A crise climática é um dos mais graves resultados do modelo econômico dominante no mundo: o capitalismo. A produção desenfreada, o consumo excessivo e a concentração de riquezas não só geram desigualdades sociais, como destroem o meio ambiente.
O capitalismo global e as desigualdades sociais, porém, não serão debatidos no centro da COP, assim como não foram nas demais edições. A promessa de construção de um novo mundo, sem emissões de gases estufa, não inclui a meta de uma economia que garanta dignidade para todos.
Quer receber nossa newsletter?
Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!
Essas são as principais ausências da Conferência das Partes, mais conhecida como COP. O evento vai acontecer pela trigésima vez — dessa vez em Belém, no Brasil — para debater o aquecimento global e pensar em estratégias para frear não o fim do mundo, mas a extinção da humanidade.
Mas o encontro tem as suas limitações, e qualquer expectativa de que uma resolução sairá integralmente das COPs é ingenuidade.
Quem protege o meio ambiente está excluído
Um dos reflexos da desigualdade e da ganância sobre o meio ambiente é o racismo ambiental e os impactos desproporcionais do aquecimento global sobre as pessoas negras.
Quilombolas, que são reconhecidamente protetores do meio ambiente, sofrem com a pressão de grandes corporações nos seus territórios e a violência do agronegócio. Mas são eles que estão praticamente fora da programação oficial da COP30, a chamada Blue Zone, onde ficam os pavilhões dos países e onde acontecem as negociações.
Em vez dos quilombolas, a COP conta com a presença e o protagonismo de empresas acusadas de cometer crimes contra o meio ambiente. Industriais, representantes do agronegócio e empresários vêm para o encontro apresentar soluções climáticas. Mesmo com o histórico de infrações ambientais, elas não têm qualquer constrangimento.
Políticos defensores do garimpo também encontram na COP o momento para incidir politicamente e defender uma maior facilidade para exploração de minerais em territórios tradicionais ou indígenas.
Os Estados Unidos, atualmente sob a gestão de Donald Trump, também devem ser mais um empecilho para o avanço da agenda climática na COP 30. A maior economia do mundo e o maior emissor de gases estufa do planeta ainda não se coloca como um agente importante para enfrentar o aquecimento global.
Por esses motivos, o evento pode melar as expectativas de ambientalistas de garantir que a temperatura média da Terra fique apenas 1,5 °C acima do padrão histórico. Ultrapassar essa fronteira é viver em um mundo com eventos climáticas extremos com uma alta capacidade de destruição.
Um pouco de otimismo
Mesmo diante de tantas limitações, a COP30 se coloca como uma edição que pode obter mais avanços que as últimas edições desse encontro anual.
Um dos fatores positivos é a abertura democrática brasileira — ainda que com suas limitações. Nas últimas três últimas COPs, que aconteceram respectivamente no Egito, em Emirados Árabes e no Azerbaijão, não houve protestos nas ruas, pois são proibidos nesses países.
A possibilidade de manifestações públicas, então, é um convite para grupos de toda América Latina e do mundo participarem e pressionarem os líderes globais por novos compromissos ambientais.
Outro sinal que dá um mínimo de esperança é a presidência da COP. O Brasil optou por uma pessoa sem ligações com o setor do petróleo, diferentemente do que aconteceu nas edições recentes, e escolheu um diplomata para o cargo, o embaixador André Corrêa do Lago.
Além disso, o presidente Lula, apesar das suas contradições — como a de autorizar a exploração de petróleo na Foz do Amazonas—, tenta se projetar como um líder climático do Sul global.
Essa liderança do Brasil pode ser importante para pressionar os demais países para garantir um maior compromisso com a agenda climática e assim assegurar resultados positivos para o evento em Belém.
Contradições da financeirização
Mesmo que diante de contradições, como a financeirização do meio ambiente, a COP30 traz uma ação concreta em relação à Amazônia: o Fundo de Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, sigla em inglês).
O fundo, liderado pelo Brasil, é uma ótima maneira de pressionar os europeus e norte-americanos para doarem recursos, que serão distribuídos para países do Sul que abrigam as maiores florestas tropicais.
E é quase certo que ele será uma das “entregas” da COP30 ao final do evento. Até o momento, ao menos US$ 6 bilhões já foram arrecadados, segundo o governo brasileiro.
Ele é exemplo de uma disputa recorrente nas diferentes COPs: países do Sul exigem dos países do Norte que financiem a adaptação às mudanças climáticas.
O TFFF ainda assegura que, ao menos 20% de tudo o que for arrecadado, será destinado para as comunidades tradicionais e os povos indígenas na ponta que asseguram a preservação das florestas tropicais do mundo.
Riscos e expectativas
Se a COP30 tem a expectativa de ter uma pequena delegação quilombola oficial, os povos indígenas garantiram uma representação histórica, com 360 credenciais, uma articulação histórica e que pode ser um ganho na agenda climática nacional.
A cobertura do evento pela imprensa nacional e internacional também trará análises e projeções relacionadas ao início da campanha presidencial no Brasil, considerando os processos eleitorais de 2026.
Lula, que recuperou parte da sua popularidade com o discurso da soberania nacional, será avaliado e julgado durante a COP30. O presidente pode ampliar seu capital político como um líder e estadista, ou ser atacado por não fechar os acordos esperados em Belém.
Para além do compromisso com o meio ambiente, o peso político do encontro às vésperas da disputa presidencial pode fazer o governo brasileiro agir para apresentar resultados concretos para a COP30. Os possíveis bons resultados, contudo, estarão aquém das necessidades do planeta.