Na maior cidade da América Latina, as oportunidades de trabalho atraem pessoas do Brasil inteiro. No entanto, na mesma São Paulo, são mais escassas e de difícil acesso oportunidades que promovem uma transformação paradigmática na trajetória de indivíduos, famílias e comunidades, oferecendo novas perspectivas de futuro.
O ingresso no ensino superior é uma dessas oportunidades que possibilitam mudanças sociais. Seja na ascensão social pela renda, seja na capacidade crítica que o ambiente universitário proporciona. O acesso à universidade, porém, passa por demarcadores sociais que com frequência se colocam entre sonho e realização.
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Partindo dessa realidade e da percepção de que para mudá-la é necessário um coletivo, de diversos setores da sociedade, em 2022, Nike e Somos CIEE uniram forças para criar um programa que se somaria a outras iniciativas e políticas públicas cujo objetivo é tornar mais democrártico o ingresso no ensino superior. Entre os contemplados pelo programa estão jovens de todas as regiões da capital paulista, além de cidades da Região Metropolitana e do interior.
O programa de bolsas de estudo 100% integrais para o ensino superior, voltado para jovens negros e negras, com bolsa auxílio e apoio psicossocial e profissional, garante não só o ingresso, mas também a permanência e a regularidade desses jovens nos cursos escolhidos.
Quatro anos depois, com a primeira turma já formada e com muitos jovens já alocados e efetivados no mercado de trabalho, o programa olha para o futuro com a certeza da transformação que provocou na vida dos bolsistas, de suas famílias e de suas comunidades.
Caminhos transformados
“Por mais que eu fosse sonhadora, a gente fica sempre com aquela pontinha que fica assim: será que eu consigo? Será que eu sou capaz? Está bem, consegui a bolsa, mas será que consigo ficar até o final?”, questiona Ana Beatriz Fittipaldi, repetindo algumas perguntas que se fazia no início da graduação.
Formada em Sistemas de Informação com uma bolsa do programa da Nike e Somos CIEE, a jovem moradora de Guaianases, na zona leste de São Paulo, não só se percebeu capaz, como chegou até o final e construiu um caminho repleto de conquistas ao longo dos últimos quatro anos.
Efetivada na multinacional onde começou a estagiar durante a graduação, Ana Beatriz já tem seu apartamento próprio, vislumbra crescimento na empresa em que trabalha e se entende como um ponto de referência para os dois irmãos mais novos. Nela, eles veem a personificação de como a educação é transformadora na trajetória de pessoas vulnerabilizadas por uma estrutura social desigual e racista como a brasileira.
“Não trocaria as experiências que vivi nesse programa por qualquer outra coisa. É algo único. Não trocaria isso por nada”, afirma Fittipaldi, que enfrentou os desafios de cursar uma graduação majoritariamente branca e masculina para, no final, ser uma das representantes da turma de bolsistas na cerimônia de formatura.

Colega de profissão de Ana Beatriz, Reginaldo Tobias de Oliveira também considera transformadoras as experiências proporcionadas pelo programa. Natural de Sorocaba, deslocou-se para São Paulo em busca de uma oportunidade no mercado de trabalho. Foi em uma vaga como jovem aprendiz pelo CIEE que ele ficou sabendo do programa de bolsas de estudo e viu ali a oportunidade que tanto esperava.
Passados os desafios de se adaptar a uma metrópole complexa ao mesmo tempo em que se ambientava e lidava com os desafios de uma graduação, hoje ele vê o programa como um grande incentivador do próprio amadurecimento e como uma forma de reiterar a crença de que é possível desconstruir as estruturas de desigualdade da sociedade brasileira, por mais sólidas que sejam.
“Não tem como voltar, é só uma reta, você segue em frente e não volta para trás. Eu não sei como seria a minha vida sem essa oportunidade. Eu não sei o que seria de mim, se teria essa mesma força que tenho para bater no peito e dizer ‘bora, bora para frente’”, diz Oliveira, logo após a cerimônia de formatura, destacando que vê no ensino superior uma forma potente de construir caminhos e abrir portas.

