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‘Políticas de inclusão digital que funcionem precisam ter a cara preta’, diz Sil Bahia

Em entrevista à Gênero e Número, Sil Bahia, do Comitê de Tecnologia da Marcha das Mulheres Negras, defende que a maioria negra do país deve servir de guia para políticas públicas
Arte destaca o Sil Bahia, do Comitê de Tecnologia da Marcha das Mulheres Negras

Arte destaca o Sil Bahia, do Comitê de Tecnologia da Marcha das Mulheres Negras

— Reprodução/Gênero e Número

17 de janeiro de 2026

Em 24 de novembro, véspera da 2ª Marcha das Mulheres Negras em Brasília, três especialistas negras em tecnologia se reuniram no Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP) para discutir as demandas da população negra no campo digital. O público queria ouvir, sobretudo, a coordenadora-geral de Cultura em Direitos Humanos e Mídias Digitais do Ministério dos Direitos Humanos, Miriam Alves, que dividiu a mesa com duas integrantes do Comitê de Tecnologia da Marcha: Thiane Neves e Silvana Bahia — a Sil.

O encontro não surgiu do acaso. Ele foi costurado desde antes do lançamento oficial do comitê, em setembro, e é resultado de meses de trabalho que consolidaram um projeto político evidente: pensar tecnologia a partir de uma perspectiva antirracista, feminista e comprometida com o bem viver. 

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A agenda do grupo é extensa e segue para além da Marcha: inclui analisar criticamente o impacto das tecnologias digitais, produzir subsídios técnicos, defender participação popular em espaços decisórios, ocupar instâncias estratégicas da governança da internet e construir políticas públicas que enfrentem racismo, machismo e desigualdades de acesso e uso.

Mais do que debater infraestrutura ou conectividade, o comitê reivindica uma visão interseccional de inclusão digital — entendendo que disputar o digital é também disputar memória, cuidado, criação e reinvenção do mundo. Por isso, reúne mulheres negras de diferentes regiões do país e mantém, no seu núcleo, referências nacionais no tema. Entre elas está Silvana Bahia, diretora-executiva do Olabi e idealizadora da PretaLab, cuja atuação tem tensionado e ampliado o debate sobre democratização tecnológica, pensamento crítico e presença de mulheres negras no setor.

À Gênero e Número, Sil Bahia falou sobre formação crítica, disputa política no ambiente digital, proteção de crianças e adolescentes, diálogo com o governo e os desafios de formular políticas públicas que reflitam, de fato, a população brasileira — sobretudo a população negra, que há décadas sustenta, denúncia e reinventa o país.

Sil Bahia é carioca, nascida na Lapa, comunicadora social e empreendedora social. Hoje codiretora executiva do Olabi, tornou-se um dos nomes mais influentes em tecnologia e inovação no Brasil. Sua trajetória passa pela infância no centro do Rio de Janeiro, pelo sonho da universidade e pelas barreiras enfrentadas como mulher negra no mercado de trabalho. Ela debate gênero e raça na tecnologia, tem um mestrado em Cultura e Territorialidades pela Universidade Federal Fluminense (UFF) dedicado aos coletivos de arte e às disputas no espaço urbano. E, sempre e muito importante, está disposta a falar sobre abrir portas para outras mulheres que, como ela, sonham com um Brasil mais inclusivo.

Como a formação em tecnologia pode estimular senso crítico, especialmente entre mulheres negras?

Sil Bahia – Quando a gente fala de tecnologia, fala pouco de questionar as tecnologias. Questionar se a gente precisa delas da forma como estão sendo servidas para a gente. Estimular o senso crítico começa por aí: fazer novas perguntas sobre coisas que, como sociedade, não temos olhado tanto.

No Comitê de Tecnologia [da Marcha das Mulheres Negras], discutimos muito como o olhar das mulheres negras — aliado a essa visão crítica sobre uso e produção — incide numa mudança que não é só de consumo, mas também comportamental. Nas formações do Olabi, a gente bate nessa tecla há mais de dez anos: a tecnologia não é neutra. 

Não queremos só que as pessoas saibam “apertar botão”, mas que consigam fazer leitura de contexto, de mundo. Isso faz parte da formação de senso crítico. Isso também é educação midiática, algo urgente neste tempo – e estamos vivendo isso, inclusive, na Marcha das Mulheres Negras.

