A 11ª Mostra Cinema e Negritude, realizada no Sesc Glória durante o 33º Festival de Cinema de Vitória, sediado no Espírito Santo, reuniu curtas-metragens que pautaram as vivências negras sob a ótica do afeto, do cotidiano e da ancestralidade.
Com um recorte que foge das armadilhas da violência estrutural, as produções exibidas na capital capixaba destacaram a pluralidade e a subjetividade das narrativas pretas no cinema contemporâneo.
Quer receber nossa newsletter?
Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!
Confira os cinco curtas-metragens que movimentaram a tela da mostra nesta edição:
1. “Às Compras” (Direção de Luiz Guilherme Assis)

O curta acompanha uma família negra no supermercado para discutir consumo e dignidade. A ideia surgiu de uma vivência do diretor Luiz Guilherme Assis no Rio de Janeiro, ao lembrar da época em que precisava somar centavos antes de ir ao caixa.
“Lembrei das minhas vivências no mercado, que era um lugar de felicidade, mas também de opressão. Um lugar que tem sentimentos muito amplos, desde casos de racismo, casos de morte, mas pode ser um lugar de afeto também”, explica Luiz Guilherme em entrevista à Alma Preta.
“Quis resgatar o lugar de afeto para esse momento tão importante para uma família: poder comprar, poder consumir, poder sobreviver”, completa.
“Estar nesta sessão com filmes maravilhosos, que falam sobre negritude especificamente, e de um recorte muito positivo, muito otimista, é incrível. Eu acho que ‘Às Compras’ deveria estar aqui, ele precisava passar aqui”, compartilha o cineasta.
2. “O Pai da Rainha de Angola” (Direção de Rodrigo França)

A trama, que desconstrói os estigmas em torno da paternidade preta solo, acompanha Ravi, que adota Thelminha, uma menina de sete anos. À medida que tentam se adaptar à nova rotina, a garota revela sua imaginação e reivindica sua verdadeira identidade: Zuri, a Rainha de Angola.
Com delicadeza e sensibilidade, o curta mostra como o resgate ancestral e o respeito ao imaginário infantil fortalecem os laços de um amor que vai muito além do sangue.
3. “Faça Uma Pose” (Direção de Alek Lean)

Com tom experimental e poético, o filme-ensaio de Alek Lean resgata uma coletânea de fotografias registradas entre as décadas de 1940 e 1970.
O foco está na celebração do afeto, do carinho e da cumplicidade entre homens negros do mesmo sexo em pleno período de forte opressão às dissidências sexuais. A obra é uma arqueologia do amor preto que resistiu às apagamentos históricos.
4. “Encantos para Omo e Iyá” (Direção de Antonio Balbino)

Ambientado no Distrito Federal, o curta acompanha uma família em formação durante um final de semana em um espaço sagrado. No encontro com a natureza e com as energias ancestrais, os personagens fortalecem seus laços de carinho e pertencimento.
A obra pauta a espiritualidade de matriz africana e a natureza como refúgios de cura, restauração e união familiar.
5. “Dentro do meu peito mora um cão” (Direção de Gabriel Afonso)

Em uma cidade mineira atravessada pelas marcas da exploração minerária, o jovem Josué enfrenta a insônia e as incertezas da transição para a vida adulta.
O curta mergulha na subjetividade e na saúde mental da juventude negra, capturando as angústias, pressões e a busca por um lugar no mundo em meio a um território tomado pelo extrativismo.
Leia mais: ‘Transformei minha dor em arte’: protagonismo trans é destaque no Festival de Cinema de Vitória