Partindo do pressuposto de que a primeira criatura humana foi feita por uma mulher negra, o espetáculo inédito “O princípio do mundo” estreia na quinta-feira (4) às 19h, no Teatro Correios Léa Garcia, no Centro do Rio de Janeiro.
A montagem realiza um desdobramento sobre o fundamento do matriarcado e a orfandade do mundo contemporâneo e é estrelada pela atriz Elisa Lucinda, que assina a dramaturgia com a diretora Geovana Pires. Juntas, elas formam a Companha da Outra.
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“Estamos propondo uma ocupação menos predatória e menos violenta do mundo. É inadmissível que ainda hoje o masculino represente uma ameaça à vida de uma mulher, então desfilamos tais assuntos para fazer refletir, mas utilizando graça, beleza e humor nas palavras. Já estamos vivendo num mundo muito árido, que está carecendo de mais doçura”, afirma Elisa Lucinda.
A atriz conta que na peça, a personagem ancestral, ao lado de seu jovem aprendiz, se embrenha numa saga de cenas que discorrem sobre o perigo do destino humano quando longe dos fundamentos matriarcais. “Neste momento em que estamos, onde as pessoas não sabem como lidar com as crianças e os adolescentes, e muitos jovens estão órfãos de natureza e contatos presenciais, apresentamos um mosaico de ideias para a construção de uma cultura de paz”, adianta.
Deste modo, o sétimo espetáculo da companhia segue na contramão do que pensa o mundo ocidental e se conecta às sociedades africanas — como o ditado que diz que quando um ancião morre, morre uma biblioteca. Não à toa, esses povos têm como prática ritualística de convívio diário encontros onde os ensinamentos são passados através de histórias, fábulas, representações cênicas, cantos e outros fundamentos para os mais novos. De maneira que a juventude consiga, ao conhecer a sua história, assentar o presente neste passado. E quanto mais fortalecida se torna essa raiz, mais o futuro floresce.
“Para viver a Mãe do Mundo tivemos que atravessar essa ancestralidade, mergulhar num começo anterior à narrativa oficial que conhecemos. Se pensarmos bem, essa narrativa oficial da história do mundo, que entendemos como universal, inviabiliza os saberes antigos. Isso levou muitas gerações ao equívoco de verem a África, por exemplo, como uma aldeia, e não um continente com 54 países, cuja contribuição cultural é muito importante para o realinhamento saudável deste mesmo mundo. Eu me sinto em estado de gratidão com os meus fundamentos ao viver essa mãe”, vibra Elisa com a nova personagem.
Algo nem sempre comum, a dramaturgia foi sendo construída à medida em que os ensaios foram acontecendo, o que mudou bastante a concepção do espetáculo.
“É uma diferença enorme, enquanto estou fazendo a dramaturgia eu já estou dirigindo, direcionando para as cenas que considero potencialmente teatrais. Essa construção deixa tudo vivo, menos engessado. É uma entrega absoluta, é como se fôssemos guiadas por esse deus do teatro que vai dizer como espiritualmente o espetáculo deve existir. E abrimos o nosso canal criativo para criarmos uma conexão com esse divino que é o teatro”, acredita a diretora Geovana Pires.
Serviço
Temporada: 4 a 27 de setembro de 2025
Horário: Quinta-feira a sábado às 19h
Local: Teatro Correios Léa Garcia
Endereço: Rua Visconde de Itaboraí, 20 – Centro – Rio de Janeiro – RJ
Classificação Indicativa: 12 anos
Duração: 90 minutos
Ingressos no site.