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Primeira série ficcional dirigida por mulher negra no RS estreia na TV Brasil

Série gaúcha "Filhos da Liberdade" estreia no Dia Internacional da Mulher (8)
Laila Garroni, atriz negra, em imagem com baixa iluminação. Ela interpreta Amara em "Filhos da Liberdade".

Foto: Divulgação

5 de março de 2024

Primeira série de ficção dirigida por uma mulher negra no Rio Grande do Sul, “Filhos da Liberdade” estreia nesta sexta-feira (8), Dia Internacional da Mulher, às 21h na TV Brasil.

Filmada na cidade de Porto Alegre e região metropolitana, a produção conta a história de Amara (Laila Garroni), uma enfermeira mãe solo que tem sua vida transformada ao retornar ao Quilombo do Sopro, lugar onde nasceu e cresceu. Ali, ela precisará se reconectar com as suas raízes ancestrais para salvar a filha Keliane (Isa Xavier). Em meio a sua busca, Amara descobre que pode viajar no tempo, voltando ao ano exato em que o quilombo foi criado, pouco tempo após o Massacre dos Lanceiros Negros, no final da Revolução Farroupilha.

Em sua jornada, Amara entenderá como passado, presente e futuro se entrelaçam criando injustiças, e também como desse mesmo entrelace ela poderá encontrar as ferramentas para emancipação do seu povo. 

Produzida pela produtora Colateral Filmes, “Filhos da Liberdade” é criada, escrita e dirigida por Mariani Ferreira e Fabrício Costa CantanhedeA série foi financiada através do Fundo Setorial do Audiovisual, através do “Edital TVs Públicas”, do governo federal, concurso que chegou a ser suspenso durante o governo Bolsonaro, mas retomado por conta da mobilização de trabalhadores do setor audiovisual.

A série traz um elenco que mistura nomes veteranos dos palcos e telas com novos talentos. A protagonista da série, Laila Garroni, faz sua estreia em séries de TV, mas construiu sua carreira em palcos de teatro no Brasil e nos Estados Unidos, onde trabalhou com cinema e teatro por 7 anos.

A produção ainda conta com Kaya Rodrigues (“Necrópolis” e “Alce & Alice”), Claudia Barbot (“Contos do Amanhã”), Cássio Nascimento (“Tropa de Elite”) e Paula Souza (“Compro Likes”).

O elenco principal ainda tem a veterana Vera Lopes, atriz pioneira do teatro gaúcho. “Fico honrada em abrir caminhos para novas gerações de realizadores que tornam possível para atrizes como eu viverem papéis como esse”, disse Vera nos bastidores da produção. 

A produção também é a última série gravada pelo ator Sirmar Antunes. Um dos gigantes do cinema e teatro gaúchos,  ele esteve em obras multi-premiadas, como “Neto Perde Sua Alma” (2001), “O Dia que Dorival Encarou a Guarda” (1986) e a minissérie “A Casa das Sete Mulheres” (2003).

Em “Filhos da Liberdade”, Sirmar vive Raimundo, o pai da protagonista e líder do Quilombo do Sopro. Em meio a dor de perder a neta, ela precisa buscar forças para consolar a filha e guiá-la em sua jornada.

“Ter tido a sorte de estrear no audiovisual brasileiro com a benção e parceria do Sirmar é um acontecimento que eu vou levar para o resto da minha vida. Ele não só foi uma referência de como atuar em frente às câmeras, mas por trás delas também”, comenta a atriz Laila Garroni.

A série também marca a estreia na TV dos dois diretores da produção, Mariani e Fabrício. “Foi um processo árduo e prazeroso. Árduo pois tivemos que lidar com um orçamento pequeno para uma ideia tão desafiadora. Enfrentamos dias intensos de calor no meio de uma fazenda, que estava há quilômetros de Porto Alegre, onde a maioria da equipe morava. E prazerosa, pois foi nossa primeira direção de série, então as adversidades e desafios logo eram combatidos pela perseverança do que está por vir”, conta Fabrício.

