Os partidos políticos no Brasil destinam menos recursos financeiros a mulheres e pessoas negras. A transferência ocorre mais tarde para esses grupos. A conclusão consta de um estudo publicado na Revista Brasileira de Ciência Política.
De autoria dos pesquisadores Teresa Sacchet, Hannah Maruci Aflalo, Marcus Vinícius C. Alves e Vanilda Souza Chaves, a pesquisa analisou dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre o financiamento eleitoral nas eleições de 2018 e 2022 para os cargos de deputado federal e estadual.
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O estudo considerou quatro dimensões do financiamento de campanha. O tipo de recurso repassado, o momento da transferência, as doações internas entre candidatos e a distribuição de verbas para candidatos à reeleição e desafiantes.
Mulheres e pessoas negras receberam uma parcela maior de recursos estimáveis. Santinhos, material de campanha e outros bens não financeiros compõem essa categoria. Homens brancos, por outro lado, acessaram uma proporção maior de recursos financeiros. Essa modalidade confere maior autonomia ao candidato para decidir onde investir.
Para o cargo de deputado federal em 2018, a proporção de recursos estimáveis na receita dos homens brancos foi de 2,7%. Mulheres negras receberam 5,2%, homens negros 5,3% e mulheres brancas 5,6%. Em 2022, os percentuais caíram para todos os grupos, mas as mulheres negras continuaram com a maior proporção de estimáveis (4,3%), contra 2,2% dos homens brancos.
A análise mostra que, quanto mais distante o grupo do perfil hegemônico, maior a proporção de recursos não financeiros em sua receita.
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A pesquisa analisou a distribuição de recursos semana a semana durante o período de campanha. Em 2018, na disputa para deputado federal, os homens brancos receberam 4,4 vezes mais recursos que as mulheres negras na primeira semana. Na segunda semana, essa diferença chegou a 5,6 vezes.
Em 2022, com a extensão da política de ação afirmativa para pessoas negras, a diferença diminuiu. Os homens brancos ainda receberam 2,5 vezes mais que as mulheres negras na primeira semana e 1,5 vez mais na segunda.
O dinheiro recebido no início da campanha permite o pagamento de aluguel de sedes, contratação de equipes e confecção de materiais. Mulheres e pessoas negras começaram o pleito em desvantagem.
Doações internas entre candidatos
A análise das transferências entre candidatos revelou um padrão consistente. Homens doam mais para homens.
Em 2022, homens transferiram 84,4% de seus recursos para outros homens. Mulheres, por sua vez, doaram 62% para outras mulheres. Homens destinaram apenas 15,6% de seus recursos para mulheres. Mulheres transferiram 38% de seus recursos para homens.
O padrão se repete com o marcador racial. Pessoas brancas doaram 70,5% de seus recursos para candidatos brancos. Pessoas negras doaram 65,4% para candidatos negros. Pessoas negras transferiram 34,6% de seus recursos para candidatos brancos, enquanto brancos destinaram apenas 29,5% para negros.
Os pesquisadores sugerem que partidos podem usar verbas destinadas a mulheres e pessoas negras para financiar homens brancos mais competitivos, por meio de doações entre candidatos.
Reeleição e recursos
Candidatos à reeleição concentram a maior parte dos recursos. Em 2018, homens brancos candidatos à reeleição representavam 5,1% do total de candidaturas a deputado federal. Eles receberam 32,4% dos recursos. Mulheres negras na mesma situação representavam 0,2% das candidaturas e receberam 1,7% dos recursos.
Uma vez eleitas, no entanto, candidatas negras à reeleição passaram a receber mais apoio. Em 2018, a média de recursos para mulheres negras foi de R$ 1,73 milhão, superando a média de homens brancos e mulheres brancas.
Em 2022, mulheres negras alcançaram a maior média de recursos entre candidatos à reeleição para deputado federal (R$ 1,93 milhão).
Para deputado estadual em 2022, mulheres negras candidatas à reeleição receberam, em média, R$ 606 mil. Homens brancos na mesma situação receberam R$ 332 mil.
Os autores do estudo concluem que os partidos investem mais em mulheres e pessoas negras candidatas à reeleição como estratégia de maximização de votos para a legenda, não como política de ampliação da representação desses grupos.
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