Moradores da Terra Indígena (T.I) Barra Velha Pataxó, no extremo-sul da Bahia, relatam um fim de semana de tensão na comunidade. De acordo com denúncias, o veículo de um cacique do território foi alvo de tiros no último sábado (22). Por segurança, o nome da liderança não foi divulgado.
Em entrevista à Alma Preta, a assessoria do Conselho de Caciques Pataxó informou que, além do atentado no final de semana, carros foram vistos atirando próximos à entrada das aldeias na sexta-feira (21), um dia após a operação policial truculenta que resultou na prisão de 12 indígenas.
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“Alguns carros passaram nas estradas próximos às áreas [da T.I] atirando, foi possível ouvir os disparos de algumas aldeias. Dessa vez não foi diretamente contra os indígenas, mas foi na entrada das aldeias. É uma forma de intimidar”, explica.
Além dos disparos, os invasores quebraram algumas entradas das comunidades. O representante do Conselho conta que a segurança da região tem sido reforçada por uma força integrada composta por, no máximo, dez agentes policiais de guarnições da região.
Os policiais da força integrada realizam rondas na região e, segundo o assessor, mantêm diálogo com as lideranças de Barra Velha.
“O problema veio desta guarnição de fora, que a Polícia Militar trouxe de Salvador para cá. A gente tem visto que a polícia da Bahia tem sido bastante tendenciosa, e isso nos preocupa. Antes da operação, nós nos reunimos com representantes do governo do estado. E no dia seguinte fizeram aquilo”, conta.
O indígena ainda recorda que, anteriormente, os representantes do território Pataxó se reuniram com superintendentes da Polícia Federal da Bahia e com o Ministério dos Povos Indígenas (MPI). Na ocasião, os órgãos teriam informado não haver efetivo suficiente para o monitoramento, mas que tentariam uma solução.
Desde a operação policial, deflagrada na quinta-feira (20), até esta segunda, nenhum grupo da Polícia Federal (PF) foi visto realizando a segurança do território.
“Eles não vieram para a região e também não enviaram equipes. A única força policial que temos atuando no acompanhamento do território é a polícia integrada. A Polícia Federal infelizmente não está fazendo o acompanhamento do território”, revela.
A assessoria do Conselho informou que primeiro contato da PF foi registrado durante a entrevista, às 13h51. Três viaturas da PF teriam comparecido a uma aldeia do território sem aviso ou identificação, e foram embora rapidamente.
A Alma Preta tentou contato com a Superintendência Regional da Polícia Federal na Bahia, questionando sobre quais ações serão tomadas pelo órgão para garantir a segurança nas aldeias da TI Barra Velha. A reportagem também procurou saber se há alguma investigação em curso para apuração das denúncias de ataques.
Nenhum dos questionamentos foi respondido até o momento da publicação deste texto. O espaço segue aberto para manifestações.
“Operação de Guerra”
Ainda de acordo com o Conselho de Caciques Pataxó, a ação policial do dia 20 de março utilizou spray de pimenta, bombas de efeito moral contra a comunidade e emitiu 14 pedidos de prisões para os indígenas. Dez pessoas permanecem presas, sob a alegação de porte ilegal de armas.
“Não tinha ninguém com arma de fogo, o que é um processo de tentar criminalizar também. É uma tentativa de forjar os acontecimentos, porque não houve nenhum tipo de conflito ou resistência” defende.
Vídeos registrados pelos indígenas do território mostram um grupo numeroso de policiais armados tentando avançar por uma barricada que os separa do território. Em seguida, é possível ouvir uma sequência de tiros e moradores informando que há crianças no local.
O representante do Conselho conta que os policiais militares e civis entraram na comunidade abrindo fogo contra os presentes, sem qualquer diálogo.
A violência da abordagem foi tanta que cerca de 25 indígenas foram consideradas como desaparecidas após a operação. Crianças e anciãos foram feridos durante a ação.
“Quando eles chegaram atirando, muitas pessoas pensaram que era um ataque e se fugiram pelas áreas de mata. Tivemos um número muito grande de desaparecidos, alguns se esconderam e outros andaram por quilômetros”, destaca.
O Conselho ressalta que a Justiça da Bahia é estadual e, por isso, os conflitos nos territórios indígenas deveriam ser resolvidos pela PF. No entanto, essa não é a realidade do local.
“Nós pedimos apoio e investigações para as mortes e assassinatos cometidos em nosso território, mas nada aconteceu. Mas foi só os fazendeiros fazer uma manifestação que aparece uma mega operação, uma operação de guerra contra a comunidade”, completa.