática é um desvio da atividade policial, que deve servir ao interesse público. Apesar disso, os policiais pouco podem fazer diante das ordens dos oficiais.

Os agentes de segurança pública nas ruas têm por obrigação tirar fotos e enviar registros para os superiores hierárquicos, como forma de provar que mantiveram o posto. Aqueles que saírem do local ou forem vistos em outro espaço, mesmo diante de uma ocorrência, são penalizados sob acusação de “abandono de posto”. Mesmo diante de um crime, o comando diz que eles precisam acionar outras viaturas.

Os policiais acreditam que essa é uma tática do governador do Pará, Helder Barbalho (MDB), de distribuir viaturas pela cidade, em locais de grande circulação para gerar sensação de segurança. Essa estratégia é privilegiada ao invés de garantir a escolta das pessoas, com agentes distribuídos por locais onde há maior incidência de crimes, segundo policiais ouvidos.

“É um constrangimento geral, porque primeiro a população pensa que é o soldado, cabo, sargento, subtenente, os praças, que está ganhando alguma coisa de fato”, contou um agente de segurança para a reportagem.

O It Center, shopping localizado na região do Telegra de Belém, é um desfile de viaturas da Polícia Militar, acompanhado de mais um batalhão da corporação, também dentro das dependências do Shopping. Conforme a reportagem apurou, é no local onde os policiais inclusive trocam de turno, quando uma equipe assume o posto deixado pela outra.

Viaturas da Polícia Militar do Pará em estacionamento de shopping. Foto: Pedro Borges/Alma Preta

No Boulevard Shopping não é diferente. Mesmo que de maneira mais discreta, a equipe de reportagem localizou, mais de uma vez ao longo do dia, a presença de uma viatura de polícia estacionada na frente do centro comercial. 

Em outro local, a polícia cumpre um papel duplicado. Há sempre uma viatura da polícia estacionada em frente ao Shopping Grão Pará e ao lado de um condomínio de luxo onde moram celebridades do estado, como Jader Barbalho, senador e pai do governador Helder Barbalho, Coronel Dilson Júnior, Comandante Geral da PM, ex-deputado federal Wladimir Costa, outros oficiais do primeiro escalão da corporação, e mesmo celebridades, caso do cantor Chimbinha.

Estacionados ali, os policiais cumprem a tarefa de proteger o Shopping e parte dos moradores mais ricos da capital paraense. Antes, a viatura ficava em frente ao condomínio, mas os policiais relatam que isso gerou certo constrangimento para a tropa, que apenas deslocou o carro para uma posição diagonal, mais disfarçada.

A corporação também ganha em troca. Na unidade do Shopping Metrópole, os policiais não pagam ticket para o estacionamento do veículo, enquanto os demais clientes precisam pagar uma taxa depois de 15 minutos dentro da unidade. No Shopping Metrópole, os policiais recebem pizza à noite de uma das lojas, como forma de agradar a tropa. No Shopping Grão Pará, os policiais também também têm a possibilidade de almoçar de maneira gratuita.

No Shopping Metrópole, o Comando de Policiamento da Região Metropolitana fica dentro do centro comercial. Foto: Pedro Borges/Alma Preta

Questionada sobre as relações entre o estado do Pará e os shoppings centers, a Secretaria de Estado de Segurança Pública e Defesa Social (SEGUP) não se manifestou até a publicação desta reportagem. Em nota, a Polícia Militar do Pará alegou que a denúncia de escolta em shopping centers de Belém não procede.

“A PM esclarece que nos estabelecimentos mencionados, as unidades militares foram implantadas legalmente, por meio de contratos de comodatos, e que os locais foram escolhidos estrategicamente após estudo técnico. As viaturas têm total liberdade para atender ocorrências nas proximidades dos pontos-base, o que vem contribuindo para a redução de crimes violentos no estado. O Comando Geral da PM/PA ressalta ainda que esta parceria com os estabelecimentos comerciais reduzem os custos para o Estado do Pará, como: aluguel, energia e água, entre outros compromissos de manutenção dos prédios”, diz o comunicado enviado à reportagem.

  • Pedro Borges

    Pedro Borges é cofundador, editor-chefe da Alma Preta. Formado pela UNESP, Pedro Borges compôs a equipe do Profissão Repórter e é co-autor do livro "AI-5 50 ANOS - Ainda não terminou de acabar", vencedor do Prêmio Jabuti em 2020 na categoria Artes.

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