A Confederação Nacional da Indústria (CNI) entregou o SB30 Awards, um prêmio para reconhecer projetos de “alto impacto” na transição climática. Entre as iniciativas vencedoras estão a Braskem, a JBS e a Suzano, companhias com histórico de violação de direitos humanos e ambientais.
Vídeos com depoimentos de representantes das empresas ou mensagens exaltando os feitos das companhias foram exibidos durante a COP30, em Belém, no pavilhão da CNI. O estande foi patrocinado por uma série de empresas, inclusive as vencedoras Braskem, JBS e Suzano.
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A CNI afirma ter recebido mais de 670 iniciativas para serem avaliadas e que ao final foram escolhidos 48 casos. Os vencedores foram anunciados no dia 15 de outubro, antes da COP30. Eles foram escolhidos por grupos de trabalho criados pela própria confederação.
Durante a COP30, a Braskem, a JBS e a Suzano participaram da programação do pavilhão da CNI. Espaço decorado por planta e cadeiras de madeira, remetendo a um cenário de um escritório com uma estética ambientalista.
O estande da indústria brasileira na COP30 se contrasta com o histórico das empresas que apoiam o espaço e apresentam ali soluções climáticas para o mundo.
A Confederação Nacional da Indústria não respondeu aos questionamentos da reportagem sobre os critérios utilizados para a entrega do prêmio ou mesmo se fatores relacionados aos direitos humanos entram na agenda.
A Suzano ressaltou a iniciativa vitoriosa e exaltou a importância do setor privado para enfrentar o aquecimento global, sem retornar sobre possível processo de reintegração de posse e a retirada de 700 famílias de onde vivem. A JBS, por sua vez, pediu para a reportagem procurar a CNI, disse que não se inscreveu no prêmio e foi homenageada de maneira “espontânea”. A Braskem não respondeu à reportagem.

As vencedoras do prêmio da CNI e seu histórico
A Braskem foi premiada por conta da iniciativa “Vesta”, um projeto desenvolvido para aumentar a eficiência energética da companhia. Segundo o vídeo promocional, exibido durante a programação da COP30, a empresa consumiu 7,3% a menos de energia, o que diminuiu as emissões de gases da empresa.
A Braskem participou de dois painéis durante a programação do pavilhão da CNI. No primeiro, no dia 13 de novembro, tratou do assunto de “Bioeconomia brasileira e o carbono sustentável: de recursos renováveis à liderança industrial” e no segundo, no dia 14 de novembro, o tema foi “Caminhos para a descarbonização da indústria química e o alcance da neutralidade climática”.
A Braskem é responsável pelo colapso do solo de Maceió, resultado de décadas de exploração de sal-gema. A tragédia causou o deslocamento de 60 mil pessoas, destruição de cinco bairros, o fechamento de 40 escolas e 12 unidades de saúde.
Apesar das indenizações e acordos judiciais, o Observatório do Caso Braskem afirma que as comunidades seguem em vulnerabilidade social e econômica. Em entrevista para a Alma Preta, Evelyn Gomes, integrante do grupo, afirmou existir “abismo entre a narrativa corporativa e a realidade de quem vive as consequências”.
A Suzano, empresa do setor de papel, foi premiada pelo projeto “Usina de gaseificação de biomassa nas novas instalações de Suzano”. No vídeo da empresa, Maurício Miranda, Diretor Industrial Regional Sul, afirmou que a companhia se sentia honrada pela vitória e disse que a Suzano está comprometida em diminuir as emissões de gases estufa.
A companhia, por outro lado, pede a reintegração de posse de um território com cerca de 700 famílias, segundo apuração da Repórter Brasil. A empresa tem o desejo de usar a área como compensação ambiental.
Outra premiada foi a JBS, maior companhia do setor de carnes, reconhecida pelo projeto “Green Offices 2.0”. A iniciativa, presente em 20 locais e em 8 estados do país, é responsável por já ter regularizado 19 mil propriedades rurais e restaurado mais de 8 mil hectares de terras desde 2021, segundo o vídeo promocional exibido no pavilhão da indústria. No vídeo, a JBS afirma acreditar em “sustentabilidade”, o motivo para a criação do projeto.
Apesar disso, em 2023, cinco fornecedores da empresa foram incluídos na lista suja do trabalho escravo, de acordo com a Repórter Brasil. Uma das fornecedoras, Vanúbia Rodrigues, havia sido acusada em 2022 de utilizar mão de obra escravizada na sua fazenda no Pará.

O histórico do pavilhão
O pavilhão da CNI, localizado ao lado do oficial do Brasil, tem dois palcos, dois telões e lembra uma loja de um shopping, como os demais estandes da COP. Na mesa para falar, representantes da indústria, uma clara predominância de homens brancos, entre 40 e 60 anos, todos de camisa social e alguns com blazer. Na plateria, uma divisão mais equilibrada entre mulheres e homens brancos, com alguns poucos negros.
Com o microfone, empresários ou seus representantes falam sobre os esforços de cada companhia para diminuir o “impacto ambiental”. Quem escuta fica com a sensação de que a humanidade caminha para resolver o problema do aquecimento global e de que a liderança do processo vem do setor industrial. Como não existe a possibilidade para as perguntas, ao final de cada apresentação, ouve-se apenas os aplausos.
O espaço não é novidade, existe desde a COP28, que ocorreu em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Nas edições anteriores, como em Madrid, em 2019, e Glasgow, em 2021, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) apoiou o pavilhão brasileiro e participou da programação do governo federal.
Em 2023, a primeira com o governo Lula eleito, foi adotada a opção de construir um espaço separado. A partir daquele momento, a indústria e o agronegócio brasileiro passaram a dividir a agenda com movimentos sociais e outros grupos políticos. Para a CNI ficou mais interessante um pavilhão separado, para construir a agenda do empresariado brasileiro.