Portas abertas… que permanecem abertas
Abrir portas e deixá-las abertas para quem vem depois. Essa é uma das certezas e das principais motivações de Luiz Gustavo de Oliveira Diniz, que, ao lado de Ana Beatriz e Reginaldo, integrou a primeira turma do programa. Nascido e criado no Capão Redondo, zona sul de São Paulo, Luiz Gustavo viu no curso de administração uma forma de unir uma profissão atrativa com uma de suas maiores paixões: o esporte.
Diniz é cria da ONG Vida Corrida, que fomenta e ressalta a importância da prática esportiva para crianças e adolescentes do bairro. Foi por meio do projeto que ele tomou conhecimento do edital de bolsas de estudos. Se a ONG lhe proporcionou a oportunidade de ter acesso a um edital de bolsas para faculdade, a faculdade, por sua vez, forneceu o amadurecimento necessário para que ele tivesse uma nova leitura da realidade que o cercava e da desigualdade que divide São Paulo em “dois lados da ponte”.
“Quando eu percebi o projeto grande de que eu estava fazendo parte, coloquei na cabeça que precisava aproveitar essa oportunidade do começo ao fim. A partir daquele momento tudo mudou na minha vida, tudo mudou muito”, relata, enquanto relembra, animado, um dos primeiros eventos promovidos pela Nike e pela Somos CIEE, que contou com a presença da medalhista olímpica e apoiadora do programa, Fernanda Garay.
Estar na presença de Garay naquele momento, e em alguns outros ao longo dos últimos quatro anos, motivou Luiz Gustavo a pensar na construção de um caminho no qual não só ele, mas também outros jovens, negros e periféricos pudessem caminhar. Atravessar a ponte sozinho não era uma opção.
Hoje ele é o integrante mais jovem do conselho do Projeto Vida Corrida, ONG do Capão Redondo que incentiva a prática esportiva das crianças do bairro. Foi nesse mesmo projeto que Luiz começou a correr, ainda na infância, e onde se apaixonou pelo atletismo, em especial a corrida. Para os outros jovens com quem ele tem contato na ONG, ele sempre reforça a importância de fazer do próprio caminho uma possibilidade coletiva.
“Um amigo meu, o Luiz Otávio, estava em um lugar um pouco difícil em questão de trabalho. E eu sempre conversava com ele que as coisas iam mudar, que aquele momento ia passar e que a nossa oportunidade ia chegar. Teve um momento em que apareceu uma oportunidade na bolsa da Nike e do CIEE e eu falei: ‘Otávio, chegou a sua oportunidade’, conta Luiz Gustavo, que agora vê o amigo seguindo pelo mesmo caminho que ele começou a trilhar há quatro anos.
“Ele se inscreveu, conseguiu a bolsa e agora ele está vivendo o que eu vivo, está indo para eventos que eu vou, está frequentando lugares que eu frequento. Tudo o que eu vivi nesses quatro anos, ele está começando”, celebra.

Um futuro pautado em referência
Luiz Otávio é um dos bolsistas da segunda turma do programa, cujo processo foi realizado em 2023. O prosseguimento do projeto reafirma o compromisso das marcas com a promoção da diversidade, equidade e inclusão social no ensino superior e demarca a importância da educação na mudança do estado das coisas.
Para Maria Nilce Mota, superintendente executiva da Somos CIEE, para além da transformação da realidade financeira desses jovens e de suas famílias, o acesso ao ensino superior também reforça uma nova forma de posicioná-los no mundo e na realidade que os cerca, podendo assim atuar como potenciais agentes de transformação.
“Um jovem que passa a ter o conhecimento, o acesso, ele impacta não só a própria condição, o próprio crescimento pessoal, mas também afeta a comunidade, à medida que ele passa a ser mais crítico. Ele passa a interagir e levar conhecimento para o seu entorno”, ressalta.
Para Bruno Teixeira, gerente executivo de Propósito da Fisia, distribuidora da Nike no Brasil, mais do que um ponto de partida, a primeira turma é uma sólida base para o futuro do programa, justamente por seu potencial, que ressalta um ideal de unidade por meio da coletividade.
“A gente reconhece que foi formado um time e esse grupo está abrindo portas para as novas gerações, inspirando novos jovens a trilharem caminhos semelhantes aos deles”, ressalta.
Teixeira reforça como o sucesso da iniciativa também se dá pela capacidade dos jovens selecionados de persistirem nos seus sonhos e na vontade de mudar a própria realidade e a do seu entorno.
“Eles são os protagonistas de cada trajetória. O que a gente com a Somos CIEE está fazendo é potencializar o talento de cada um deles e garantir o mínimo de oportunidade para que cada um possa trilhar seus caminhos”, afirma.
Para Reginaldo, o caminho agora é a busca por uma pós-graduação. Para Ana Beatriz, o caminho é a busca da realização de um sonho: conhecer a aurora boreal. Para Luiz Gustavo, impactar a vida de outros jovens como a dele foi impactada é um caminho incontornável.
Assim como eles, todos os dezoito formandos da primeira turma do programa experimentaram na prática os desafios e as transformações que a educação pode proporcionar. Dessa experiência saem todos mais maduros, mais conscientes e ainda mais potentes. Uma potência que é coletiva, que parte desses jovens para suas famílias e suas comunidades. Reside, afinal, na juventude negra e periférica algumas das grandes forças para a transformação da sociedade brasileira.
A trajetória de alguns desses jovens, seus sonhos e anseios, assim como os desafios enfrentados durante o período da graduação, são relatados em minidocumentário produzido pela equipe da Alma Preta Jornalismo, com apoio da Nike e da Somos CIEE.