A violência contra a mulher alcançou dimensão global e revela falhas estruturais na proteção de direitos humanos. O alerta foi feito pelo alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, durante discurso ao Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), em Genebra, na Suíça, nesta sexta-feira (27).
Segundo ele, a violência de gênero, incluindo o feminicídio, configura uma emergência global. Em 2024, cerca de 50 mil mulheres e meninas foram assassinadas no mundo. A maioria das mortes ocorreu no ambiente doméstico e teve como autores membros da própria família.
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Para o comissário, a persistência desses números expõe a incapacidade dos sistemas nacionais de prevenir crimes, proteger vítimas e responsabilizar agressores.
Türk mencionou dois casos que recentemente causaram comoção internacional para ilustrar a gravidade da situação. O primeiro é o do criminoso sexual condenado Jeffrey Epstein, cuja rede de exploração sexual envolvia mulheres e meninas. O segundo é o da francesa Gisèle Pelicot, vítima de estupros orquestrados por seu ex-marido Dominique, que a drogava e convidava dezenas de homens para abusar dela.
Os dois casos, segundo Türk, “ilustram a dimensão da exploração e dos abusos cometidos contra mulheres e meninas”.
O comissário da ONU apontou as estruturas sociais que permitem a perpetuação desses crimes. “Esses abusos horríveis são possíveis graças a sistemas sociais que silenciam mulheres e meninas e protegem homens poderosos da responsabilização”, denunciou.
Türk cobrou ação dos Estados para reverter esse quadro. “Os Estados devem investigar todos os supostos crimes, proteger as vítimas e garantir justiça imparcial”, insistiu.
Recorde de feminicídios no Brasil
No Brasil, os dados mais recentes reforçam o diagnóstico apresentado na ONU. O país registrou 1.470 feminicídios no último ano, o maior número desde o início da série histórica. As informações são do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública, do Ministério da Justiça e Segurança Pública.
O total representa média de quatro mortes por dia e aumento de 0,41% em relação a 2024, que já havia registrado o maior índice até então. O cálculo ainda não inclui os dados de dezembro.
São Paulo liderou em números absolutos, com 233 casos. Em seguida aparecem Minas Gerais, com 139, e Rio de Janeiro, com 104. Roraima registrou sete casos e apresentou o menor número absoluto. Quando considerado o índice por 100 mil habitantes, Acre e Rondônia apresentaram as maiores taxas, de 1,58 e 1,43, respectivamente. A taxa nacional foi de 0,63.