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Mulheres negras alcançam 16% dos papéis em novelas da Globo, aponta estudo

Estudo revela que a participação de atores e atrizes negros e negras nas tramas da emissora quintuplicou na série histórica pesquisada, mas personagens brancos ainda dominam as tramas
A atriz Clara Moneke, protagonista de "Dona de Mim", novela da TV Globo.

Leona (Clara Moneke), protagonista de "Dona de Mim", novela da TV Globo.

— Manoella Mello/Globo

27 de outubro de 2025

O término da novela Vale Tudo reacendeu as discussões sobre o papel da teledramaturgia na construção da imagem do Brasil e de seus protagonistas. A trajetória de Taís Araújo, uma das principais atrizes negras da televisão, simboliza tanto o avanço na visibilidade de artistas negros e negras quanto os limites ainda existentes nas narrativas e na representatividade racial nas telas. Essa realidade desigual é detalhada no estudo “Televisão em Cores? Raça e gênero dos atores das novelas da Rede Globo (1977–2023)”, realizado pelo o Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEEMA) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).

O levantamento analisou 254 novelas exibidas entre 1977 e 2023 e revela um crescimento histórico da presença de personagens não brancos, mas também uma distância persistente entre a televisão e a composição racial da sociedade brasileira. Segundo o estudo, ao longo da história as novelas da TV Globo foram compostas por 86,4% de personagens brancos, 7,9% pretos e 5% pardos.

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Nos últimos anos, no entanto, a curva de inclusão começou a mudar. Em 1977, apenas 7% dos personagens eram não brancos. Esse número subiu para 24% em 2022 e chegou a 37% em 2023 — o maior índice da história da emissora. As novelas mais recentes, como “Vai na Fé” e “Amor Perfeito”, se destacaram com 43% e 45% de elenco não branco, respectivamente. Ainda assim, o dado está bem abaixo dos cerca de 56% da população brasileira que se autodeclara preta ou parda no Brasil, segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Outro dado importante do estudo é o espaço que os personagens negros ocupam nas tramas. “Nas histórias principais, onde estão os protagonistas, apenas 8% dos personagens são não brancos, enquanto nas tramas paralelas a proporção sobe para 18%. Ou seja, a presença negra aumentou, mas ainda é mais comum nos núcleos secundários, com menor tempo de tela e prestígio”, constata João Feres Júnior, coordenador do GEMAA.

Raquel (Taís Araújo), protagonista de “Vale Tudo”. Foto: Divulgação/Globo

O levantamento também evidencia um crescimento simultâneo entre homens e mulheres não brancos. Em 2023, homens negros representaram 20% dos personagens e mulheres negras, 16%, ambas marcas históricas para a teledramaturgia brasileira.

Para os autores do estudo, Marcelle Felix, João Feres Júnior e Luiz Augusto Campos, os dados mostram um esforço recente e consistente da emissora em ampliar a diversidade no elenco, especialmente após 2015, mas ainda insuficiente para refletir a pluralidade racial do país.

“As novelas têm um papel simbólico poderoso na forma como o Brasil se vê. O aumento de personagens negros é um avanço, mas é preciso que eles também estejam no centro das histórias e não apenas como coadjuvantes”, reforça Feres.

A análise alerta que, embora a teledramaturgia não precise espelhar a sociedade de forma literal, é essencial que ela não reforce distorções históricas na representação racial. Para o GEMAA, a televisão brasileira vive um momento de virada, e o desafio agora é garantir que a diversidade esteja não só na tela, mas também nas histórias contadas e nas posições de destaque dentro dessas tramas.

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