A violência policial contra pessoas negras é um ponto em comum das sociedades brasileiras e norte-americanas. E foi sobre esse assunto que conversamos com o professor, podcaster e ativista norte-americano Chenjerai Kumanyika, que participou do 9º Festival piauí de Jornalismo.
Kumanyika é autor do podcast “Empire City — a história não contada da origem da polícia de Nova York”, que apresenta uma pesquisa sobre as origens racistas da polícia dos Estados Unidos. O projeto é do site Crooked Media, da Wondery e da PushBlack e tem mais de um milhão de downloads.
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Já no primeiro episódio, ele conta a história de Tobias Boudinot e do “Clube do Sequestro”, uma gangue de policiais que sequestrava negros livres e emancipados e os vendia como escravos nas décadas anteriores à Guerra Civil.
Em sua apresentação no domingo (7), ele disse que cresceu ouvindo as histórias sobre a prisão de seu pai. Makaza Kumanyika, líder do movimento negro que lutou por direitos civis nos EUA, foi detido por policiais do Departamento de Polícia de Nova York (NYPD) em 1964. A prisão ocorreu depois que ele tentou efetuar a prisão civil do prefeito Robert F. Wagner por alocar dinheiro público em projetos que permitiam discriminação racial.
Um dia antes, ele conversou com a Alma Preta sobre como os métodos de apuração e abordagem que usou em seu podcast podem ser aplicados no jornalismo brasileiro.
Kumanyika, que é professor de jornalismo na Universidade de Nova York, defende que a compreensão histórica é fundamental para analisar a violência policial contemporânea, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil.
A importância de saber a origem dos fatos
Em entrevista, ele argumenta que a polícia frequentemente se apresenta como uma instituição de segurança pública, mas suas origens estão ligadas à opressão racial.
“Algumas pessoas não têm paciência para a história. Mas pense no campo médico, por exemplo. Mesmo se você tem um problema urgente. Você vai ao médico e diz ‘estou doente, preciso de uma solução agora’. Mas o que o médico pergunta? ‘Qual é o seu histórico?’ Você não pode imaginar uma intervenção médica sem história”, compara Kumanyika
Nesse sentido, sua investigação para o “Empire City” descreve como, antes da criação formal do Departamento de Polícia de Nova York em 1841, homens brancos exerciam funções policiais informais como “patrulhas de escravos”.
“Em 1826, a polícia era uma categoria frágil. Não eram funcionários em tempo integral, não tinham uniformes. Ninguém nos EUA queria policial. Um desses homens, Tobias Boudinot, tinha o poder de prender pessoas e essencialmente capturava negros livres para enviá-los à escravidão no sul”, detalhou. Era como se fosse um bico, um dinheiro extra para esses policiais.
Mas, mesmo com a formalização do NYPD, essa função não desapareceu.
Kumanyika encontrou reportagens de jornal da época que expressavam surpresa ao constatar que a nova polícia havia se tornado uma “patrulha de escravos”. A razão, explica, era econômica:
“Nova York era o centro de Wall Street [a maior bolsa de valores do país]. Todo o seu negócio estava em conluio com os senhores de escravos do sul dos EUA. O prefeito queria mostrar solidariedade a seus parceiros comerciais”, relata.
Metodologia
Ele explicou que combina a leitura de trabalhos acadêmicos críticos — ele cita os historiadores como Khalil Muhammad, Sally Hadden e Heather Thompson — com a pesquisa em documentos primários, como jornais abolicionistas negros do século XIX.
O podcaster citou o jornal “O Mirador da Liberdade”, de David Ruggles, que denunciava os patrulheiros como um “clube de assaltantes”.
Sua metodologia é clara: contextualizar-se primeiro com a historiografia crítica e depois ir aos arquivos para encontrar evidências empíricas que sustentem—ou contradigam—as narrativas oficiais.
“Do jeito que fazemos isso, vamos usar até os documentos dos poderosos. Eles estavam tentando contar a história da sua maneira, mas nós podemos condená-los com suas próprias palavras”, argumenta Kumanyika.
Abordagem crítica e metódica no jornalismo
Para encontrar essas “histórias contra-hegemônicas”, Kumanyika recomenda a todo jornalista uma abordagem crítica e metódica.
“Ouça a conversa que você está entrando em primeiro lugar. Leia grandes trabalhos críticos da história que lhe interessam. Depois, gaste tempo nos arquivos… Pense sobre os silêncios do arquivo. Quem não está sendo ouvido?”, orienta.
Ele enfatiza que essas narrativas não são meras “perspectivas” alternativas, mas sim a história real e factual.
“Quando o ‘Projeto 1619’ [uma investigação do jornal The New York Times sobre escravidão nos EUA] saiu, era uma história melhor da América. A ‘Empire City’ é uma história melhor de Nova York. Tem mais evidências empíricas. Quando as pessoas tentam discutir, eu digo: ‘Não discuta comigo, discuta com o arquivo'”.
Sobre o Brasil, onde pessoas negras são maioria mas tratadas como minoria, Kumanyika vê uma tarefa jornalística similar.
Mas ele pondera que é importante recuperar tanto os fatos da opressão quanto as histórias de resistência e sobrevivência. “Sobrevivência inclui alegria, inclui cultura, inclui música, inclui comida… A história ajuda a entender a verdadeira natureza da besta contra a qual se luta”, recomenda.
Kumanyika finaliza destacando a importância dessa recuperação histórica em tempos de avanço do fascismo. “Se você pensa que está lutando contra um pássaro, mas na verdade está lutando contra um urso, você não estará pronto para a batalha. Nós temos que conhecer o urso que estamos enfrentando, e a história realmente nos ajuda a fazer isso”.