A nova montagem de “Ópera do Malandro” reafirma a força de um clássico que atravessa gerações ao discutir poder, desigualdade e contradições da sociedade brasileira. Mais de quatro décadas após sua estreia, o texto de Chico Buarque continua ecoando no presente — agora com novas camadas de representatividade e protagonismo negro nos palcos.
Entre os destaques da montagem estão os atores Valéria Barcellos, que interpreta Geni, e Amaury Lorenzo, no papel de Chaves/Tigrão. Suas presenças no espetáculo ampliam o debate sobre diversidade, identidade e os lugares historicamente negados a artistas negros e trans no teatro brasileiro.
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Para Valéria, viver Geni é um encontro profundo entre trajetória artística e identidade.
“A Geni é uma das personagens mais emblemáticas da obra do Chico e da minha vida. É uma personagem que eu me dediquei muito pra fazer, me apaixonei pela história e quando eu descobri que ela era uma pessoa trans, descobri isso através de pequenos sinais da personagem e da música, essa vontade latente de fazê-la só aumentou sei lá quantas vezes mais. Nesse nesse momento da minha carreira, fazê-la é muito importante”, conta.
Segundo a atriz, ocupar esse espaço vai além da presença simbólica: trata-se de afirmar existência dentro de um circuito artístico historicamente restrito.
“Eu penso que representa demarcação de existência mais do que a demarcação de território. Eu estou em um dos teatros mais reconhecidos do país, então é claro que é uma demarcação de território, mas eu acho que eu prefiro olhar um pouco mais além. É uma demarcação de existência para dizer que nós existimos nesse círculo também das artes da atuação,que estamos ali para fazer o nosso trabalho e para tentar minimamente mostrar nossa realidade”.

No espetáculo, Amaury Lorenzo interpreta Chaves/Tigrão, personagem que simboliza o poder corrupto e as contradições do Brasil. Para o ator, integrar um clássico do teatro musical brasileiro representa um encontro entre arte e identidade nacional.
“Sempre desejei estar em um Musical enquanto ator. Fui convidado a estar em outros projetos musicais incríveis, mas não brasileiros. E eu tenho a necessidade de falar sobre o nosso país. Tenho o desejo de estar, na medida do possível, em projetos artísticos que tratem de Brasil. Esta é uma questão importante na minha carreira de 32 anos. Quando fui convidado para interpretar esse papel, tudo fez sentido”, compartilha.
Para o ator, a obra continua atual porque retrata estruturas de poder que permanecem presentes no país.
“Chaves/Tigrão representa o poder corrupto. Aquele que deveria salvaguardar a sociedade mas a explora. É um personagem real que vemos todos os dias nos jornais brasileiros. Esse homem do poder corrupto pode estar na Lapa do Chico Buarque, como pode estar na Faria Lima, em São Paulo, no Leblon, no Rio de Janeiro, ou em Brasília”, aponta.
Lorenzo destaca que a construção do personagem aposta no humor como estratégia para aproximar o público de uma figura moralmente complexa.
“A partir desta construção de personagem, a direção do Farjalla e eu trazemos o humor como mecanismo de acesso ao público. Se não fosse o humor empregado à construção do personagem, o Chaves/Tigrão seria um vilão distante, que o público nao se identificaria”.
Para Lorenzo, a permanência da obra no imaginário coletivo se explica justamente por seu diálogo direto com a identidade brasileira.
“Opera do Malandro continua atual porque trata de brasilidade, de construção de identidade brasileira. O público brasileiro quer ver suas questões sociais, políticas e humanas apresentadas no palco e refletir sobre isso.”
Ator negro com mais de três décadas de carreira, ele também vê sua presença no espetáculo como parte de uma trajetória de resistência dentro das artes.
“É uma luta. Mas gosto das lutas. Tenho lutado nos palcos há 32 anos, desde os oito, quando ouvi de um professor de balé clássico que eu nao faria um príncipe porque príncipes eram loiros. A luta começou ali”, recorda.
Ao reunir artistas negros e uma atriz trans em papéis centrais, a nova montagem de “Ópera do Malandro”, em cartaz até 15 de março no Teatro Renault, em São Paulo, reafirma o poder do teatro como espaço de reflexão, transformação e disputa simbólica sobre quem ocupa o palco e quais histórias merecem ser contadas.