“Mãe, pegaram o Rosimilck”.
Foi essa frase que a professora Michele Espírito Santo Maciel ouviu de sua filha mais velha, no dia 7 de novembro de 2024, por volta das 19h30.
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Era o início de uma noite que terminaria na morte do filho, o jovem negro Rosimilck Rick Maciel Amorim, de 22 anos. Ele foi assassinado a tiros em uma operação policial comandada pelo delegado Marcelo Henrique Carvalho Cunha, em Oeiras do Pará, nordeste do estado.
Michele lembra que Rosimilck – ou Keko, como era carinhosamente chamado pelos familiares e amigos – já tinha visitado a casa da mãe naquela mesma noite, antes do ocorrido.
“Ele já tinha ido daqui. Foi tudo muito rápido. A minha filha estava sentada próxima de mim, resolvendo questões de trabalho pelo celular, no pequeno comércio que a gente tem, quando alguém avisou ela: ‘Pegaram o Keko, pegaram o Rosimilck'”, conta.
Sem entender muito bem o que estava acontecendo, mas já aflita, Michele chamou seu outro filho e foi de motocicleta até a casa de Rosimilck, distante cerca de 5 minutos de moto.
No local, do lado de fora, encontrou o companheiro, padrasto do jovem, sendo contido por policiais. Segundo Michele, ele era tratado com violência e humilhação pelos agentes.
O padrasto trabalhava próximo ao local e chegou à casa de Rosimilck antes de Michele, mas foi impedido de entrar na residência do enteado pelos policiais.
Como mãe, Michele insistiu em entrar na casa e até conseguiu acessar a varanda, mas foi impedida de acessar o interior do local sob violência. Ela foi empurrada com agressividade por pelo menos dois policiais homens e afastada da entrada da residência.
A cena foi registrada por câmeras de segurança e a Alma Preta teve acesso às imagens.

Ela ainda não sabia, mas um dos policiais que a empurrou, encapuzado, tinha sido o autor dos disparos que mataram o seu filho, o investigador da Polícia Civil Alysson Viana Guedes. “Ele gritava comigo, com muita ignorância”, relembra.

Sem acesso ao interior da residência, ela relatou que passou a ser mantida sob ameaça: uma policial mulher apontava uma arma em sua direção. “Ela falava comigo com a arma apontada, como se eu fosse uma pessoa perigosíssima”, diz.
O clima ficou ainda mais tenso quando a filha de Michele mencionou a existência de câmeras de segurança no local. Um dos agentes, posteriormente identificado como o delegado Marcello Henrique Carvalho Cunha, ouviu e tomou o celular da jovem à força, segundo o relato.
Enquanto isso, o padrasto de Rosimilck, que também teve o celular apreendido, era contido do lado de fora da casa. Michele afirma que ele chegou a ser algemado e deixado sentado em frente à residência.
Do lado de dentro, a situação já havia se encerrado de forma trágica.
Minutos depois, os agentes saíram da casa com dois homens algemados. Michele, em desespero, perguntava repetidamente: “Cadê o Rosimilck?”.
A resposta veio quando o corpo do jovem foi trazido para a área externa da casa dentro de uma rede. “Na hora que eu vi, eu já sabia”, conta, emocionada.
“Durante todo esse tempo, a gente lá, querendo ver o Rosimilck, sem saber que ele já estava morto dentro da casa. Você já pensou uma situação dessa?”.
Michele conta que evita falar sobre o assunto, mas topou ser entrevistada para chamar atenção para o caso. “Só de falar nisso, minha cabeça já dói. É uma coisa que eu não gosto nem de tocar no assunto. Meu filho era um rapaz bonito, saudável. De repente, ver um filho assim… Eu entrei em desespero, gritava naquela rua”.

Família contesta versão apresentada pela polícia do Pará
Rosimilck foi morto a tiros na operação policial. De acordo com o depoimento do investigador Alysson Guedes, autor dos disparos, a equipe teria reagido a uma “situação de risco”, depois de a vítima ter, supostamente, atirado na direção da equipe policial.
A operação, liderada pelo delegado Marcello Cunha, foi motivada por uma suposta denúncia anônima de que Rosimilck estaria “guardando drogas e armas de fogo” a mando de uma organização criminosa. A casa foi invadida pela equipe policial sem autorização do Judiciário.
Diferentemente da versão policial, imagens de câmeras de segurança mostram o policial Alysson, com apoio de pelo menos outros dois agentes, levando o jovem para dentro do quarto onde foi morto sob um golpe conhecido como “mata-leão”, completamente imobilizado e sem possibilidade de reação.
Segundo a família, parte dos equipamentos de vigilância da casa de Rosimilck foi danificada ou retirada, mas o HD foi preservado e mantido fora do município. As imagens foram recuperadas posteriormente por advogados, mas Michele nunca teve coragem de assistir a elas.
“Eu nunca vi essas imagens, não tive psicológico, mas foi aí que a gente começou a entender que ele não reagiu coisa nenhuma. Disseram que meu filho trocou tiro. Mas ele nem falou nada”.

