Entre 2011 e 2023, a cobertura do jornal O Globo sobre as ações afirmativas apresentou narrativas de resistência à implementação das cotas raciais. É o que mostra o estudo do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEEMA) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).
A pesquisa analisou 787 textos publicados no período e destacou que, embora o número de reportagens favoráveis às cotas tenha crescido após 2015, os argumentos contrários ainda são expressivos e, com 53% do total identificado, seguem pautando o debate promovido pelo veículo. Entre os materiais analisados, cerca de 87% das notícias mencionavam as ações afirmativas raciais.
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De acordo com o levantamento, os textos opinativos representaram cerca de 60% da cobertura. Entre ele, as posições contrárias (39,05%) superaram as favoráveis (36,44%). As cartas aos leitores chegaram a representar 56% dos textos de opinião em 2012, apresentando 81,7% de rejeição. As reportagens, majoritariamente favoráveis, somaram quase 40% da cobertura.
O estudo indica que, embora as posições a favor das ações afirmativas predominem numericamente (37%), os argumentos contrários ainda são numerosos.
Em entrevista à Alma Preta, o pesquisador João Feres Júnior, coordenador do GEEMA, explica que os dados demonstram uma resistência da grande imprensa às ações afirmativas, relacionada à estrutura ideológica da defesa da meritocracia e manutenção de privilégios.
“Os jornais brasileiros são doutrinariamente neoliberais, defensores do status quo. Essa cultura é incompatível com as ações afirmativas, então sempre haverá espaço para oposição a essas políticas”, afirmou.
O Globo foi articulador central de partido contra as cotas
Segundo o pesquisador, na primeira década dos anos 2000, o O Globo atuou como articulador central do “partido contrário às cotas”, liderado por figuras influentes no próprio grupo empresarial.
“Ali Kamel, então editor-chefe, liderou uma campanha contra as cotas raciais, com forte mobilização de intelectuais e artistas. Essa posição perdeu força apenas depois das decisões favoráveis no Congresso e no STF, em 2012, que reconheceram a constitucionalidade da política”, apontou.
Entre 2015 e 2021, o cenário tornou-se mais equilibrado, com uma redução no volume de publicações, independentemente do tipo de texto. Em 2022, com um novo aumento no número de notícias, as reportagens superaram os textos opinativos, mantendo-se em maioria por dois anos consecutivos.

De acordo com o estudo, até 2012, quando se discutia a moralidade e legalidade das cotas raciais, o jornal publicava muito mais artigos opinativos que reportagens.
Para Feres, a tendência da rejeição às cotas ocorreu concomitantemente à conquista dos movimentos sociais e governos progressistas pela Lei de Cotas e seu reconhecimento constitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
“Tais derrotas tiveram o efeito de tirar o tema do centro da agenda do jornal. Com o passar do tempo, o sucesso das cotas e a mudança política do Brasil com o aparecimento da extrema-direita, o jornal tornou-se mais simpático ao tema. O veículo passou a abrir espaço para textos que reconhecem os bons resultados das cotas raciais e para artigos de opinião de pessoas favoráveis, tratando a ação afirmativa como fato consumado e não como uma questão aberta, polêmica.”, explica.
Conforme apontou o pesquisador, a influência da grande imprensa incide muito sobre as elites decisórias e, indiretamente, sobre o público em geral.
“Os artigos opinativos e editoriais são lidos por um público mais elitizado, como políticos, membros da administração pública, do poder judiciário, empresários, mas essa função é muito importante, particularmente em um contexto como em 2022, quando expirou o prazo para a reavaliação prevista na lei. O Congresso Nacional também promoveu audiências públicas para discutir sua avaliação”.
A Alma Preta procurou o O Globo e questionou se o veículo tomou conhecimento sobre a pesquisa produzida pelo Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEEMA) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), e qual é o posicionamento do jornal diante das afirmações presentes no estudo e mencionadas nesta reportagem. Até a publicação deste texto, não houve resposta. O espaço segue aberto.