Esse uso crítico da tecnologia também aparece nas discussões sobre crianças e adolescentes nas redes?

Sil Bahia – Esse talvez seja um dos maiores desafios do período que a gente está vivendo: como proteger crianças e adolescentes num ambiente digital que, muitas vezes, parece terra sem lei. Existem conteúdos que não são próprios para essa fase da vida, e eu fico pensando em mães e pais: como lidar com isso?

O primeiro passo é falar sobre o problema. Quando a gente não fala, não cria solução. Existe uma vulnerabilidade grande para crianças e adolescentes, e essa discussão é urgente, porque os impactos emocionais e de comportamento podem aparecer a longo prazo — mais ansiedade, mais vício em telas. É preciso discutir como não cercear o uso, mas criar contorno e limite.

Por que trazer o Ministério dos Direitos Humanos para esse debate? Como tem sido esse diálogo?

Sil Bahia – A presença do ministério foi um convite nosso, do Comitê de Tecnologia, para abrir diálogo e, estrategicamente, trazer esse compromisso com o que estamos construindo. Essa articulação nasce muito do Comitê Nacional, como possibilidade de diálogo com ministérios. A gente está preocupada em construir diálogo com quem pode se comprometer com nossas pautas.

Trazer ministérios, governos, secretarias é importante, porque queremos dizer: “Temos pensamento sobre tecnologia, temos ação, temos propostas”. Mas também queremos dialogar com quem pode ouvir e incorporar essas pautas nas ações de governo.

No fim do dia, é a política pública que chega na ponta… muitas vezes não chega, mas a ideia é tentar fazer incidência para algum tipo de transformação. Se não, é chover no molhado. 

Hoje mesmo tracei uma linha do tempo sobre políticas públicas de inclusão digital e vimos como raça e gênero ainda não estão pautados. Isso precisa estar.

Você costuma contar que entrou na tecnologia criando um site com uma amiga cineasta. O que podemos esperar de Sil Bahia e do Olabi nos próximos anos?

Sil Bahia – A gente sempre quer ampliar impacto: chegar a mais mulheres, a mais pessoas. Mas também tenho pensado em como fazer isso com qualidade. Não é só sobre números.

Queremos formar, dialogar com mercado, melhorar a empregabilidade de pessoas negras e mulheres negras, sim — mas não a qualquer preço. Por isso trazemos pensamento crítico, por isso trabalhamos soft skills [habilidades interpessoais, como boa comunicação e capacidade de manter a calma].

O que dá para esperar dos próximos tempos é uma maior qualidade nos processos e projetos. Uma melhora contínua no trabalho que já estamos desenvolvendo.

E, para fechar, que síntese você faz sobre o que falta nas políticas públicas brasileiras de inclusão digital hoje?

Sil Bahia – A verdade é que falta muita coisa. Mas algumas questões saltam aos olhos. A primeira é nomear raça e gênero. Quando a gente não dá nome, a gente não constrói política.

Outra é garantir uso pedagógico e crítico: não é só acesso. Queremos reflexão, pensamento crítico. Também falta participação da juventude no desenho das políticas. E falta abordar desigualdade digital de forma interseccional: raça, gênero, renda, território. Os dados estão aí mostrando diferenças enormes quando cruzamos esses marcadores.

Se queremos políticas de inclusão digital que funcionem, elas precisam ter a nossa cara. Precisam ter a cara preta, que é a maioria desse país. E precisam reconhecer que o digital é disputa política, criação, memória, cuidado e reinvenção do mundo. Essa é uma agenda que a gente já vem trazendo desde o Manifesto do Comitê.

Conectividade é importante, mas inclusão digital é sobretudo política de equidade. A gente sabe que ainda vai trabalhar muito para construir isso. Quando convocamos esse encontro, é para criticar, mas também para imaginar. A política que queremos não está dada — está sendo construída.

Esta reportagem foi originalmente publicada na Gênero e Número como parte da série Juntas pelo Bem Viver. Essa é uma iniciativa da Coalizão de Mídias Negras e Feministas, formada por Gênero e Número, Alma Preta, AzMina, Instituto Mídia Étnica e Nós, Mulheres da Periferia.

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