Quem visita o Cemitério dos Imigrantes, em Joinville, no norte de Santa Catarina, se impressiona com a arquitetura dos túmulos e os materiais utilizados, como o ferro forjado. Ali eram sepultados os mortos da elite local, composta majoritariamente por famílias alemãs e protestantes, entre 1851 e 1913. Na base do cemitério, próximo à escadaria, uma placa chama a atenção: ela exibe uma lista de 14 pessoas negras escravizadas que também foram enterradas ali.
A história chamou a atenção da jornalista Mariana Campos e do fotógrafo Caio Paganotti, idealizadores do projeto “Se Nossa Kombi Falasse”. O casal está na estrada há mais de um ano contando histórias de impacto pelo Brasil — os episódios são publicados no Youtube. Convidaram então Rhuan Carlos Fernandes, professor e ativista do Movimento Negro Maria Laura, para debater o tema.
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Rhuan, que desenvolveu pesquisa sobre o Cemitério dos Imigrantes pela Universidade da Região de Joinville (Univille), explica que, por muito tempo, não se soube da existência dos 14 corpos negros. Até que, em 2009, a notícia veio a público e iniciou-se uma ressignificação do cemitério e de como a história de Joinville é contada.
Para o professor, o cemitério simboliza uma das maiores discussões de tensionamento de memória da cidade mais populosa de Santa Catarina, pois parte da historiografia local nega, até hoje, que havia mão-de-obra escravizada naquele território.
“Esse monumento tensiona o tecido social e deixa bem evidente que a população negra, além de ter estado aqui, trabalhou e foi hiperexplorada por conta do processo de escravidão nesse território”, afirma Rhuan. “E o tensionamento dessa placa até hoje é difícil de engolir para uma parte da sociedade que fantasia uma Joinville cinematográfica, puramente alemã, protestante, hiperdesenvolvida na Europa”.
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De fato, quem passeia pelo centro de Joinville se depara com construções que dão aos alemães o protagonismo da constituição da cidade.
“Quando pesquisávamos sobre Joinville, sempre aparecia a narrativa da ‘cidade de alma alemã’. Decidimos produzir uma história ligada a imigração e identidade para entender quais narrativas estavam sendo ocultadas da história dominante”, explica Mariana.
“Entendemos que contar a história de Joinville e de Santa Catarina sem incluir a participação da população negra é contar uma história incompleta”, diz Caio.
Durante as gravações, realizadas dentro de uma Kombi e no cemitério, Rhuan denuncia a lógica do embranquecimento projetada para toda a Região Sul do Brasil (Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná).
Apesar da tentativa de “embranquecimento” de Santa Catarina como estratégica política e cultural, os dados do Censo Demográfico de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que 23,3% da população do estado se considera negra.
“Eu faço uma cobrança pública a todas as pessoas de movimentos sociais, negros e brancos: não se pode dizer que não tem população negra em Santa Catarina, porque isso contribui para o processo de ocultação dos nossos corpos, das nossas memórias, aqui nesse território”, defende Rhuan.
A conversa com o professor Rhuan ocorre em um período de direitos ameaçados. Em janeiro deste ano, por exemplo, a Assembleia Legislativa de Santa Catarina aprovou a proibição de cotas raciais em universidades. O STF julgou a norma inconstitucional em abril.
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A população negra catarinense também sofre outras violências. A 19° edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho de 2025, apontou Santa Catarina como líder no ranking de ocorrências de injúria racial.
No fim de março, a Assembleia Geral da ONU adotou uma resolução para o reconhecimento do tráfico transatlântico de escravos como “o crime mais grave contra a humanidade”.
O episódio “Rhuan e o cemitério que dá vida à resistência” está disponível no YouTube do projeto. Confira abaixo: