Há 15 anos, Ernesto Mané, doutor em Física Nuclear e diplomata brasileiro, partiu rumo à Guiné-Bissau para realizar uma travessia geográfica e afetiva, visitando seus avós e parentes. Nascido no Brasil de mãe paraibana e pai guineense, Mané tinha uma inquietação profunda: sair à procura de sua ancestralidade e conhecer o outro lado da kalunga, isto é, o que há na outra ponta da travessia atlântica que tantos africanos fizeram ao longo dos séculos até chegar ao Brasil.
Conhecer a realidade da Guiné e da família que vive ali trouxe desalento e dor, frustrou expectativas, ampliou os questionamentos e o fez revisitar memórias de infância. A paternidade e o divórcio recentes o fizeram olhar de outra maneira para o pai — da geração responsável pela independência da Guiné-Bissau — e para os enredos familiares. Tudo foi registrado no calor da hora no diário que resultaria no livro “Antes do Início”, uma mescla de relato de viagem e ensaio autobiográfico.
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Tendo sofrido racismo desde criança no Brasil, Mané se chocou ao ser chamado de “branco” nas ruas de Bissau, pelo modo de se vestir e se comportar. Aprendeu a comer com as mãos, da mesma tigela dos parentes reunidos à mesa. Conheceu a bolanha, a plantação de arroz junto à qual vivem seus avós em condições extremamente precárias. Um dia ele se viu no transporte público carregando pelos pés um presente que ganhou: uma galinha viva, cena comum nas ruas de Bissau.
As contradições e possibilidades da Guiné chamaram a atenção do jovem cientista, evidenciado o potencial cultural e político do crioulo, idioma que é falado por toda a população, mas que seu pai não lhe ensinou e não é sequer adotado como uma das línguas oficiais do país.
Depois da viagem de 2010, Mané — sobrenome de origem balanta, uma das etnias que compõem a população da Guiné-Bissau — foi admitido no corpo diplomático brasileiro por meio de políticas de ação afirmativa. Em seu diário ele tomou nota do que viu e ouviu como quem secretaria uma reunião familiar e muitas vezes atua em “missão diplomática” junto a irmãs, cunhados e amigos da família.
A obra esta à venda no site da editora Tinta da China Brasil.