“Tudo era novidade, logo tudo era um desafio a ser conquistado. E essa inocência de ser estreante acaba por ser uma mola propulsora para seguir em frente independente dos problemas diários, e a buscar as soluções, pois o que importa no final é o que está indo para a tela”, complementa.

Mariani Ferreira explica também que contar uma história passada no período da escravidão, sem explorar apenas os traumas da negritude, foi uma das prioridades dessa produção.

“Nossos personagens foram vítimas da escravidão e seu legado, mas também foram os agentes da própria emancipação. Quando chegamos ao Quilombo do Sopro e entrelaçamos as linhas temporais, a ideia é entender a ancestralidade negra como uma ferramenta de resistência e luta. Nossa protagonista, que inicia a história afastada de suas raízes, mas consegue resistir ao seu opressor buscando força na sua negritude. O tempo se entrelaça para dar à Amara as ferramentas que ela precisa para vencer.”

Laila Garroni e Vera Lopes em "Filhos da Liberdade". Foto: Divulgação
Laila Garroni e Vera Lopes em “Filhos da Liberdade”. Foto: Divulgação

O projeto também tinha o desafio de criar uma produção de ficção de cinco episódios que também abordasse eventos históricos do Brasil. E sobre este processo, o roteirista e diretor Fabrício Costa Cantanhade relata, “buscamos referências em autores importantes para o tema e para a parte histórica da série.  Em relação a parte histórica, não tivemos o intuito de preservar cada detalhe e costume da época, nos concentramos mais nos tipos de relações que haviam”.

A nova série é uma história sobre a busca por justiça. Uma luta que atravessa o tempo. O Quilombo do Sopro é apresentado como uma comunidade ameaçada pelos interesses de um grande fazendeiro. Mas a possibilidade de existência e resistência da comunidade reside na força de seus moradores e na capacidade deles de evocar suas ferramentas ancestrais para a resistência. 

“Quando lutamos para que pessoas negras conheçam suas histórias, para que pessoas negras se vejam representadas na tela, estamos criando uma conexão desse público com formas ancestrais de resistência e luta contra a opressão e o racismo que existem até hoje”, afirma Mariani.

Igualdade no audiovisual

Segundo o coletivo Macumba Lab, grupo que reúne profissionais negros do audiovisual no Rio Grande do Sul ,  até 2024, o Estado teve apenas dois longas de ficção dirigidos por pessoas negras, “Um É Pouco, Dois É Bom” (1970), de Odilon Lopes, e “Porto dos Mortos” (2010), de Davi de Oliveira Pinheiro.

Em toda sua história, apenas uma mulher preta dirigiu um longa-metragem no Estado, sendo ela Camila de Moraes, com “O Caso do Homem Errado” (2017). Um panorama que mostra a desigualdade no acesso à produção audiovisual no RS. 

Nos últimos anos, com a ampliação de políticas públicas na área e a criação de cotas, o estado viu outros realizadores negros dirigirem seus primeiros curtas-metragens Entre eles, as premiadas Juliana Balhego (Quero Ir Para Los Angeles), Gautier Lee (Desvirtude),  Kaya Rodrigues (Pulso) e Ana Moura (Flora). Mas o cenário ainda é desafiador.

Além de “Filhos da Liberdade”, em 2024, apenas outras duas séries gaúchas com direção negra chegam às telas. São elas “Centro Liberdade”, co-dirigida por Cleverton Borges, e a animação “Histórias Atrás da Porta”, também dirigida por Mariani Ferreira, ao lado de Gautier Lee e Rodolfo de Castilhos.  

“Avançamos muito nos últimos anos em relação ao cenário que vivíamos há 10 anos. Foi um avanço feito com muita luta, mas ainda há muito a ser feito para podermos ter um audiovisual de fato diverso e representativo, não apenas no Rio Grande do Sul, mas no Brasil”, pondera Mariani. 

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