Para combater os efeitos da desinformação em territórios historicamente excluídos das políticas digitais no Brasil, um projeto inédito alia tecnologia, ancestralidade e justiça informacional . Trata-se do GriôTech, iniciativa que mapeia os fluxos de desinformação e treina lideranças comunitárias em educação midiática antirracista, com base nas leis 10.639/03 e 11.645/08, que determinam a obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileira, africana e indígena nas escolas.
O projeto do Instituto de Referência Negra Peregum, em parceria com a Mozilla Foundation, o Observatório de Gênero, Raça e Territorialidade na Ciência (GERATE) e a Rede de Jornalistas Pretos, atua na Aldeia Multiétnica Filhos da Terra, em Guarulhos (SP), e no Quilombo Santa Rita do Bracuí, em Angra dos Reis (RJ).
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“Estar junto da Aldeia Filhos da Terra nos mostra a potência das parcerias que valorizam saberes ancestrais e, ao mesmo tempo, enfrentam os desafios contemporâneos, como a desinformação e os impactos da tecnologia nas nossas comunidades”, afirma Vanessa Nascimento, diretora institucional do Instituto Peregum.
Resposta concreta à exclusão digital
O GriôTech integra tecnologias digitais, como inteligência artificial e metodologias participativas, à valorização de saberes ancestrais das comunidades negras e indígenas. Inspirado na figura do griô – o guardião da memória e do conhecimento –, o GriôTech aposta na criação de soluções baseadas em território, respeitando as especificidades culturais e ampliando a autonomia comunitária, contribuindo para a redução dos impactos da desinformação racializada nos territórios e ampliando o acesso à educação midiática crítica e antirracista, ao mesmo tempo em que projeta internacionalmente experiências de inovação social desenvolvidas a partir da periferia.
A iniciativa do Instituto Peregum tem o objetivo de influenciar as discussões em prol da justiça digital e da inclusão de comunidades vulneráveis no ambiente online. Em colaboração com o Observatório GERATE e a Rede de Jornalistas Pretos, o projeto, que atua diretamente no combate à desinformação em contextos marcados por desigualdade de acesso à educação, é ganhador do Clinton Global Initiative.
As frentes de atuação incluem o mapeamento dos fluxos informacionais locais, a partir por meio de uma pesquisa qualificada, a elaboração de cartografias sociais digitais construídas de forma colaborativa com os moradores, a realização de oficinas comunitárias que priorizam a alfabetização midiática e a produção de conteúdos autorais, a aplicação do programa “Comunicar para Transformar” — reconhecido com o prêmio da Clinton Foundation no CGI U 2023 — e a divulgação do e-book “Manual de Boas Práticas Antirracistas na Comunicação Digital”, lançado em março e disponibilizado gratuitamente como material formativo acessível.
Após concluir a coleta de dados e oficinas de engajamento, o GriôTech realizará as oficinas de devolutiva e formação nos dois territórios. A fase seguinte contempla a análise colaborativa dos dados, elaboração de um relatório bilíngue (em português e inglês) e o lançamento público nacional e internacional, previsto para março de 2026.