A Copa do Mundo de 2026 trouxe à tona uma discussão que diz muito a respeito de nossa sociedade. Dias antes de sua estreia, a seleção do Haiti foi obrigada pela organização do torneio a retirar de sua camisa uma referência à Batalha de Vertières, episódio decisivo da Revolução Haitiana e marco da independência do país em 1804. A FIFA (cujo evento em questão tem por uma de suas sedes um país envolto em vários conflitos militares) considerou que o desenho era uma mensagem política.
Em 18 de novembro de 1803, tropas haitianas lideradas por Jean-Jacques Dessalines, derrotaram definitivamente o exército francês. O resultado foi a fundação do Haiti; o primeiro Estado independente surgido de uma revolução conduzida por pessoas até então escravizadas.
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A questão, de certo, ultrapassa a decisão da entidade máxima do futebol. Ela expõe uma hierarquia de memórias construída ao longo de séculos. O uniforme reserva da seleção francesa, por exemplo, traz a inscrição “Liberté”, com um grafismo inspirado na Estatua da Liberdade, um dos principais legados simbólicos da tradição republicana francesa. Já a Revolução Haitiana (protagonizada por homens e mulheres negros que derrotaram a escravidão colonial e fundaram uma república) continua sendo tratada com desconforto.
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Essa distinção revela uma hierarquia global da memória. Algumas histórias são autorizadas a representar a humanidade; outras permanecem confinadas ao espaço da controvérsia.
A controvérsia torna-se ainda mais reveladora quando observamos a própria linguagem visual da camisa dos Les Grenadiers. O uniforme mobiliza uma tradição iconográfica profundamente enraizada na memória haitiana. Desde o século XIX, a batalha foi representada em algumas (poucas) representações visuais que recorreram à estética épica das grandes campanhas militares europeias, com formações de combate, movimento heróico e cenas de bravura. Foi uma maneira de inscrever a Revolução Haitiana no mesmo repertório visual utilizado para representar os grandes acontecimentos da história ocidental.

No Haiti contemporâneo, contudo, a batalha passou a ser reinterpretada por artistas contemporâneos noutra perspectiva. O episódio passou de um acontecimento militar para tornar-se símbolo da resistência negra, da soberania nacional e da sobrevivência coletiva. A camisa da Copa insere-se, de certo, nessa nova perspectiva.
As figuras alusivas à batalha surgem incorporadas ao tecido em tonalidades próximas à cor predominante da camisa, criando um efeito de presença discreta. A imagem opera como uma camada de memória inscrita na superfície do uniforme.
O corpo do atleta transmutado assim, em suporte para a circulação de uma memória coletiva. Mais do que representar uma batalha, a camisa buscava converter a história da independência haitiana em experiência visual compartilhada no palco global da Copa do Mundo.
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Desde o século XIX, o Haiti ocupa uma posição paradoxal na história atlântica. Conforme nos ensinou Michel Rolph-Trouillot, seu processo revolucionário transformou profundamente o mundo moderno, mas frequentemente não recebeu o mesmo reconhecimento concedido a outras revoluções contemporâneas. Não por acaso o evento permanece, muitas vezes, ausente dos currículos escolares, dos museus e das narrativas pretensamente globais sobre liberdade e cidadania.
Quando determinadas narrativas históricas são autorizadas e outras são restringidas, não estamos diante da ausência de política, mas de uma política da representação.

Para o Haiti, o retorno à Copa do Mundo após décadas de ausência parece ser mais do que um feito esportivo. Tratava-se de um momento de afirmação diante de um mundo que frequentemente reduz o país a imagens de crise, pobreza e instabilidade. A camisa buscava apresentar outra narrativa: a de uma nação fundada por uma revolução vitoriosa, por um projeto radical de liberdade e por uma das experiências políticas mais extraordinárias da modernidade.
Se o uniforme haitiano celebrava uma batalha, celebrava sobretudo uma imagem: a imagem de pessoas negras derrotando um império colonial e fundando uma nação soberana. Talvez seja justamente essa potência simbólica que explique o desconforto provocado por Vertières. Afinal, a disputa não era apenas sobre o que estava estampado na camisa, mas sobre quais histórias podem ser vistas quando o mundo inteiro está olhando.
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