Em 24 de novembro, véspera da 2ª Marcha das Mulheres Negras em Brasília, três especialistas negras em tecnologia se reuniram no Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP) para discutir as demandas da população negra no campo digital. O público queria ouvir, sobretudo, a coordenadora-geral de Cultura em Direitos Humanos e Mídias Digitais do Ministério dos Direitos Humanos, Miriam Alves, que dividiu a mesa com duas integrantes do Comitê de Tecnologia da Marcha: Thiane Neves e Silvana Bahia — a Sil.
O encontro não surgiu do acaso. Ele foi costurado desde antes do lançamento oficial do comitê, em setembro, e é resultado de meses de trabalho que consolidaram um projeto político evidente: pensar tecnologia a partir de uma perspectiva antirracista, feminista e comprometida com o bem viver.
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A agenda do grupo é extensa e segue para além da Marcha: inclui analisar criticamente o impacto das tecnologias digitais, produzir subsídios técnicos, defender participação popular em espaços decisórios, ocupar instâncias estratégicas da governança da internet e construir políticas públicas que enfrentem racismo, machismo e desigualdades de acesso e uso.
Mais do que debater infraestrutura ou conectividade, o comitê reivindica uma visão interseccional de inclusão digital — entendendo que disputar o digital é também disputar memória, cuidado, criação e reinvenção do mundo. Por isso, reúne mulheres negras de diferentes regiões do país e mantém, no seu núcleo, referências nacionais no tema. Entre elas está Silvana Bahia, diretora-executiva do Olabi e idealizadora da PretaLab, cuja atuação tem tensionado e ampliado o debate sobre democratização tecnológica, pensamento crítico e presença de mulheres negras no setor.
À Gênero e Número, Sil Bahia falou sobre formação crítica, disputa política no ambiente digital, proteção de crianças e adolescentes, diálogo com o governo e os desafios de formular políticas públicas que reflitam, de fato, a população brasileira — sobretudo a população negra, que há décadas sustenta, denúncia e reinventa o país.
Sil Bahia é carioca, nascida na Lapa, comunicadora social e empreendedora social. Hoje codiretora executiva do Olabi, tornou-se um dos nomes mais influentes em tecnologia e inovação no Brasil. Sua trajetória passa pela infância no centro do Rio de Janeiro, pelo sonho da universidade e pelas barreiras enfrentadas como mulher negra no mercado de trabalho. Ela debate gênero e raça na tecnologia, tem um mestrado em Cultura e Territorialidades pela Universidade Federal Fluminense (UFF) dedicado aos coletivos de arte e às disputas no espaço urbano. E, sempre e muito importante, está disposta a falar sobre abrir portas para outras mulheres que, como ela, sonham com um Brasil mais inclusivo.
Como a formação em tecnologia pode estimular senso crítico, especialmente entre mulheres negras?
Sil Bahia – Quando a gente fala de tecnologia, fala pouco de questionar as tecnologias. Questionar se a gente precisa delas da forma como estão sendo servidas para a gente. Estimular o senso crítico começa por aí: fazer novas perguntas sobre coisas que, como sociedade, não temos olhado tanto.
No Comitê de Tecnologia [da Marcha das Mulheres Negras], discutimos muito como o olhar das mulheres negras — aliado a essa visão crítica sobre uso e produção — incide numa mudança que não é só de consumo, mas também comportamental. Nas formações do Olabi, a gente bate nessa tecla há mais de dez anos: a tecnologia não é neutra.
Não queremos só que as pessoas saibam “apertar botão”, mas que consigam fazer leitura de contexto, de mundo. Isso faz parte da formação de senso crítico. Isso também é educação midiática, algo urgente neste tempo – e estamos vivendo isso, inclusive, na Marcha das Mulheres Negras.
Esse uso crítico da tecnologia também aparece nas discussões sobre crianças e adolescentes nas redes?
Sil Bahia – Esse talvez seja um dos maiores desafios do período que a gente está vivendo: como proteger crianças e adolescentes num ambiente digital que, muitas vezes, parece terra sem lei. Existem conteúdos que não são próprios para essa fase da vida, e eu fico pensando em mães e pais: como lidar com isso?
O primeiro passo é falar sobre o problema. Quando a gente não fala, não cria solução. Existe uma vulnerabilidade grande para crianças e adolescentes, e essa discussão é urgente, porque os impactos emocionais e de comportamento podem aparecer a longo prazo — mais ansiedade, mais vício em telas. É preciso discutir como não cercear o uso, mas criar contorno e limite.
Por que trazer o Ministério dos Direitos Humanos para esse debate? Como tem sido esse diálogo?
Sil Bahia – A presença do ministério foi um convite nosso, do Comitê de Tecnologia, para abrir diálogo e, estrategicamente, trazer esse compromisso com o que estamos construindo. Essa articulação nasce muito do Comitê Nacional, como possibilidade de diálogo com ministérios. A gente está preocupada em construir diálogo com quem pode se comprometer com nossas pautas.
Trazer ministérios, governos, secretarias é importante, porque queremos dizer: “Temos pensamento sobre tecnologia, temos ação, temos propostas”. Mas também queremos dialogar com quem pode ouvir e incorporar essas pautas nas ações de governo.
No fim do dia, é a política pública que chega na ponta… muitas vezes não chega, mas a ideia é tentar fazer incidência para algum tipo de transformação. Se não, é chover no molhado.
Hoje mesmo tracei uma linha do tempo sobre políticas públicas de inclusão digital e vimos como raça e gênero ainda não estão pautados. Isso precisa estar.
Você costuma contar que entrou na tecnologia criando um site com uma amiga cineasta. O que podemos esperar de Sil Bahia e do Olabi nos próximos anos?
Sil Bahia – A gente sempre quer ampliar impacto: chegar a mais mulheres, a mais pessoas. Mas também tenho pensado em como fazer isso com qualidade. Não é só sobre números.
Queremos formar, dialogar com mercado, melhorar a empregabilidade de pessoas negras e mulheres negras, sim — mas não a qualquer preço. Por isso trazemos pensamento crítico, por isso trabalhamos soft skills [habilidades interpessoais, como boa comunicação e capacidade de manter a calma].
O que dá para esperar dos próximos tempos é uma maior qualidade nos processos e projetos. Uma melhora contínua no trabalho que já estamos desenvolvendo.
E, para fechar, que síntese você faz sobre o que falta nas políticas públicas brasileiras de inclusão digital hoje?
Sil Bahia – A verdade é que falta muita coisa. Mas algumas questões saltam aos olhos. A primeira é nomear raça e gênero. Quando a gente não dá nome, a gente não constrói política.
Outra é garantir uso pedagógico e crítico: não é só acesso. Queremos reflexão, pensamento crítico. Também falta participação da juventude no desenho das políticas. E falta abordar desigualdade digital de forma interseccional: raça, gênero, renda, território. Os dados estão aí mostrando diferenças enormes quando cruzamos esses marcadores.
Se queremos políticas de inclusão digital que funcionem, elas precisam ter a nossa cara. Precisam ter a cara preta, que é a maioria desse país. E precisam reconhecer que o digital é disputa política, criação, memória, cuidado e reinvenção do mundo. Essa é uma agenda que a gente já vem trazendo desde o Manifesto do Comitê.
Conectividade é importante, mas inclusão digital é sobretudo política de equidade. A gente sabe que ainda vai trabalhar muito para construir isso. Quando convocamos esse encontro, é para criticar, mas também para imaginar. A política que queremos não está dada — está sendo construída.
Esta reportagem foi originalmente publicada na Gênero e Número como parte da série Juntas pelo Bem Viver. Essa é uma iniciativa da Coalizão de Mídias Negras e Feministas, formada por Gênero e Número, Alma Preta, AzMina, Instituto Mídia Étnica e Nós, Mulheres da Periferia.