Mãe afirma que não teve acesso ao filho no hospital
Na mesma noite, Michele lembra que o corpo do filho chegou a ser levado para o hospital pelos policiais: “Ele já foi levado morto”, afirma.
No hospital, ela conta que os familiares foram impedidos de entrar na unidade. Sem acesso ao filho, sem informações concretas e ainda sob o impacto do que havia acabado de presenciar, a família ficou mais uma vez do lado de fora, sem respostas.
Aquela noite, segundo ela, foi marcada não apenas pela perda do filho amado, mas também por humilhação, violência, violações e ausência de explicações.
Além disso, a professora relata que teve casas da família revistadas e bens apreendidos, como televisores, caixas de som e videogames, alguns deles, segundo Michele, não devolvidos até hoje.
“Levaram uma caixa de som, que está até hoje na delegacia, mesmo a gente tendo nota fiscal. Na casa do meu filho também levaram televisão, caixa de som e vídeo game. Eu me pergunto: qual o intuito disso?”.
Operação policial em Oeiras do Pará é marcada por questionamentos
Um outro aspecto sensível da ação policial é a participação de um servidor público chamado Allan Souza Siqueira no operativo do delegado Marcello Cunha. Ele não é policial; no processo, é descrito como servidor administrativo cedido pela Prefeitura de Oeiras do Pará.
Imagens de câmeras de segurança mostram Allan circulando dentro da casa, armado, acompanhando os agentes e interferindo diretamente na dinâmica da operação. As imagens também mostram Allan impedindo o padrasto do jovem de entrar na casa sob empurrões.
No inquérito que apurou a operação policial, Allan foi o único indiciado no caso e apenas por porte ilegal de arma de fogo. Embora o delegado Marcello tenha chefiado a operação e seu nome apareça de forma recorrente nas manifestações da família da vítima, ele nunca foi formalmente responsabilizado.
A mãe acredita que a responsabilidade foi atribuída a Allan para isentar o delegado. “Tiraram a responsabilidade do delegado e colocaram nesse servidor, como se ele fosse o único culpado”.
“Todos que estavam lá foram coniventes, mas a ação foi do delegado Marcello. Eu tenho fé que cedo ou tarde a justiça vai ser feita. Meu filho não merecia o que fizeram com ele e nem a gente merece”, completa.

Desde os primeiros momentos da ação, Allan aparece fora da viatura, armado, acompanhando a dinâmica da operação e parte da equipe. Foto: Reprodução
‘Em todo canto da casa a gente lembra dele’
O impacto da perda segue presente no cotidiano da família. “Em todo canto da casa a gente lembra dele. Lembro das mensagens, de tudo. Ele era muito próximo da família, principalmente dos irmãos. Mesmo não morando comigo, ele vinha sempre, almoçava, jantava, dormia às vezes aqui”.
Ela também questiona a condução do caso. “Eles fizeram de tudo para esconder o erro. A negligência foi enorme. Tentaram agir como se nada tivesse acontecido. E há também a incompetência do delegado em liderar a equipe”.
O caso chegou a ser arquivado em fevereiro de 2025, depois que o juiz Marcello de Almeida Lopes, da Vara Única de Oeiras do Pará, aceitou o argumento de legítima defesa para justificar a ação policial, após pedido da promotora de Justiça Isolda de Pontes Prado.
Mas a defesa da mãe de Rosimilck pediu o desarquivamento e apontou falhas graves na investigação, além de omissão de provas consideradas centrais. Por esse motivo, o juiz encaminhou o processo à Procuradoria-Geral de Justiça.
Em nota, o Ministério Público informou que o Procurador-Geral de Justiça, Alexandre Tourinho, manifestou discordância quanto ao arquivamento do caso. Por isso, nomeou outra promotora para atuar no processo como sua representante, garantindo a continuidade das apurações.
Segundo a nota, essa promotora já está atuando normalmente, inclusive tendo protocolado uma manifestação que ainda aguarda decisão do juiz responsável.
Michele finaliza mostrando fotos de seu último aniversário ao lado de Rosimilck. “A gente era uma família feliz e agora estamos tentando sobreviver”.

Edição: Flávio V. M. Costa.