No último domingo (14), uma oficina sobre a utilização de dados raciais marcou o encerramento da 20ª edição do Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), em São Paulo.
Durante a atividade, foi apresentada a plataforma do Centro de Estudos e Dados sobre Desigualdades Raciais (CEDRA), que reúne análises inéditas com base no cruzamento de dados oficiais para traçar um panorama abrangente das desigualdades raciais no Brasil.
Quer receber nossa newsletter?
Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!
A oficina contou com a participação de Cristina Lopes, diretora-executiva do CEDRA, e de Marcelo Tragtenberg, membro do conselho deliberativo da instituição.
Segundo Cristina, a plataforma foi criada para concentrar, em um só local, dados estatísticos com recorte raciais acessíveis de forma gratuita, que possam subsidiar decisões públicas e informar o debate social sobre desigualdades estruturais.
“Nosso objetivo é instrumentalizar ativistas do movimento negro, informar gestores dos setores público e privado, e servir de fonte para pesquisadores, jornalistas, comunicadores e estudantes”, afirmou.
Ela também destacou que o CEDRA utiliza exclusivamente dados estatísticos oficiais, por serem considerados mais confiáveis e fundamentais para a formulação de políticas públicas.
A plataforma apresenta indicadores de áreas como trabalho, saúde, educação e qualidade de vida, evidenciando como a desigualdade racial está presente em diferentes fases da vida, muitas vezes já na gestação.
Um dos dados apresentados revelou que 33,8% das gestantes negras não realizam o número mínimo de sete consultas de pré-natal, conforme recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS). Entre as gestantes brancas, esse número é de 18,8%.
“Isso mostra que essas desigualdades raciais começam antes do nascimento. A diferença no acesso ao pré-natal adequado já impacta o início da vida comparado entre crianças negras e brancas”, explicou Cristina.
Impacto da desigualdade racial na educação
Durante a oficina, Marcelo Tragtenberg explicou a metodologia usada na análise dos dados educacionais e destacou os desafios na classificação racial das escolas brasileiras.
Segundo ele, apenas cerca de 30% das escolas de educação básica no Brasil têm cor predominante definida, em razão da alta taxa de não declaração da cor/raça dos estudantes. Essa lacuna impacta diretamente a análise das condições educacionais.
“Nas escolas com maioria de alunos negros, há menos formação docente adequada e mais professores temporários do que nas escolas predominantemente brancas. Obviamente isso tem um impacto racial na aprendizagem das crianças”, apontou Marcelo.
Os dados apresentados referem-se ao período de 2003 a 2019. A partir de 2020, o INEP passou a divulgar os dados apenas de forma agregada por escola, o que dificultou a continuidade das análises individualizadas
Marcelo explicou ainda o critério adotado para classificar a cor predominante de uma escola. A definição leva em conta apenas os estudantes que declararam sua cor/raça. Se mais de 60% dos alunos declarantes pertencem a uma mesma categoria racial, a escola é classificada por essa cor.
“Não desconsideramos os alunos que não declararam. Se os excluíssemos, estaríamos assumindo que a distribuição deles é igual à dos declarantes, o que poderia distorcer a análise”, explicou.