PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

‘Nosso corre é outro’: Coletivo Corre Kilombo promove inclusão e acolhimento de pessoas negras na corrida

Fundadores do Corre Kilombo destacam o impacto da atividade física e o uso dos espaços públicos como palco de movimento, resistência e liberdade para a comunidade negra
Participantes do Corre Kilombo correndo no Parque Ibirapuera, em São Paulo.

Participantes do Corre Kilombo correndo no Parque Ibirapuera, em São Paulo.

— Divulgação/Diego Marcos

9 de setembro de 2025

Criar um movimento para a comunidade negra se aproximar do esporte: assim começou a história do Corre Kilombo, um coletivo de corrida fundado por Gisa Oliveira, Augusto Rocha e Marco Aurélio Viegas como um espaço de acolhimento e representatividade para as atividades físicas.

Apesar de a corrida ser considerada um esporte democrático, os fundadores relataram, em entrevista à Alma Preta, que identificaram a necessidade de incluir mais pessoas negras na atividade, que nem sempre é acessível financeiramente. 

Quer receber nossa newsletter?

Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!

“O material esportivo é caro e as grandes marcas só convidam influenciadores muito grandes para os eventos. Então, a gente começou a perceber que, em vários rolês, éramos os únicos negros ali”, afirma Gisa.

O coletivo foi criado em 2022 a partir de um encontro realizado na Universidade de São Paulo (USP), que logo passou a atrair a atenção de muitas pessoas.

“Teve um impacto tão legal nas redes sociais, que as pessoas começaram a se identificar e entender essa necessidade também. Aos poucos tivemos outros encontros na USP e no Parque Villa Lobos, as pessoas foram chegando e ele foi crescendo. As pessoas foram entendendo o porquê  da gente estar ali, que não era sobre excluir pessoas brancas e sim acolher pessoas pretas”, recorda Gisa.

Com o crescimento da iniciativa, os encontros passaram a ser realizados semanalmente no Parque Ibirapuera, em frente ao Museu Afro Brasil, que se tornou um ponto de referência. 

“No aniversário do ano passado, no Parque Ibirapuera, tínhamos mais de 1.600 pessoas. Parecia uma prova de corrida. O mais legal de tudo isso é que, num parque majoritariamente frequentado por pessoas brancas, se você olhar ao redor, vê pouquíssimas pessoas pretas passando. O coletivo chega lá com alegria, para festejar, se unir, dançar, se conectar, e festejar”, conta uma das fundadoras.

Augusto Rocha, Gisa Oliveira e Marco Aurélio Viegas, fundadores do Corre Kilombo. Foto: Divulgação/Diego Marcos

‘O nosso corre é outro’ 

O grupo busca unir atividade física e cultura. Antes dos treinos, há uma aula de ritmos, que também inclui samba rock, charme e até capoeira, promovendo o resgate e a valorização da cultura afro-brasileira. Para Augusto Rocha, o grupo é um movimento de fortalecimento da população negra, inclusive economicamente.

“É onde o movimento Black Money acontece. É onde o patrão acha o funcionário, onde alguém encontra um emprego, um amigo, um sócio ou até um companheiro. Aconteceu muita coisa ali através do Corre Kilombo. A gente faz esse amor negro acontecer, esse trabalho acontecer e o dinheiro circular”, compartlha um dos fundadores.

As corridas são divididas em categorias, conforme o nível dos participantes, com ritmos variando de sete minutos e 30 segundos a oito minutos e 30 por quilômetro. Também há caminhadas que envolvem um público variado, incluindo participantes de todas as idades, desde crianças, mães, gestantes e pessoas com deficiência. 

Com isso, o coletivo valoriza a diversidade, combate o racismo e reforça a importância das ações afirmativas.

“Todo mundo começa e termina junto. Ninguém fica para trás. Esse é o lema do Corre Kilombo. Porque com a gente, o nosso corre é outro. Não é só sobre corrida. É sobre tudo isso que nos movimenta”, explica Augusto.

Ocupando espaços e transformando vidas

A escolha do Parque Ibirapuera como local dos encontros também é simbólica. Marco Aurélio Viegas destaca a importância de levar pessoas periféricas para conhecer espaços históricos e culturais de São Paulo.

“A gente vê o quanto é importante para algumas pessoas conhecer o Parque Ibirapuera, que é um dos pontos turísticos daqui de São Paulo. E muitos dos nossos só tiveram acesso a ele e ao Museu Afro depois de participar do Corre Kilombo”, comenta.

Para Viegas, o coletivo também inspirou o surgimento de iniciativas semelhantes em outras cidades.   “Essa semente que o Corre Kilombo plantou já está gerando frutos, como o Corre Preto de Porto Alegre, o Afro Velozes de Belo Horizonte, o Correria do Rio de Janeiro, e provavelmente outros que ainda nem conhecemos”, diz.

O projeto também tem impactado a vida de pessoas que nunca haviam praticado atividade física, como lembra Gisa.

“Pessoas que às vezes nunca fizeram uma atividade física e que eram sedentárias, hoje se sentem à vontade em sair de casa para poder ir até o Parque Ibirapuera treinar com a gente. Elas se sentem acolhidas e felizes, para elas é gostoso estar com a galera, poder dançar, cantar e fazer uma caminhada”, conta.

Participantes do coletivo em frente ao Museu Afro Brasil, localizado no Parque Ibirapuera, em São Paulo.
Participantes do coletivo em frente ao Museu Afro Brasil, localizado no Parque Ibirapuera, em São Paulo. Foto: Divulgação/Diego Marcos

Primeira corrida oficial do projeto

No dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, data que também marca os três anos do coletivo, será realizada a primeira corrida oficial do Corre Kilombo, em São Paulo.

O circuito vai passar por locais históricos que contam a trajetória da população negra na capital paulista, unindo cultura, história e esporte.

A prova contará com percursos de 3 km, 5 km e 21 km, com ações como o incentivo à participação de atletas com mais de 60 anos e kits sociais para pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica.

As inscrições já estão abertas e podem ser realizadas pelo site

Apoie jornalismo preto e livre!

O funcionamento da nossa redação e a produção de conteúdos dependem do apoio de pessoas que acreditam no nosso trabalho. Boa parte da nossa renda é da arrecadação mensal de financiamento coletivo.

Todo o dinheiro que entra é importante e nos ajuda a manter o pagamento da equipe e dos colaboradores em dia, a financiar os deslocamentos para as coberturas, a adquirir novos equipamentos e a sonhar com projetos maiores para um trabalho cada vez melhor.

O resultado final é um jornalismo preto, livre e de qualidade.

  • Thayná Santana

Leia mais

PUBLICIDADE

Destaques

Cotidiano