“Enegrecer o feminismo é missão cumprida. O desafio agora é outro”, sintetiza a filósofa e ativista Sueli Carneiro sobre os avanços da 1ª Marcha das Mulheres Negras de 2015 e os desafios do movimento de mulheres negras.
A reflexão foi registrada durante entrevista concedida à Alma Preta e a outros dois veículos da mídia independente, um dia antes da 2ª Marcha das Mulheres Negras. O ato político histórico aconteceu no último 25 de novembro, em Brasília.
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“O que eu, pessoalmente, sinto falta é de vencer essa ideia de que política destinada para nós é o precário e a reprodução do precário. Superar esse paradigma é o desafio que nós temos para o futuro”, analisa Carneiro sobre os próximos dez anos.
Sueli Carneiro é uma das principais referências dos debates do feminismo negro brasileiro e participou de discussões importantes sobre cotas raciais nas universidades brasileiras. Ativista do movimento negro, ela é uma das fundadoras da Geledés – Instituto da Mulher Negra, em 1988.
Em sua tese de doutorado na Universidade de São Paulo (USP), desenvolveu o conceito de dispositivo de racialidade. Esse “dispositivo” é o que produz formas de exclusão sobre a população negra brasileira, “enquanto reproduz a hegemonia branca nos espaços de poder”.

Em um balanço sóbrio com um chamado à ação para as próximas gerações, ela avaliou os avanços de sua geração e os desafios para o futuro do movimento negro.
Busca deve ser por prosperidade
Para ela, o próximo passo da luta antirracista não deve ser apenas por direitos, mas por um projeto nacional de redistribuição radical de oportunidades e riqueza. E isso começa com o rompimento do modelo atual das políticas públicas destinadas à população negra.
”É preciso “sair da oferta e aceitação de políticas de precariedade em prol de um processo virtuoso, de um ciclo virtuoso de políticas de prosperidade”, sintetizou.
Para ilustrar a dimensão do abismo, citou dados apresentados pela jornalista Flávia Oliveira: “O que o Estado brasileiro gasta em política pública com o arco da igualdade racial é menos de 10% do que custa o Bolsa Família”.
O objetivo final, segundo ela, deve ser “ousar reivindicar aquilo que eles não fizeram no 13 de maio de 1888”: uma verdadeira inclusão econômica e social.
“É esse paradigma que a gente tem que ousar desafiar daqui para frente. Sem isso, a gente não estabelece (…) a promoção da prosperidade coletiva da nossa gente”, finalizou.
Os avanços das últimas décadas
Sueli sistematiza os avanços conquistados por sua geração, ainda que ela não esteja vivendo o país que sonharam.
“Essa geração é a que primeiro reativou o movimento social e fez parte do esforço de redemocratização que trouxe. Fez emergir essas novas demandas por direitos que o movimento negro, o movimento feminista e movimento quilombola trouxeram para a cena pública”, enumera.
A reflexão foi motivada por uma pergunta sobre o futuro: o que se poderá comemorar em 2035?
Antes de enumerar as conquistas, Carneiro começou reconhecendo um sentimento comum em sua geração. “Não é o país que a gente sonhou, não é o país pelo qual a gente lutou. Há uma frustração aí”, admitiu.
Mas, ao começar a elencar os avanços, ela destacou o legado fundamental das últimas décadas: a desconstrução do “mito da democracia racial”.
“Nós mostramos para muitos e muitas que este é um país que pratica uma forma de racismo que é muito mais profunda. É mais perversa do que a encontrada em outros lugares, (…) porque, por longo período, a vítima acabou sendo cúmplice da sua própria opressão, pela reiterada narrativa de que vivíamos num paraíso racial”, explica.
Ela lembrou também que, desde a década de 1970, a luta antirracista no Brasil alterou desde outros fundamentos do discurso público sobre raça.
“Em 1978, tem uma expressão muito importante, muito especial com a criação do Movimento Negro Unificado (MNU), que trouxe uma nova perspectiva política para o movimento negro, ao articular as questões de raça e classe”, relembra.
Essa batalha intelectual pavimentou o caminho para o reconhecimento público do racismo como uma estrutura central da sociedade.
Participação na Constituição cidadã
Carneiro também destaca o protagonismo do movimento negro e das mulheres na Assembleia Constituinte e na construção da Constituição Cidadã de 1988. “Essa Constituição criminalizou, enfim, o racismo”, destacou.
Ela salientou também os avanços para as mulheres e o reconhecimento do direito das comunidades quilombolas à propriedade de suas terras.
“Isso tudo são lutas empreendidas e conquistas extraordinárias, num contexto em que sequer havia o reconhecimento de que nós éramos uma agenda política, uma demanda para o estado brasileiro”, relembra.
No contexto em que se funda o Geledés, nos anos 1980, emergem inúmeras organizações de mulheres negras de norte a sul do país, que culminaram na criação de redes nacionais.
Os primeiros grupos foram a Remunea – Reunião de Mulheres Negras Aqualtune (1978), Luiza Mahin (1980), Coletivo de Mulheres Negras de São Paulo (1982) e o Nzinga (1983).
Esses coletivos crescem e se consolidam em diferentes estados, como o Mãe Andresa, no Maranhão (1986); o Coletivo de Mulheres Negras, em Minas Gerais (1986); e o Maria Mulher, no Rio Grande do Sul (1987).
Com o passar dos anos, o feminismo negro consolida-se como um ator político autônomo e organizado. “Não existe causa sem protagonismo, e é isso que as mulheres negras vêm fazendo há mais de três décadas”, comemorou.
Cotas raciais e a reação mais violenta da branquitude
O ponto de virada, em sua avaliação, foi a política de cotas raciais no ensino superior. “Conquistamos as cotas nas universidades, que acho que é a mais exitosa das nossas demandas. Mudou radicalmente o campus e colocou o problema racial em outro patamar”, avalia a filósofa.
Carneiro analisa que esse sucesso, porém, escalou o conflito. “O racismo se torna cada dia mais explícito, mais violento… Nós não estamos mais brigando com uma branquitude que se esconde. (…) Ela está se organizando para frear esse avanço”.
E essa resistência às conquistas assumiu uma nova e perigosa forma, como a emergência de grupos de extrema-direita. “É uma supremacia branca que busca reafirmar a sua hegemonia. A evidência disso são 121 corpos no Complexo do Alemão. É este o momento do racismo que infelizmente vocês vão ter que enfrentar”, explica Carneiro.
Diante desse cenário, ela reforça que a resposta é a mesma: continuar lutando. “Não adianta reclamar, tem que lutar. Senão nós vamos aceitar os termos que o contrato racial deles estabelece para nós: subalternização ou eliminação”.