Nesta sexta-feira (25), a 10ª Marcha das Mulheres Negras de São Paulo ocupou as ruas do centro para reivindicar os direitos da população feminina racializada. Com o tema “Mulheres Negras em Marcha por Reparação e Bem Viver e contra as violências do Estado”, o ato teve concentração às 17h na Praça da República, onde a caminhada seguiu até o Theatro Municipal.
Outras marchas também já estão confirmadas em 18 cidades brasileiras. Neste ano, os atos integram a 13ª edição do Julho das Pretas e mobilizam rumo a 2ª Marcha Nacional de Mulheres Negras, que acontecerá em 25 de novembro, em Brasília, e pretende reunir 1 milhão de pessoas. Além da busca por reparação histórica, e pelo Bem Viver, as reivindicações da manifestação pacífica também incluem uma reforma tributária justa e o fim da jornada de trabalho 6×1, tema que tem ganhado relevância no debate político nacional.
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“A escala 6×1, por exemplo, é algo totalmente contra qualquer bem viver, nos tira o direito ao ócio, ao lazer, ao direito de ficarmos com as nossas famílias (…) só a organização política será capaz de criar outros cenários para que a gente tenha dignidade e acesso a direitos”, afirmou a jornalista Juliana Gonçalves, uma das organizadoras da marcha, em entrevista à Alma Preta.
O acolhimento às mulheres negras e o racismo religioso também foi pautado na concentração do ato. Regina Lúcia Santos, coordenadora de formação do Movimento Negro Unificado (MNU), ressaltou que o Estado brasileiro deve reparação à população negra.
“Fomos nós que construímos esse país. Esse país deve cultura, afeto e até conformação familiar, o Estado deve à população negra, à mulher negra em especial”, disse a militante.
À Alma Preta, a mãe de santo Iyàanilaari Elisangela D’Onira, integrante do Oloyas de São Paulo, reforçou a importância de representar as mulheres de terreiro, e as famílias de Axé na manifestação. “Estamos presentes para fortalecer esse movimento. Movimento esse que valoriza a vida do negro e de toda uma população”, declarou.
“Mesmo longe, a gente sente na pele o que está se passando“
“Enquanto a população negra não se unir, continuaremos sendo massacrados, continuaremos sendo dizimados, enfraquecidos e a nossa história apagada. A nossa história não resume-se apenas ao 20 de novembro. Nossa história é construída dia após dia, nas periferias, nas escolas, num toque de terreiro, num toque de candomblé, de umbanda. Onde houver uma mulher negra e um filho de uma mulher negra, todos nós estaremos juntos”, afirmou a liderança religiosa.
A República Democrática do Congo vive um conflito há cerca de 30 anos com diferentes grupos armados, alguns sob suspeita de apoio de Ruanda. A Guerra já vitimou 10 milhões de pessoas, mas apesar disso, o conflito, localizado do leste africano, está distante dos holofotes da imprensa ocidental.

Lutando pelo direito do Bem Viver à população congolesa, a jornalista Claudine Shindany, do coletivo A Voz do Congo, denunciou a exploração da riqueza mineral no país africano. O Congo possui reservas de ouro, diamantes e 70% das reservas mundiais de cobalto, utilizadas na fabricação de veículos elétricos, além de outros minerais essenciais para a transição energética.
“Por que existe um conflito que tem que alimentar pessoas matando outros só para tirar o benefício que é essa riqueza que alimenta o mundo, os grandes?”, questionou em entrevista. “Então, a gente não pode calar. Impossível eu calar.”
A ativista de direitos humanos também denunciou o impacto do conflito entre as mulheres congolesas. “Elas sofrem feminicídio, elas sofrem violência doméstica, elas sofrem violência no trabalho, trabalho análogo escravo, tudo isso. Elas sofrem vários tipos de injustiça. Estou falando aqui como uma mãe, uma congolesa. Mesmo longe, a gente sente na pele o que está se passando nos nossos países”, compartilhou Claudine.
“Eu como mãe, como mulher, estou no centro praticamente dessa violência, desses massacres no meu país. São vidas que se foram. Pessoas morrendo embaixo da riqueza do minério que não está nem beneficiando os povos congoleses”, declarou.