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Mulheres trans e travestis não acessam políticas para pessoas idosas

Pesquisa expõe a falta de acesso dessa população às políticas públicas em Recife (PE); negras são maioria das afetadas
Mulheres seguram a bandeira trans.

Foto: Gabriela Biló

19 de maio de 2023

Negras, periféricas e semi alfabetizadas é o perfil das mulheres trans e travestis acima dos 50 anos no Recife, Pernambuco, que nunca tiveram acesso às políticas públicas para pessoas idosas, conforme revela a pesquisa inédita “Travestis também envelhecem”, realizada pela “Gestos – Soropositividade, Comunicação e Gênero”, organização que trabalha há 30 na defesa dos direitos sexuais reprodutivos e de pessoas que vivem com HIV e AIDS.

Dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) apontam que a expectativa de vida para uma pessoa trans ou travesti é de 35 anos. Quando se analisa sob um recorte racial, a idade reduz para 28 anos. No entanto, para esse público, superar essa estatística não significa que elas vão ter a garantia de acesso a direitos fundamentais ao longo da vida.

O levantamento acompanhou e investigou a situação de vida de 36 mulheres trans e travestis na capital pernambucana e revelou que 88% das entrevistadas têm entre 50 e 60 anos. Somente três têm entre 60 e 70 anos e apenas uma está com mais de 80 anos. Das entrevistadas, todas disseram que nunca acessaram alguma política pública direcionada a pessoas idosas. Para elas, a saúde, os serviços de assistência social e segurança pública são políticas prioritárias para esse público.

 Thiago Jerohan, articulador político e assessor de projeto na Gestos, comenta sobre a importância de elaborar dados sobre o envelhecimento dessa população no Brasil, país que lidera a lista de assassinato de pessoas trans pelo 14º ano consecutivo.

“Essa é a primeira pesquisa feita com pessoas trans em envelhecimento partindo de um pressuposto que a gente não está falando sobre essa expectativa de vida. É sobre essas pessoas que superaram esse processo e como está a qualidade de vida dessas pessoas que estão sobrevivendo a essas expectivas?”, questiona Jerohan.

Jerohan explica que o processo de envelhecimento para a população trans e travesti difere de outras vivências justamente pelo fato de elas não serem vistas como pessoas idosas dentro de uma lógica cisgênera, heterossexual e com acompanhamento familiar.

“Pessoas trans envelhecem mais rápido porque na verdade a sua expectativa de vida era muito menor do que os 65 anos. Elas não têm acesso às políticas, a algumas especialidades médicas e auxílios que poderiam ter e que são adequadas a esse momento da vida que uma pessoa cis teria equiparadamente”.

Baixa expectativa de vida

Chegar ao envelhecimento não estava nas expectativas de 69% das entrevistadas, que apontam razões como a violência contra as travestis, a vulnerabilidade na prostituição, a descoberta como pessoa soropositiva e o uso frequente de drogas.

Mulher trans/ravesti, negra e de origem pobre, Gabriella Borges não imaginava ultrapassar a expectativa de vida desssa população no Brasil. Presidenta do PSOL em Porto Seguro,  Bahia, e primeira travesti eleita presidenta de partido político no Brasil, ela conta que superou a expectativa por estratégias adotadas ao longo da vida.

“Até os 30 anos eu vivi como um menino gay, afeminado, sempre chamado de ‘mulherzinha’, ‘viadinho’ porque era muito afeminada. Em 2008, tive que abandonar a faculdade por conta de violências que sofri lá dentro mesmo sem ter assumido ainda minha identidade que era de mulher trans/travesti”, relata a ativista, hoje com 42 anos.

Gabriella acrescenta que é necessário pensar no envelhecimento da população trans e travesti a partir da garantia de direitos fundamentais, como o acesso à saúde, educação, segurança e trabalho.

“É preciso leis e políticas públicas que nos garantam direitos básicos fundamentais para a nossa sobrevivência e a nossa estadia nesses lugares de poder, como a escola, a universidade e a empregabilidade, além de uma saúde que garanta a nossa sobrevivência”, completa.

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Saúde, moradia e renda

Um dos dados de destaque da pesquisa se refere à situação sorológica das entrevistadas. A maioria informou que é soropositiva, nunca foi a consulta com urologista e proctologista.

Em relação à moradia, apesar da maioria informar que mora em casa própria, elas recebem menos de um salário mínimo e geralmente os imóveis são um “puxadinho” da casa de familiares, fruto de invasões ou acordos de herança.

Ainda de acordo com o levantamento, diante das dificuldades de subsistência e da violência que as tornam vulneráveis dentro de suas próprias casas, 83% reside sozinha, 22% mora com familiares e apenas 8% reside com o esposo. Um dos dados que chama atenção é que nenhuma menciou o pai como um dos moradores, ao contrário, quase sempre é a figura paterna que a expulsa de casa.

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Metade das entrevistadas atuaram, ou ainda atuam, como profissional do sexo, sendo que 58% exercem/exerceram por opção e 42% por falta de alternativa. Respectivamente, os percentuais representam as respostas das que afirmaram que o dinheiro que ganham com a prostituição é a principal fonte de recursos ou uma renda complementar.

A equipe da Gestos informou que irá encaminhar os dados da pesquisa aos conselhos municipais, como o Conselho da Pessoa Idosa, da Saúde e demais organizações a fim de que planejem políticas voltadas a essa população.

“Uma coisa que já está em negociação é  ampliar o acesso ao Hospital Municipal do Idoso para receber pessoas trans acima de 50 anos, sendo que atualmente ele é voltado apenas para pessoas acima de 65 anos. Esse tipo de incidência já está sendo feita e vai ser levada também para os Conselhos”, finaliza Jerohan.

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  • Dindara Paz

    Baiana, jornalista e graduanda no bacharelado em Estudos de Gênero e Diversidade (UFBA). Me interesso por temáticas raciais, de gênero, justiça, comportamento e curiosidades. Curto séries documentais, livros de 'true crime' e música.

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